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Ex-premiê italiano Matteo Renzi arrasa nas primárias do Partido Democrático

Político relança sua carreira ao superar seus rivais com 70% votos, tornando-se secretário-geral do PD e candidato a liderar seu país outra vez

Matteo Renzi vota na manhã de domingo.
Matteo Renzi vota na manhã de domingo. EFE

Depois de Renzi, Renzi. Assim transcorre a partir de agora a cíclica vida do Partido Democrático (PD) da italiano, cujos militantes e simpatizantes decidiram que o melhor avanço seria um recuo. Assim, o jovem político florentino relança sua carreira como secretário-geral e candidato a primeiro-ministro. Numa Itália cada vez mais dominada pelo euroceticismo, ele será a nova aposta da União Europeia para escorar o edifício dos 27 no sul da Europa.

Era feriado prolongado, e havia uma certa melancolia pela sensação de se viver o mesmo que em 2013. A maré baixa, como chamaram alguns depreciativamente. Mas quase dois milhões de pessoas, entre simpatizantes e filiados do PD, foram votar. Cabia a elas escolher entre a volta ao animal político que deslumbrou o país em 2014 ou a busca por novos horizontes com o ministro da Justiça, Andrea Orlando – que admitiu “a folgada vitória de Renzi” – ou o governador da Apulia, Michele Emiliano. Pouco conteúdo político, um só debate e a impressão de que a Itália, como no referendo constitucional de 4 de dezembro passado, assistia a outro dos plebiscitos que tanto entusiasmam o florentino: Renzi sim, Renzi não. Neste domingo, entretanto, cerca de 70% dos eleitores lhe deram seu apoio para retornar à secretaria geral do PD e relançar sua jornada rumo ao palácio Chigi.

Com o ex-primeiro-ministro de volta à ativa, ninguém duvida de que ele fará o impossível para que a legislatura termine ainda neste ano. O empuxo de Emmanuel Macron – se confirmar seu favoritismo no segundo turno da eleição presidencial francesa, no domingo que vem – é forte demais para permitir que se espere até 2018. A Europa procura líderes fortes, capazes de rejuvenescer o discurso dos 27 diante do crescimento do populismo. E Renzi conhece a retórica e os mecanismos adequados.

Meio ano depois da derrota que o obrigou a renunciar, aquele fracasso pode terminar em uma reviravolta magistral. Enquanto se fazia de morto, Renzi esquivou o fogo abrasador da crise bancária, o problema da imigração e as críticas pela reforma trabalhista. Além disso, livrou-se do setor crítico de seu partido, sem precisar mover um dedo para isso. Seis meses depois, foi legitimado pela segunda vez pelos seguidores do PD e aspira a conseguir nas urnas o que não obteve em 2014. A partir de agora, quem não estiver com ele não sai na foto.

O mantra dos renzistas prega que não convém esperar até 2018 para fazer eleições, pois isso prolongaria o Governo de Paolo Gentiloni, envolto numa alarmante paralisia desde que assumiu o cargo, e sempre à sombra de seu amigo Matteo. Exceto pela maciça distribuição de cargos públicos durante seu mandato (Eni, Enel, Correios e em breve o presidente do Banco da Itália), não há sinais de um vigor político capaz de suportar as investidas do populista Movimento 5 Estrelas (M5S), que cresceu notavelmente sob o Governo atual. Além disso, várias frentes ameaçam fazer o Executivo explodir: Alitalia, os obrigatórios ajustes econômicos, a crise bancária, a imigração... Na verdade, a crise da companhia aérea já causou um certo distanciamento entre o Governo e Renzi, que não compartilha da decisão de não intervir nas turbulências da companhia.

Uma das hipóteses que o ressuscitado líder do PD cogita, com sua nada dissimulada fome de bola nos últimos meses, seria convocar eleições antecipadas em outubro. É complicado. Teria antes que aprovar uma nova lei eleitoral que permita a governabilidade com um Parlamento hiperfragmentado. E tudo indica que essa nova lei resultará em representação proporcional e um prêmio de maioria absoluta para a lista que superar 40% dos votos. Algo para o que ele precisará do apoio de um grupo como o M5S, que já antecipou que, nisso, está disposto a negociar com o PD.

A nova etapa no PD pretende pôr fim também às históricas correntes internas, que frequentemente geram grotescos strip-teases ideológicos. Um fenômeno genuinamente italiano, no qual as dissidências adquirem oficialidade dentro dos partidos, os quais, quando vão mal, viram autênticos galinheiros. O último bloco que acaba de se desligar do PD foi a autodenominada minoria de esquerda, que já navega por sua conta com o nome da Esquerda Italiana e pretende se apropriar do eleitorado inclinado para essa tendência política.

A jogada, novamente, pode beneficiar Renzi. Para ampliar o espectro e chegar aos 40% que sempre invoca como garantia de sua liderança (foi o resultado que obteve o sim no referendo), só resta ao PD reformular o partido e pensar menos na militância e mais no eleitor. Pescar no eleitorado do conservador Força Itália, e inclusive formar uma aliança para ocupar espaço suficiente para competir com o M5S. A partir de hoje, é Renzi quem volta a decidir.

PARTIDO EXIBE FORÇA COM A PARTICIPAÇÃO

Na avaliação dos dirigentes do Partido Democrático, que instalou 10.000 urnas em toda a Itália, o comparecimento foi muito maior do que se previa (1,9 milhão de pessoas), embora um pouco menor que nas primárias de 2013. No centro de Roma, na sede da rua Cappellari, a poucos metros do Campo dei Fiori, é preciso esperar mais de meia hora para votar.

Luisa, simpatizante de 78 anos que militou durante décadas no Partido Comunista Italiano, o germe do PD, revelava sua opção: “A única possível. (Renzi) é valente, e precisamos que ele termine as reformas que começou”. Pouco mais tarde, aparecia o histórico secretário-geral do PCI e primeiro líder do PD, Acchille Occhetto. “Esta grande participação é um exemplo. Outros partidos não podem dizer o mesmo.”

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