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Ex-primeiro-ministro Manuel Valls decide disputar vaga parlamentar pelo partido de Macron

Ainda sem formalizar candidatura, Valls disse que seu partido está morto: "É preciso superar isso”

O ex primeiro-ministro Valls em um ato celebrado em Paris.
O ex primeiro-ministro Valls em um ato celebrado em Paris. AFP

O ex-primeiro-ministro francês Manuel Valls anunciou nesta terça-feira o seu desejo de se candidatar nas eleições legislativas de junho pelo A República Em Marcha, como foi rebatizado o movimento político do presidente-eleito Emmanuel Macron, e não pelo Partido Socialista (PS), sob a bandeira do qual tentou ser candidato ao Eliseu. “Serei candidato pela maioria presidencial”, afirmou Valls em entrevista à rádio RTL. Depois da derrota nas primárias da esquerda, em janeiro, Valls expressou apoio ao candidato do Em Marcha! já no primeiro turno da eleição presidencial. A manobra foi recebida com bastante cautela pela equipe de Macron, que se apressou em declarar que Valls não ainda efetuou as formalidades necessárias para isso e que, de qualquer forma, ele será tratado como todos os demais aspirantes a uma candidatura pelo movimento.

“Quero me inscrever no movimento A República Em Marcha”, disse Valls, que foi chefe de Governo de François Hollande, que deixa o cargo ao final desta semana. Valls afirmou que essa mudança se deve ao “sucesso” de Macron na eleição e que seu programa de governo coincide com aquilo que ele mesmo apresentou durante a disputa nas primárias da esquerda. “Convido todos aqueles que se reconheçam em seu programa a se envolverem plenamente”, disse, negando, ao mesmo tempo, que se trate de uma traição ou de uma “emboscada” contra um Partido Socialista que se reúne justamente nesta terça-feira para discutir as suas listas de candidatos para as legislativas.

“Por ser um republicano, por ser um homem de esquerda, por continuar sendo socialista, não vou renegar 30 anos de vida pública, porque exerci funções de responsabilidade e sei que é difícil governar a França”, declarou Valls, listando os motivos de sua decisão.

Não obstante, reconheceu que em sua decisão pesou também o descalabro eleitoral do PS, cujo candidato, Benoît Hamon, ficou em quinto lugar no primeiro turno, em 23 de abril. “Este Partido Socialista está morto, é preciso superar isso, sejamos claros, e agora é essencial garantir uma maioria a Emmanuel Macron”, porque a divisão seria “fatal”, argumentou. Questionado sobre suas conhecidas diferenças com Macron quando ambos eram membros do Gabinete de Hollande, o ex-primeiro-ministro minimizou-as. “Estão superadas”, disse. “É preciso esquecer os rancores.”

A manobra do ex-premiê socialista, embora não seja uma surpresa absoluta, foi imediatamente criticada por alguns de seus ex-colegas socialistas. “Não, desta vez não o seguirei”, reagiu, pelas redes sociais, o senador socialista Luc Carvounas, próximo a Valls. “Sou um progressista reformista, mas também um socialista ligado ao seu partido e seus valores”, acrescentou. O deputado Mathieu Hanotin declarou à rede BFM-TV que o PS manterá seus planos com ou sem Valls. “Nosso objetivo é simples: obter uma maioria de esquerda. Valls já não está nesse projeto”, disse.

Tampouco está claro se Valls poderá cumprir seus novos planos. Dirigentes do partido de Macron recordaram que existe um procedimento de inscrição para se registrar como candidato, e que qualquer nome, seja quem for, será tratado de forma igual pela comissão interna encarregada de analisar as postulações.

“Tenho muito respeito por Valls, mas a investidura não é algo automático. Deverá apresentar uma ata, como eu”, declarou o porta-voz de Macron, Christophe Castaner.

“Escute, ele não foi investido pela Comissão Nacional de Investidura, então sua candidatura me escapa (...). Ele terá que apresentar sua candidatura como qualquer um, porque as regras são as mesmas para todos. Não acredito que já tenha feito isso (...), mas restam 24 horas. O procedimento é o mesmo para todos, incluído o ex-primeiro-ministro”, insistiu também o porta-voz do República Em Marcha, Benjamin Griveaux, numa entrevista à Europe 1. Também o presidente da Comissão de Investidura deixou claro que o tempo corre contra Valls. “Para que sua candidatura seja analisada, tem que registrá-la no site da Internet criado para isso”, explicou Jean-Paul Delevoye ao Figaro. E o tempo “começa a ficar apertado”, alertou.

Macron, que se impôs no segundo turno de domingo contra a líder ultradireitista Marine Le Pen, tomará posse no próximo domingo e poderá então formar um Governo. Entretanto, a maioria parlamentar resultante das eleições de junho determinará a continuidade do Executivo e o poder de decisão do novo presidente.

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