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COLUNA

Xenofobia e burrice

Assistir a pronunciamentos irados de descendentes de portugueses, espanhóis, italianos, alemães e japoneses contra os imigrantes deveria ser apenas risível, mas é preocupante

Protesto contra a Lei de Migração, que aguarda sanção presidencial
Protesto contra a Lei de Migração, que aguarda sanção presidencial Direita São Paulo-Facebook

Há uma importante diferença entre ignorância e burrice. A ignorância está relacionada à falta de conhecimento sobre algo ou alguma coisa. Já a burrice é a incapacidade de compreender a realidade, por teimosia ou arrogância. A ignorância é perdoável, pois muitas vezes deve-se à baixa escolaridade ou a um sistema de ensino ruim. Já a burrice não se justifica — é a obstinação com que certas pessoas se agarram a ideias pré-concebidas, independentemente de seu grau de instrução ou a que classe social pertença. Geralmente, a burrice prospera em espaços adubados pela intolerância. Quanto menos luz, mais sentimentos estúpidos de superioridade (étnicos, religiosos ou sociais); quanto mais escuridão, mais afundamos no atoleiro. Em um país hipócrita, racista, violento e corrupto como o Brasil, a burrice impera com o vigor do animal que empresta, injustamente, seu nome ao substantivo.

As recentes manifestações xenófobas não pedem outra classificação que não essa: são exteriorizações de burrice elevada a um grau máximo. Os "argumentos" nacionalistas, que trazem em si todo um discurso neofascista (brancos, cristãos e ricos são diferentes, ou seja, melhores), proliferam quando a economia vai mal. A economia é o motor do mundo: ela estabiliza a política e anestesia os problemas sociais. No entanto, basta um pequeno tropeço para que tudo desabe e ressurja a arenga cínica e elejam-se os inimigos de sempre, as minorias étnicas, religiosas, sociais e de gênero — lembrando que o conceito de "minoria" aqui não está associado à quantidade, mas sim à fragilidade. Assim, são minoria no Brasil os não cristãos, os não brancos, os pobres, as mulheres, as crianças, os homossexuais.

O medo do outro, que alimenta a xenofobia, hoje está ancorado, superficialmente, ao receio da perda de postos de trabalho e ao radicalismo religioso. Digo superficialmente, porque nas profundezas trata-se da mesma questão: não é ao outro que tememos, mas a nós mesmos, à possibilidade de vermos descoberta a nossa mediocridade, a nossa incompetência, a nossa limitação. Alegar que não queremos mais imigrantes em nosso território, ou que os imigrantes miseráveis são indesejados ou ainda que não aceitaremos receber refugiados islâmicos porque eles são terroristas redundam em falácias indefensáveis.

Senão, vejamos. Afora os afrodescendentes, que vieram parar no Brasil à força de ferro e açoite, todos os outros somos usurpadores das terras indígenas. Não sendo, portanto, donos da casa, não temos moral para impedir que novos imigrantes escolham o Brasil para viver. Como imigrantes que somos, chegamos aqui, a imensa maioria de nós, miseráveis, fugindo da fome e da falta de perspectivas nos países de origem — tal qual os bolivianos, os haitianos, os nigerianos, os chineses que hoje formam as caras novas desse fenômeno que é mundial. No meio dos milhões de trabalhadores estrangeiros que aqui entraram, em massa, a partir da metade do século XIX até o início do século XX, havia uma pequena quantidade de fanáticos, que na época eram considerados terroristas. Espanhóis e italianos anarquistas que usavam a tática da ação direta em greves e protestos (muitos foram expulsos); o Shindo Renmei, entidade que com sua brutalidade causava pânico na comunidade japonesa na década de 1940; as comunidades alemães que aderiram ao nazismo e esconderam criminosos de guerra. E, a bem da verdade, os primeiros terroristas a aportar em terras nacionais foram os portugueses, que para expandir o território, nos começos do Achamento (ou Descobrimento, como quiserem), distribuíam aos índios roupas contaminadas com doenças (varíola, sarampo) provocando um verdadeiro genocídio dos povos autóctones.

Assistir a pronunciamentos irados de descendentes de portugueses, espanhóis, italianos, alemães, japoneses, judeus, até mesmo sírios e libaneses, contra os imigrantes deveria ser apenas risível, quando é extremamente preocupante. A escalada do discurso da intolerância no Brasil está nos empurrando para um beco sem saída. É evidente que devemos estar atentos à tentativa de infiltração de fundamentalistas (seja que religião professem) em meio aos refugiados. Mas, de antemão, tentar barrar os imigrantes por serem muçulmanos (como se todos fossem terroristas) ou por serem pobres é atitude de gente burra.

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