Coluna
Artigos de opinião escritos ao estilo de seu autor. Estes textos se devem basear em fatos verificados e devem ser respeitosos para com as pessoas, embora suas ações se possam criticar. Todos os artigos de opinião escritos por indivíduos exteriores à equipe do EL PAÍS devem apresentar, junto com o nome do autor (independentemente do seu maior ou menor reconhecimento), um rodapé indicando o seu cargo, título académico, filiação política (caso exista) e ocupação principal, ou a ocupação relacionada com o tópico em questão

O vazio do Poder

Brasília abriga hoje Poderes imaginários, guardando pouco dos desígnios e dos ideais de seus fundadores

Pessoas caminham pelo Eixão, em Brasília.
Pessoas caminham pelo Eixão, em Brasília.Antônio Cruz (Agência Brasil)
Mais informações
Revolta ou Revolução?
Diplomacia na era Trump
Algo me faz lembrar a “marcha de insensatez” que levou à primeira Guerra
Por uma ação externa afirmativa para superar os muros reais e imaginários do Brasil

Passei o longo fim de semana do feriadão de Corpus Christi em Brasília. Não havia muita gente na cidade. Depois de meses de escândalos e luta aberta pelo poder, de vinganças políticas e retaliações, Brasília parecia quase deserta. O sol brilhante da estação da seca, as árvores ainda verdes e floridas davam à cidade uma beleza invulgar. Apenas o ruído do vento interagia com famílias andando pelo Eixão e crianças brincando. Cidade com o maior nível de renda per capita do país, Brasília, dedicava-se ao lazer, como se nada estivesse acontecendo.

Desenhada por um urbanista-ideólogo e edificada por um arquiteto-escultor, Brasília abriga hoje os Poderes imaginários do nosso país. Pouco sobra dos desígnios e dos ideais de seus fundadores.

“Deste planalto central, desta solidão que em breve se transformará em cérebro das altas decisões nacionais, lanço os olhos mais uma vez sobre o amanhã do meu país e antevejo esta alvorada, com fé inquebrantável e uma confiança sem limites no seu grande destino”. A profecia irrealizada de Juscelino Kubitschek torna ainda mais dolorosa a realidade que hoje enfrentamos e o olhar que lançamos só vê a semelhança entre o estado do nosso país e o desfiguramento da cidade idealizada nos anos 50.

Recentemente estive presente em uma conferência sobre artes plásticas dedicada a três grandes post neo-concretistas brasileiros. Hora e meia de apresentações, análises e discussões lideradas por dois importantes críticos. Guardei das apresentações e dos debates uma impressão inquietante. As peças de cada autor projetadas numa tela pareciam para mim belíssimas pelo que eram, pela invenção dos autores, pelo prazer visual e intrigante que provocavam nos que as contemplavam. Como a Brasília projetada em outros tempos.

As análises feitas pelos críticos, porém, me deixaram de certo modo aturdido. Termos cada vez mais complicados e alusões que a maioria dos mortais não poderiam sequer entender. Intrigou-me sobretudo o momento em que um crítico passou a analisar as obras a partir do que ele chamou de “a metafísica da imanência”. Conheço o significado de “metafísica” e de “imanência”. Mas depois de meditar bastante até hoje não sei o que o crítico quis dizer ao juntar os dois conceitos. E muito menos como se aplicam a obras de arte concreta.

Lembrei-me da peça de teatro satírica de um grande autor contemporâneo francês, Jacques Mougenot, que, traduzida por minha mulher Marilu, ficou recentemente bom tempo na Maison de France no Rio de Janeiro: “O Escândalo Philippe Dussaert”. Trata-se de um monólogo brilhantemente interpretado no Brasil pelo ator Marcos Caruso, cujo tema principal é o significado das obras de arte, especificamente pinturas. O personagem Philippe Dussaert especializa-se em criar reproduções de grandes obras-primas da pintura com apenas a paisagem de fundo, sem os personagens: os campos detrás da Mona LIsa, sem o seu sorriso enigmático; o Almoço no Campo, de Manet, sem os comensais; a Moça do Brinco de Pérola de Vermeer reduzida a uma tela preta, e assim por diante. Graças a críticos benevolentes, Dussaert adquire notável fama. Faz seguidas exposições, cada qual um pouco mais minimalista que a outra. Até que, cercado de grande expectativa, produziu o que seria sua última exposição. Na abertura, os espectadores se deliciam com o que veem: um imenso espaço pintado de branco, onde não há rigorosamente nada. Os críticos aplaudem a criatividade do autor. O Museu de Arte Moderna de Nova York dispõe-se a comprar a exposição por um preço astronômico. O Governo francês, no entanto, declara que a obra - o Nada - passaria a ser reconhecida como patrimônio cultural da França e não poderia deixar o país. O Nada havia transformado-se em obra de arte. Quem sabe seria este o significado profundo de “metafísica da imanência”? Quem sabe seria essa a impressão que me causava Brasília? O Nada....

Como se a crise tivesse acabado e os problemas institucionais e penais do país tivessem milagrosamente sido resolvidos. Como se não fossem mais imanentes a nossa sociedade corrompida por séculos de exploração colonial e de independência virtual. Como se, em vez de reais, nossos problemas tivessem passado a ser imaginários, metafísicos.

Nestes dias, a metafísica da imanência adquiriu para mim um significado mais claro. É o que experimentamos nesses sombrios e destroçados tempos que atravessamos. Para os jovens, são tempos de absoluta descrença; para os marginais, revelam-se propícios ao crime e a violência aumenta a olhos vistos; para os mais velhos, porém, como eu, são tempos da mais profunda decepção. O país que imaginávamos, “a terra mais garrida” de todas mostra a sua cara cotidianamente no Congresso, no Judiciário e no Executivo. Poucos são os agentes da lei e da ordem que se mantêm em posição de combate. Implantou-se o desânimo e o sentimento de acomodação. “Assim fomos, somos e seremos”. O país transformou-se no espaço branco e vazio da peça. Na metafísica da imanência.

Jorge Luis Borges, em seu poema “Las Causas”, cita fatos e situações casuísticas que desde a Antiguidade se sucederam para formar o mundo que somos: “… a frescura da água na garganta de Adão… o olho decifrando as trevas…a palavra… o espelho… a sombra das cruzes na Terra… as conquistas de reinos pela espada… o eco do relógio na memória… o rosto do suicida no espelho… cada remorso e cada lágrima… foram necessárias todas estas coisas para que nossas mãos se encontrassem”.

Citações tiradas do poema que, na sua inteireza, resumem os fatos e as causas do que o mundo veio a ser. Quem se atreveria hoje a fazer algo semelhante sobre a evolução do Brasil e interpretar nossa História de forma positiva, “para que nossas mãos se encontrem”?

Mais informações

Arquivado Em

Recomendaciones EL PAÍS
Recomendaciones EL PAÍS