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O melodrama de Isaiah Thomas, o jogador mais baixo da NBA

Habituado a nadar contra a corrente, ele se supera para assimilar a morte de sua irmã e não deixa de sorrir nem depois de perder um dente no último duelo entre o Boston Celtics e o Washington Wizards

Isaiah Thomas tenta driblar Gortat. Ampliar foto
Isaiah Thomas tenta driblar Gortat. USA Today Sports

Talvez porque toda sua vida tenha nadado contra a corrente, porque desde que começou a arremessar na cesta todo mundo lhe dizia que era baixinho demais para se destacar em um esporte como o basquete, Isaiah Thomas continua surpreendendo seus companheiros e treinadores no que se tornou um intenso melodrama. Ninguém entende de onde retira a coragem e a força de vontade para superar a morte de sua irmã Chyna, de 22 anos, em um acidente de carro em 15 de abril, apenas um dia antes de os Celtics começarem a primeira rodada dos ‘playoffs’ contra os Bulls.

“Não sei como faz. Gostaria de ter sua força de caráter. Admiro sua capacidade para enfrentar o que está vivendo e se destacar na quadra”, admite seu treinador, Brad Stevens, em um pronunciamento que endossariam colegas, rivais e torcedores dos Celtics. “O basquete faz com que me sinta feliz. Tudo o que faço neste momento é por minha irmã”, confessou Thomas por ocasião da primeira partida das semifinais da Conferência Leste, na qual os Celtics se impuseram aos Wizards (123-111). “É duro, mas são os ‘playoffs’. Dou tudo o que tenho pela equipe.” E o que tem é muito, muitíssimo. É o líder. Anotou 33 pontos contra os Wizards. Mas essa enorme capacidade de marcar pontos tem sido uma constante ao longo de uma temporada na qual se consolidou entre as grandes estrelas da NBA.

Em alguns momentos esteve a ponto de bater a melhor média de cestas de um jogador dos Celtics em uma temporada, nada menos que os 29,9 pontos de Larry Bird em 1988. O armador, de 28 anos, concluiu com uma média de 28,9 pontos, a terceira melhor nesta temporada, só superada por Russell Westbrook (31,6) e James Harden (29,1).

É duro. Mas o basquete faz com que me sinta feliz. Todo o que faço neste momento é por minha irmã

Isaiah Thomas

O número 4 dos Celtics, chamado de Pizza Guy, ganhou outro apelido, King in the Fourth, já que fez uma média de 10,6 pontos no quarto período do jogo, superior à das maiores figuras da competição. Nada o detém. Nem sequer a pancada que sofreu no domingo em um choque com Porter, jogador do Washington Wizards. Perdeu um dente. Compareceu à sala de imprensa e fez piadas a respeito. Fazia apenas algumas horas que tinha regressado de Tacoma (Estado de Washington), para onde viajara para acompanhar o funeral da irmã. Ainda emociona a imagem de Isaiah Thomas quando, pouco antes da primeira partida contra os Bulls, em 16 de abril, chorava desconsolado, enquanto seu colega e amigo Avery Bradley tentava consolá-lo.

Mede 1m75. É o jogador mais baixo da NBA e está acostumado a ser comparado com alguns dos ‘baixinhos’ que deixaram sua marca no campeonato, como Calvin Murphy. Earl Boykins, Muggsy Bogues e Spud Webb. “Todo mundo, a cada passo do caminho, me dizia que era baixo demais e não iria conseguir”, confessou Thomas a The Undefeated enquanto se preparava para competir em seu segundo All Star, em fevereiro, em New Orleans. Sua mãe é enfermeira e seu pai, inspetor da Boeing. “Meu pai não foi jogador de basquete e minha mãe não se interessava pelo esporte. Portanto, eu os admiro porque foram pais normais e foi ótimo”, diz. O pai não jogou, mas gostava de basquete. Tanto que quis lhe dar o nome de seu jogador predileto, o armador dos Pistons. Mas a mãe impôs seu critério. Nesse caso, ele se chamaria Isaiah, como o profeta de Israel.

Depois de jogar na Universidade de Washington, foi escolhido no último lugar do ‘draft’ de 2011, o 60º, por Sacramento. “Todo ano tinha de lutar nessa guerra: ‘Sou melhor que esse cara e vou demonstrar isso a eles”, explica sobre esse último lugar no ‘draft’. Depois de três temporadas com os Kings, e após uma breve passagem pelo Phoenix, chegou aos Celtics na metade da temporada 2014-2015 e só ficou com a posição de titular na campanha seguinte, na qual já começou a se destacar e ser considerado o líder da equipe.

Todo mundo, a cada passo do caminho, me dizia que eu era baixo demais e que não iria conseguir

Relembra seu início em Boston. “Sentei-me com Danny Ainge (diretor esportivo da franquia) e ele me explicou que poderia ser um jogador lendário para os Celtics pela minha forma de jogar. E eu pensei. ‘Está emocionado pela contratação e está me dizendo tudo isso para me contentar e fazer com que eu me sinta bem’. Mas ele realmente acreditava nisso.” Também gosta de lembrar de uma conversa com seu treinador, Brad Stevens. “Quando me sentei com ele, uma das primeiras coisas que me disse foi: ‘Não se adapte a este grupo. Faça com que esta equipe se adapte a você. Precisamos de um jogador como você, e queremos que seja o melhor Isaiah Thomas que puder ser’.”

Agora, só pensa em sobressair-se como um dos melhores da NBA e retribuir a confiança que depositaram nele no Celtics. “Me receberam com os braços abertos. Se apaixonaram por mim e eu pela cidade. Sabia que se me davam a oportunidade poderia jogar o nível de All Star”. O que está conseguindo. Está fazendo com que os Celtics voltem a sonhar com algo grande e que a torcida do TD Garden enalteça suas atuações com gritos de “MVP, MVP!” (sigla de o melhor da temporada, em inglês), para ele, o jogador mais baixo da NBA.

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