‘Carnaval político’ pelas “Diretas Já”’ lota o largo da Batata, em São Paulo

Ato, convocado por artistas, ocorre dois dias antes do início do julgamento da chapa Dilma-Temer

Manifestação pelas 'Diretas Já', neste domingo.
Manifestação pelas 'Diretas Já', neste domingo. AFP

O largo da Batata, na zona oeste de São Paulo, foi tomado neste domingo por uma multidão que pede pela saída do presidente Michel Temer e, sobretudo, a convocação de eleições diretas. A mobilização, batizada de SP pelas Diretas Já, foi organizada por artistas, empresários do setor cultural, ativistas e blocos de carnaval. Começou cedo, às 11h da manhã, transcorreu pacificamente e terminou por volta das 18h. Com o dia ensolarado e a apresentação de blocos como Tarado Ni Você e Acadêmicos do Baixo Augusta até o início da tarde, o clima era de carnaval fora de época. Mas um carnaval político. Também se apresentaram artistas como Paulo Miklos, Pitty, Maria Gadú, Criolo, Emicida, Mano Brown, entre outros. Entre uma música e outra, o recado de todos era claro: "Fora Temer" e "Diretas Já". O prefeito de São Paulo, João Doria, e seu secretário da Cultura, André Sturm, também foram duramente criticados em diversos momentos.

A manifestação deste domingo ocorreu dois dias antes do início do julgamento da chapa Dilma-Temer no TSE e um dia depois da prisão de Rodrigo Rocha Loures, ex-deputado e homem de confiança de Temer. O Governo Temer se encontra à beira do abismo desde o final do mês passado, com a divulgação das delações da JBS, e a mobilização a favor das "Diretas Já" se aproveita desta debilidade. Uma multidão também ocupou, há uma semana, a praia de Copacabana para pedir a saída do presidente, também com a participação de destacados artistas, como Caetano Veloso e Milton Nascimento. O protesto no largo da Batata, ainda que lotado – a PM não ofereceu uma estimativa de público, enquanto organizadores já falam em 100.000 presentes –, aparentemente atraiu menos pessoas que o do Rio. Mas os artistas foram mais uma vez os grandes protagonistas. Dessa vez, eles tomaram a dianteira também de sua organização, com o argumento de que a mobilização deveria ser independente de partidos políticos para aumentar o leque de apoio. Isso chegou a ser interpretado por muitos como um veto a sindicatos e partidos, gerando uma série de críticas nas redes sociais.

Mesmo com esta intenção de "ampliar o leque", a maior parte do público presente no ato se identificava com as várias correntes de esquerda. Como Sérgio Messias, de 49 anos, e Fernanda Raquel, de 45. Casados há 23 anos, eles explicam que a perspectiva de uma "mudança, com a convocação de eleições diretas" foi a principal motivação para saírem de casa neste domingo. "Tô vendo que tem muita gente de esquerda aqui, mas a pauta das eleições não deveria ser algo de esquerda, né. Acho que tem muita gente hipnotizada ainda", diz ele. Fernanda, sua esposa, acrescenta: "O importante é que todos venham para a rua se manifestar". Já Lília, de 32 anos, acredita que "nossa democracia está em jogo". Para ela, trata-se de uma democracia "entre aspas", já que o povo tem "pouca voz". "Mas precisamos aproveitar essa pouca voz que temos", diz ela, que trouxe sua irmã Vitória, de 18 anos. É a primeira manifestação de sua vida. "Estou gostando muito", disse.

Já Caio Henrique, de 24 anos, contou ter ido ao ato apenas para assistir aos shows de alguns de seus artistas preferidos. "Criolo, Emicida, Mano Brown...", diz. Ele afirmou ainda não dar importância para a petição da maioria por eleições diretas. "Não ligo para a política, porque sei que vai ficar tudo igual".

Apesar do caráter não-partidário do protesto, os organizadores repetiram diversas vezes que o ato era "político". A atriz Elisa Lucinda foi além e disse que todos os partidos eram bem-vindos, já que não existe "uma democracia sem partidos". Ela falou ainda sobre a ascensão social de uma importante parcela da população durante os governos petistas. "Tem agora uma galera nas periferias e nos movimentos sociais que querem votar e querem eleger um negro", diz a atriz, para quem os setores progressistas devem deixar de ser elitizados. "A própria esquerda está assustada porque descobriu que é racista", opinou, explicando ao mesmo tempo que os discursos muitas vezes sofisticados não se inserem nas "quebradas" da cidade e que os dirigentes partidários ainda são majoritariamente homens e brancos.

Líderes partidários não discursaram do carro de som, mas movimentos sociais ligados à esquerda encontraram seu espaço e fizeram breves discursos. Guilherme Boulos, principal liderança do MTST e representante da Frente Brasil Popular, foi um dos que tomaram a palavra. Ele elogiou o fato de artistas liderarem o ato deste domingo, argumentando que para tirar Temer do poder, é necessário "ampliar a luta". Boulos lembrou ainda que o movimento que ocupou ruas e praças nos anos 80 para pedir eleições diretas também começou pequeno e cresceu quando os artistas se envolveram no processo. O líder também argumentou que os que dizem seguir a Constituição agora ao defender indiretas são os mesmos que "deram um golpe" no ano passado.

Já a economista da USP Laura Carvalho, que representava o movimento Quero Prévias, criticou a propagação da ideia de que Temer "rouba, mas faz reforma". "A gente não quer esse Michel Temer nem outro Michel Temer para fazer isso. A gente quer mais democracia e novos direitos. Mais direitos e mais participação dos movimentos. A gente quer mais igualdade. Tudo isso a gente só conquista com o voto", discursou.

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