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Os poemas de concreto que Oscar Niemeyer não terminou

Uma exposição em São Paulo aborda as construções mais emblemáticas do arquiteto

Oscar Niemeyer é o maior representante da arquitetura moderna brasileira, de formas e curvas que transcendem um estilo propriamente nacional, que inaugurou um diálogo entre a engenharia, a estética e o social. O homem baixinho que assinou o desenho da capital Brasília junto a Lúcio Costa ficou conhecido por tantos edifícios construídos no Brasil e no exterior. Mas o legado de um grande se espelha também naquilo que não foi feito, o que corresponderia a um poema inconcluso de um escritor, às letras de música que jamais ganharam melodias. E hoje é possível conhecer essa obra inacabada em uma exposição que vai até dia 27 de julho no Instituto Itaú Cultural, com croquis, painéis e maquetes da Fundação Niemeyer.

Além de abordar as construções mais emblemáticas do arquiteto carioca, como o edifício Copan, no centro de São Paulo, o Museu de Arte Contemporânea de Niterói, no Rio de Janeiro, e a própria construção de Brasília, a exposição trata dos desenhos que não se materializaram, como a cidade de Negev, em Israel. Com anotações ao lado de pequenos projetos de cidade, Niemeyer escreveu que havia pensado Negev “como um kibbutz [comunidade isralense] que cresce, se expande e moderniza, sem perder seus aspectos humanos de entusiasmo, solidariedade e idealismo.” E acabou, de fato, desenvolvendo um conceito totalmente diverso depois de quatro anos de concluir Brasília: uma urbe pensada para o pedestre, que não deveria se deslocar mais de 500 metros para chegar até o próximo ponto. "Esse é um dos 51 projetos inacabados que temos na mostra, que não se executaram por vários motivos, políticos, econômicos ou até por mudanças de opinião", explica Lauro Cavalcanti, arquiteto que trabalhou com Niemeyer nos anos 80 e curador da exposição.

Um dos andares se dedica exclusivamente a contar sua contribuição arquitetônica para São Paulo – com edifícios no centro que poucos sabem que é dele, como o Eiffel (1953), na Praça da República– e ali está outro trabalho que não foi concluído, o de um projeto de parque às margens do rio Tietê, que seria parecido ao Parque do Ibirapuera. "Mas estaria inserido em uma zona menos favorecida, que daria uma opção de lazer para a zona mais ao norte da cidade", esclarece Cavalcanti. Em três andares, o visitante poderá conhecer a linha do tempo e das obras do arquiteto, suas anotações que justificam e esclarecem sua forma de pensar e de construir as propostas mais diversas, suas ideias políticas e sociais sobre cada um dos edifícios moldados por seu caráter idealista – do qual faz parte sua visão política do comunismo. Ateu, Niemeyer viveu até 2012 e morreu com 104 anos.

Na mostra, dois filmes apresentam sua trajetória e sua forma de pensar a arquitetura, que ele mesmo conta em um deles, O Filho das Estrelas (2001, do francês Henry Raillard). Em outra sala, vários desenhos pendurados em quadros representam as folhas que ele preencheu com seus traços curvilíneos para que fossem replicadas e distribuídas em universidades, o que demonstra o aspecto mais didático de sua obra. Há também um desenho original curioso, que foi feito a pedido de uma revista soviética, de como ele imaginava as cidades daqui a cinquenta anos. "Nele vemos que ele pensou em vias submersas e que os deslocamentos aéreos seriam feitos com pequenas naves", descreve Pedro Mendes da Rocha, responsável pela curadoria expográfica de Oscar Niemeyer: clássicos e inéditos.

Há também plantas de casas projetadas e nunca construídas, como a que Niemeyer fez para o escritor e jornalista Sergio Buarque de Hollanda, em 1953, e a de Oswald de Andrade, que seria construída em Itaipava, em 1939. E também de suas casas, de como ele registrou em papel o que sua imaginação criava. "A grande importância de Niemeyer, além de seu legado no Brasil e no exterior, é sua capacidade de pensar a arquitetura não como algo plástico, mas de entender que a engenharia é parte do processo, ela deve ser pensada como algo estrutural", diz Rocha. E daí seu "casamento" com o concreto armado, uma possibilidade de criar com um material resistente, o concreto, que tem uma certa personalidade, já que é moldado a partir de uma estrutura metálica que formava quase que um esqueleto daquilo que ele havia pensado a priori. Cavalcanti considera que sua importância também se deve ao fato de ter sido em sua vida "um homem muito coerente, mas exemplo ao mesmo tempo de uma pessoa que ousa e renova a sua linguagem. É um exemplo de brasileiro, poderia ter se desenvolvido em qualquer área que teria a mesma importância hoje".