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COLUNA

O vazio do Poder

Brasília abriga hoje Poderes imaginários, guardando pouco dos desígnios e dos ideais de seus fundadores

Pessoas caminham pelo Eixão, em Brasília.
Pessoas caminham pelo Eixão, em Brasília. Agência Brasil

Passei o longo fim de semana do feriadão de Corpus Christi em Brasília. Não havia muita gente na cidade. Depois de meses de escândalos e luta aberta pelo poder, de vinganças políticas e retaliações, Brasília parecia quase deserta. O sol brilhante da estação da seca, as árvores ainda verdes e floridas davam à cidade uma beleza invulgar. Apenas o ruído do vento interagia com famílias andando pelo Eixão e crianças brincando. Cidade com o maior nível de renda per capita do país, Brasília, dedicava-se ao lazer, como se nada estivesse acontecendo.

Desenhada por um urbanista-ideólogo e edificada por um arquiteto-escultor, Brasília abriga hoje os Poderes imaginários do nosso país. Pouco sobra dos desígnios e dos ideais de seus fundadores.

“Deste planalto central, desta solidão que em breve se transformará em cérebro das altas decisões nacionais, lanço os olhos mais uma vez sobre o amanhã do meu país e antevejo esta alvorada, com fé inquebrantável e uma confiança sem limites no seu grande destino”. A profecia irrealizada de Juscelino Kubitschek torna ainda mais dolorosa a realidade que hoje enfrentamos e o olhar que lançamos só vê a semelhança entre o estado do nosso país e o desfiguramento da cidade idealizada nos anos 50.

Recentemente estive presente em uma conferência sobre artes plásticas dedicada a três grandes post neo-concretistas brasileiros. Hora e meia de apresentações, análises e discussões lideradas por dois importantes críticos. Guardei das apresentações e dos debates uma impressão inquietante. As peças de cada autor projetadas numa tela pareciam para mim belíssimas pelo que eram, pela invenção dos autores, pelo prazer visual e intrigante que provocavam nos que as contemplavam. Como a Brasília projetada em outros tempos.

As análises feitas pelos críticos, porém, me deixaram de certo modo aturdido. Termos cada vez mais complicados e alusões que a maioria dos mortais não poderiam sequer entender. Intrigou-me sobretudo o momento em que um crítico passou a analisar as obras a partir do que ele chamou de “a metafísica da imanência”. Conheço o significado de “metafísica” e de “imanência”. Mas depois de meditar bastante até hoje não sei o que o crítico quis dizer ao juntar os dois conceitos. E muito menos como se aplicam a obras de arte concreta.

Lembrei-me da peça de teatro satírica de um grande autor contemporâneo francês, Jacques Mougenot, que, traduzida por minha mulher Marilu, ficou recentemente bom tempo na Maison de France no Rio de Janeiro: “O Escândalo Philippe Dussaert”. Trata-se de um monólogo brilhantemente interpretado no Brasil pelo ator Marcos Caruso, cujo tema principal é o significado das obras de arte, especificamente pinturas. O personagem Philippe Dussaert especializa-se em criar reproduções de grandes obras-primas da pintura com apenas a paisagem de fundo, sem os personagens: os campos detrás da Mona LIsa, sem o seu sorriso enigmático; o Almoço no Campo, de Manet, sem os comensais; a Moça do Brinco de Pérola de Vermeer reduzida a uma tela preta, e assim por diante. Graças a críticos benevolentes, Dussaert adquire notável fama. Faz seguidas exposições, cada qual um pouco mais minimalista que a outra. Até que, cercado de grande expectativa, produziu o que seria sua última exposição. Na abertura, os espectadores se deliciam com o que veem: um imenso espaço pintado de branco, onde não há rigorosamente nada. Os críticos aplaudem a criatividade do autor. O Museu de Arte Moderna de Nova York dispõe-se a comprar a exposição por um preço astronômico. O Governo francês, no entanto, declara que a obra - o Nada - passaria a ser reconhecida como patrimônio cultural da França e não poderia deixar o país. O Nada havia transformado-se em obra de arte. Quem sabe seria este o significado profundo de “metafísica da imanência”? Quem sabe seria essa a impressão que me causava Brasília? O Nada....

Como se a crise tivesse acabado e os problemas institucionais e penais do país tivessem milagrosamente sido resolvidos. Como se não fossem mais imanentes a nossa sociedade corrompida por séculos de exploração colonial e de independência virtual. Como se, em vez de reais, nossos problemas tivessem passado a ser imaginários, metafísicos.

Nestes dias, a metafísica da imanência adquiriu para mim um significado mais claro. É o que experimentamos nesses sombrios e destroçados tempos que atravessamos. Para os jovens, são tempos de absoluta descrença; para os marginais, revelam-se propícios ao crime e a violência aumenta a olhos vistos; para os mais velhos, porém, como eu, são tempos da mais profunda decepção. O país que imaginávamos, “a terra mais garrida” de todas mostra a sua cara cotidianamente no Congresso, no Judiciário e no Executivo. Poucos são os agentes da lei e da ordem que se mantêm em posição de combate. Implantou-se o desânimo e o sentimento de acomodação. “Assim fomos, somos e seremos”. O país transformou-se no espaço branco e vazio da peça. Na metafísica da imanência.

Jorge Luis Borges, em seu poema “Las Causas”, cita fatos e situações casuísticas que desde a Antiguidade se sucederam para formar o mundo que somos: “… a frescura da água na garganta de Adão… o olho decifrando as trevas…a palavra… o espelho… a sombra das cruzes na Terra… as conquistas de reinos pela espada… o eco do relógio na memória… o rosto do suicida no espelho… cada remorso e cada lágrima… foram necessárias todas estas coisas para que nossas mãos se encontrassem”.

Citações tiradas do poema que, na sua inteireza, resumem os fatos e as causas do que o mundo veio a ser. Quem se atreveria hoje a fazer algo semelhante sobre a evolução do Brasil e interpretar nossa História de forma positiva, “para que nossas mãos se encontrem”?

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