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Ódio alheio: o combustível do Real Madrid

O time branco se alimenta da aversão gratuita dirigida contra ele pelos adversários mais irritadiços

Juventus x Real Madrid, a final da Champions League
Cristiano Ronaldo comemora na final de Milão, em 2016. AFP

Ainda são maioria aqueles que se dedicam a negar o óbvio sem atentar para as consequências trágicas disso: o Real Madrid se alimenta do ódio gratuito que seus rivais mais irritadiços têm dele. Não há verdade mais absoluta e inquestionável do que essa em um esporte que muitas vezes tem o hábito de criar leis e fabricar novos testamentos com base em pequenas mentiras.

Nesta semana, como era de esperar, assistimos a um novo desfile de boas intenções que, no entanto, nos empurram de cabeça em direção ao abismo. Além da TV3 (emissora que declarou apoio à Juventus na decisão da Champions League), que não perde nunca uma chance de contribuir desinteressadamente com a causa madridista, vozes autorizadas como Andrés Iniesta ou Joan Laporta disseram preferir uma derrota do time branco em Cardiff, declarações compreensíveis quando enunciadas por alguém que está do outro lado, mas pouco efetivas, além de perigosas.

Sob a aparência afável de uma rivalidade lógica e do respeito às tradições, se escondem apenas cimento fresco e gasolina, elementos ideais para enterrar as decepções da própria carne e alimentar a ambição raivosa de um concorrente que exibe a sua melhor versão justamente quando se sente detestado.

O Real Madrid aperfeiçoou tantas vezes as técnicas da reciclagem sentimental que já conta, hoje, com uma legião particular de reservistas dedicados a odiá-lo; seus dirigentes são tão espertos e previdentes que parecem ter antecipado o surgimento dessa nova fornada de antimadridismo indie, negando-lhe o pão e o sal com uma fria indiferença. Trata-se de um pequeno grupo, nada preocupante para os seus interesses; uma porcentagem residual ante as marés de inimigos irados que alimentam suas caldeiras com babas atômicas de raiva e os piores votos. No entanto, ninguém deixa de perceber a necessidade de controlar os avanços dessa pequena primavera, razão pela qual as piores previsões auguram uma avalanche de ilustres inimigos desejando toda sorte à Juventus de Turim: é nisso que consistem, na verdade, os famosos fios manipulados a partir da tribuna do Santiago Bernabéu.

Um lance de mestre de Florentino Pérez, o senhor dos campos e aiatolá do Rock and Roll: “Tragam combustível para a maior gloria de Humungus!”, parece repetir a si mesmo na solidão de seu trono enquanto atesta a fluxo de ódio flui e acaricia o lombo de um gato preto. Um dia, quando os historiadores do futebol analisarem o seu legado, se depararão com a pedra angular sobre a qual ele baseou os êxitos colhidos durante o seu mandato: saber incitar a aversão em seus adversários, convencer as suas próprias fileiras de que o Real Madrid está lutando sozinho contra o mundo inteiro, criar uma fábula na qual o lobo é mordido pelas ovelhas e os porcos, por que não, continuam sendo comunistas.

Bem fariam os inimigos irreconciliáveis do madridismo se desejassem sorte e sucesso à equipe branca. Uma das velhas histórias do futebol conta que Garrincha pediu para ser substituído em um jogo no qual a torcida adversária começou a gritar seu nome, pois não conseguia administrar uma situação como aquela. Até quando nós, seus adversários, continuaremos a contribuir para a glória eterna do Real Madrid? Chegou a hora de o antimadridismo reagir e se unir sob um só grito de “Dá-lhe, Madrid!”. Isso os atordoará.

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