Final Champions League

Higuaín enfurecido

Goleador argentino vive ansiedade para enfrentar seu ex-clube, onde era "só um número", segundo seu irmão

Higuaín fez cinco gols nesta Champions, e não quer passar em branco contra sua ex-equipe.
Higuaín fez cinco gols nesta Champions, e não quer passar em branco contra sua ex-equipe.FACUNDO ARRIZABALAGA (EFE)

O restaurante Manzè, ao lado da Via Romana, no centro de Turim, é pródigo em festas carnívoras. Ao final, o cardápio oferece uma sobremesa à base de doce de leite batizada de Pipita. Honra a um cliente e ídolo local, Gonzalo Pipita Higuaín, que nesta temporada fez 32 gols pela Juventus e quer anotar mais no próximo sábado em Cardiff, na final da Champions League 2017. Por diversos motivos. Inclusive pessoais. É o que explica Nicolás Higuaín, irmão do atacante, enquanto come com amigos nesse famoso reduto da cidade italiana. “Os Agnelli administram a Juve como uma família; aqui os jogadores se sentem queridos e apoiados. No Real Madrid, você é só um número.”

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O reencontro de Higuaín com a equipe em que jogou entre 2007 e 2013 tem um ponto corrosivo. Não se conhece outro jogador que tenha anunciado sua saída de Chamartín com menos recato, como ele fez, visivelmente saturado, após disputar a última partida da temporada 2012-13, na porta do vestiário do Bernabéu: “Quero ir embora.”

Após sua saída, o Real contratou Gareth Bale. Desde então, Bale fez 67 gols em 149 jogos, enquanto Higuaín fez 123 em 201. Toda uma carreira no calcio [futebol italiano], primeiro no Napoli e depois na Juventus, que o contratou no verão passado por 90 milhões de euros (328 milhões de reais). Foi a transferência mais cara da história do futebol italiano e, segundo agentes que trabalham com a Juve, um acerto muito calculado.

Na hora de selecionar atacantes, os grandes clubes europeus observam duas qualidades principais: a precisão (nos passes e nos chutes) e a capacidade de movimentação para impedir a marcação do adversário. A Juventus acrescenta uma terceira condição, que inclusive pesa mais que as anteriores: a habilidade de receber um lançamento de 60 metros, dominar a bola e avançar seguro na entrada da área, à espera da segunda linha. Bettega, Boninsegna, Rossi, Vieri, Trezeguet, Tévez e inclusive Del Pieroforam valorizados pelo clube porque tinham essa destreza. Mandzukic e Higuaín se encaixam no modelo tradicional.

Claudio Gentile, referente da Juventus dos anos setenta e oitenta, explica o procedimento do futeboldirettissimo: “É um sistema de jogo e preparação. Nos treinos, os atacantes praticam muito o controle de bola em lançamentos. Saber dominar a bola que não vem por terra é uma qualidade que é preciso ter e desenvolver. O controle com o peito, a coxa, o pé... Deve-se fazer o que for preciso para que o passe longo não seja inútil. Quanto melhor for o domínio, maiores são as chances de finalizar a jogada no gol adversário. É uma tipologia de jogo que vemos nos centroavantes históricos da Juve, utilizada quando o rival pressiona os defensores. Você deve ter um que consiga sair da pressão oferecendo longos passes aos atacantes para iniciar a fase ofensiva.”

“Bonucci”, prossegue Gentile, “é o que conduz a manobra de saída de bola com um lindo passe de 50-60 metros, saindo da pressão do adversário. Com esses passes longos, ele normalmente encontra um companheiro para começar a etapa ofensiva. Os receptores são Mandzukic, Higuaín e Dybala, que combinam rapidez com corpulência. No calcio, sempre faz falta um atacante capaz de dominar a bola nos lançamentos para dar aos colegas a possibilidade de sair. Higuaín é o ponto de referência nesse aspecto. É uma grande aquisição.”

Allegri introduziu alguns graus de flexibilidade. Mas a base do esquema de início de ataque da Juventus se mantém há mais de meio século. Na final de 1998, os destinatários dos 20 primeiros passes dos centrais foram Inzaghi (6), Del Piero (6), Zidane (3), Deschamps (2), Davids (2) e Di Livio (1). No último Monaco x Juventus, os destinatários dos passes de saída de Buffon, Barzagli, Bonucci e Chiellini foram Mandzukic (15), Dani Alves (10), Alex Sandro (8), Higuaín (7), Pjanic (6) e Marchisio (2). A conexão zaga-meia, comum nos demais grandes clubes da Europa, é reduzida ao mínimo na Juventus. A saída é indireta e dirigida aos centroavantes ou através dos laterais, especialmente Dani Alves, verdadeiro transformador de um esquema em que os atacantes costumam ter poucas oportunidades.

“Alves e Cuadrado dão uma profundidade maior [ao esquema]”, afirma Paolo Montero, líder na defesa da Juventus de uma década atrás. “Essa equipe é um pouquinho mais ofensiva. Mas, em geral, a Juve mantém características muito similares. Os centrais preferem superar linhas e buscar essa verticalidade. Na Espanha, a coisa é mais elaborada. Na Itália, busca-se essa verticalidade. Vimos isso contra o Barcelona: o Barça manteve o controle, mas a Juve fez estrago quando saiu no contra-ataque.”

Alguns médicos e preparadores do futebol espanhol consultados expressaram surpresa ao ver Higuaín contra o Monaco nas semifinais da Champions. Notaram que ele estava mais pesado que o recomendável, segundo os cânones do torneio. “Com dois ou três quilos a mais”, nas palavras de um deles. “Mas compensados pelo poderio que Higuaín tem nos músculos da coxa. Seu quadríceps são impressionantes.”

De algum modo, esses preparadores reproduziram a impressão do presidente do Nápoles, Aurelio de Laurentis, quando seu time foi eliminado da competição há um ano. “O que se pode esperar de Higuaín? Tem um quilo e meio em excesso. É como jogar com um tijolo nas costas.”

Para a Juventus, contudo, isso não é uma desvantagem. Andrea Agnelli pagou 90 milhões por um atacante robusto que continua robusto do mesmo jeito. Faz duas temporadas que ele supera os 30 gols, e o clube está satisfeito. Higuaín está como a instituição quer e a equipe precisa. Pronto para segurar a bola de qualquer jeito. Bem firme no campo inimigo.

“Pipa não tem sobrepeso”, afirma Fabio Capello, que conheceu como jogador e treinador o modus operandi do clube de Turim. “Na Juventus você não pode ter sobrepeso. Não existe sobrepeso nos times italianos. A preparação física é duríssima.”

Carrancudo incorrigível, Higuaín parece feliz estes dias. Como se o destino lhe desse uma oportunidade. “Será estranho”, confessa. “Desde que fui embora, não cruzei com eles de novo, e agora disputamos uma final. Tento não pensar nisso! Jogo há 11 anos na Europa e sei controlar as emoções muito bem.”

O Real Madrid deve ter cuidado. Aos 29 anos, Gonzalo cumpriu fácil a profecia dita por Alfredo di Stéfano após vê-lo estrear de branco, na Copa do Rei contra o Betis, em 11 de fevereiro de 2007. “Este cara vai arrasar!”.