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É possível se proteger das notícias falsas?

O fenômeno é tão antigo quanto a imprensa e ganha escala. Ciclo de debates FAAP-EL PAÍS aborda tema

No século 18, anos antes da Revolução Francesa, publicações anônimas, chamadas libelos, passaram a circular na Europa com o objetivo de difamar e destruir a honra das vítimas escolhidas. Naquela época, os libelistas, eram os autores das histórias que muitas vezes eram baseadas em situações reais, mas se tornavam fantasiosas para atingir os alvos. No livro O diabo na água benta (Companhia das Letras, 2012), o autor Robert Darnton narra a história daquela época, que poderia ser de hoje, e explica que as anedotas não seriam eficazes se fossem totalmente fantasiosas. "Os libelos funcionavam melhor quando recorriam a meias verdades", escreve o autor.

Três séculos se passaram e a única diferença é o meio em que as notícias circulam e seu potencial alcance. Deixamos os libelos e recorremos à internet para disseminar as mais variadas mentiras, sobre os mais variados fatos. Nas eleições nos Estados Unidos no ano passado, por exemplo, as notícias falsas criadas por Donald Trump foram compartilhadas 30 milhões de vezes. Um levantamento realizado pela Veto Digital, à pedido do EL PAÍS, mostrou que 70% das notícias mais compartilhadas sobre o Bolsa Família no ano passado eram falsas. A quantidade de boatos sobre o programa social foi tão grande, que o presidente Michel Temer teve que ir a público para dizer que não cortaria os benefícios sociais.

Os números foram apresentados em evento realizado em parceira entre o EL PAÍS e a Faculdade Armando Álvares Penteado (FAAP) para debater o tema das notícias falsas. "Fake News são notícias inventadas para enganar pessoas, que nascem de uma parte de verdade", define André Rossi, da Veto Digital. Qualquer semelhança com o que foi narrado sobre o século 18 por Robert Darnton não é mera coincidência.

Um exemplo que traz para a realidade o que o autor escreveu sobre o século 18 é a notícia envolvendo o tema sobre uma eventual prisão do ex-presidente Lula, que responde a ações na Justiça. No ano passado, notícias falsas envolvendo o tema ficaram entre as mais compartilhadas nas redes sociais. "Das dez reportagens mais compartilhadas sobre o tema, nove eram mentirosas", explica André Rossi.

O jornalista Leonardo Sakamoto, que também compôs a mesa do debate, diz que para quem compartilha uma notícia, importa pouco se ela é verdadeira ou falsa. "Verdade é tudo aquilo que a gente concorda e mentira é tudo aquilo que a gente discorda", diz, sobre as notícias que circulam pelas redes sociais. Ele explica que o processo de criação de uma notícia falsa é como uma cebola: "Um site pequeno publica uma notícia falsa. Aí um site um pouco maior vai lá e publica também. Um outro, ainda maior, publica e assim vai até um grande portal publicar", diz. "São camadas, que vão endossando a mentira". De acordo com ele, para se proteger das mentiras, é preciso checar a procedência da informação. "Sites anônimos, sem expediente, reportagens sem assinaturas são sinais de veículos que publicam notícias falsas", explica.

O jornalista, que também é autor do livro O que aprendi sendo xingado na internet (Leya Brasil), diz que, por outro lado, o problema de se aconselhar a busca por sites confiáveis está em justamente definir o que é confiável. "Muitas vezes, para as pessoas os sites confiáveis de informação são aqueles que publicam o que elas querem ler", diz.

Mônica Rugai, jornalista e coordenadora do curso de Jornalismo da FAAP, lembra, porém, da responsabilidade que os grandes veículos também têm neste universo, que não compreende apenas sites pequenos e sem expediente. "Os veículos sérios têm a responsabilidade de checar as notícias", diz. Além disso, a sociedade também precisa tomar para si sua parcela de importância, à medida em que demanda ou não notícias de qualidade. "Se a sociedade quer ter notícias de qualidade, ela terá", diz.

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