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COLUNA

Revolta ou Revolução?

Faltam vozes de sensatez capazes de atrair as convicções da sociedade

Protesto contra o presidente Michel Temer, exigindo "Diretas Já", na última quarta-feira, em Brasília.
Protesto contra o presidente Michel Temer, exigindo "Diretas Já", na última quarta-feira, em Brasília. AP

As grandes Revoluções não ocorrem por acaso, nem de um dia para outro. Levam tempo. Passam por diferentes fases. Seus dirigentes às vezes se alternam. Umas fracassam. Outras são bem sucedidas. Estas últimas se prolongam em estado latente. As classes dirigentes não se preocupam em fazer as transformações demandadas pela sociedade. Confiam na força do aparato estatal de segurança e repressão. Com o tempo, o desgaste se agrava e um pequeno incidente deflagra a luta decisiva. O Poder Executivo está impotente, o Congresso disperso, tomado por interesses pessoais e setoriais e o Judiciário começa a dar sinais de partidarismos. Às vezes me pergunto se não será isto que estamos presenciando no Brasil: o caos que precede grandes transformações.

Faltam vozes de sensatez capazes de atrair as convicções da sociedade. Política depende essencialmente da capacidade dos que se acham preparados para mandar e convencer a população de suas ideias e sobretudo de sua capacidade de pô-las em prática. A recente eleição do jovem Emmanuel Macron na França bem revela a sua capacidade de prometer com credibilidade.

Mas não é só no plano interno que estas sementes revolucionárias estão verdejando. Atenuado ou superado o conflito ideológico, o mundo voltou de certa forma ao modo antigo da interação internacional: o jogo de poder.

Em seu magistral livro “Sobre a Revolução”, a grande pensadora Hannah Arendt comenta que “os que acreditam na política de poder e, portanto, na guerra como o último recurso da política externa estão fadados a descobrir num futuro não muito distante que terão se tornado mestres numa interação inútil e obsoleta”.

Arendt escreveu esse texto em 1963. Hoje certamente ficaria surpresa em dar-se conta de que esse futuro ainda está muito distante e que o conceito ainda está longe de se tornar inútil e obsoleto. Os últimos desenvolvimentos ligados à situação na península coreana, assim com ao perene conflito médio-oriental, recordam-nos a cada dia a fragilidade do sistema de segurança expresso pela Carta da ONU. O uso da força ou da ameaça de força continua a orientar os acontecimentos em escala mundial. A política praticada por Donald Trump e a política imperial levada a cabo pela Rússia de Putin para conter e, se possível, destruir a força da União Europeia são exemplos de um jogo em que eventuais acordos só serão alcançados pelo uso do poder.

A Europa terá exagerado ao levar a extensão da União Europeia até as fronteiras físicas da Rússia. Essa última terá exagerado ao intervir na Ucrânia e anexar a Crimeia. A China – que hoje pratica uma política muito mais cautelosa do que a que levava a cabo até os anos 80 – terá também exagerado ao avançar suas posições supostamente defensivas pelo Mar da China afora, afetando a segurança do Japão e os interesses norte-americanos no Pacífico.

O arco político-estratégico que domina o mundo desde a queda de Napoleão Bonaparte em 1815 – Reino Unido, EUA, Canadá, Austrália e Nova Zelândia –, assume posições defensivas. O Brexit, porém, sem dúvida debilitou o papel estratégico global da União Europeia.

O equilíbrio mundial dá sinais de que voltou a depender de um equilíbrio de forças militares. E as Nações Unidas continuam a atuar de forma engessada, e quase irrelevante nos grandes conflitos internacionais. Vai pouco a pouco se transformando numa organização de assistência humanitária, mas pouco relevante no gerenciamento das ameaças à segurança global.

As regiões periféricas continuam periféricas. Na África e na América Latina, o que se vê é pouco ou nada relevante. Vê-se corrupção ativa e passiva, vê-se perda de controle de recursos naturais estratégicos. Vê-se sobretudo falta do que fazer no mundo. Mesmo os discursos “moralizantes” ou “idealistas”, como os que o Brasil costumava fazer na ONU, tornaram-se praticamente inócuos em um contexto internacional completamente conduzido pelos detentores de poder real, voltado para regiões estratégicas de seus interesses diretos e estratégicos.

Arendt comenta que a questão social começou a desempenhar um papel revolucionário na era moderna e que os homens começaram a duvidar que a pobreza é inerente à condição humana, inevitável e eterna.

Essas divagações assaltam meu espírito no momento em que se tornam agudas as confrontações nas cidades e no campo brasileiro. As imagens recentes, principalmente do Rio de Janeiro, são extremamente preocupantes, ao retratar gangues que controlam os entorpecentes em boa parte consumidos pela alta classe média e pela classe alta, os ataques às forças da ordem, em muitos casos corrompidas, e também as lutas pelo controle do tráfico que são a expressão clara – e hoje em dia instantânea – dos graves problemas a que somos submetidos.

Lembro do célebre diálogo ocorrido na noite de 14 de julho de 1789 em Paris quando o Rei Luís XVI ouviu o relato de um cortesão sobre a Queda da Bastilha, dos ataques populares a guardas que já então se bandeavam para o lado popular e perguntou: “É uma revolta?” e ouviu então de seu interlocutor : “Não, Majestade! É uma revolução!”

Será que isso é o que nos aguarda? Há uma grande distância entre o debate político e institucional em curso no Congresso e a realidade das ruas. A operação Lava Jato transcorre com lentidão e talvez isso seja apropriado para não acirrar demasiadamente os ânimos. Mas os presos são soltos e os culpados resistem. E a sociedade fica ainda mais insegura e desesperançada com o futuro. Isso é muito grave, tanto mais porque a confiança no futuro foi sempre o principal elemento que manteve o Brasil unido e confiante.

Não chego, porém, a pensar, como Hannah Arendt, que o conceito de liberdade possa estar-se desvanecendo. Prefiro refugiar-me em Guimarães Rosa, para quem “na vida tudo termina bem; se as coisas não estão bem é porque ainda não terminaram!"

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