Erika Lust: “Fui mais criticada por ser feminista do que por fazer pornô”

Erika Lust, a mulher que surpreendeu o mundo com sua palestra TED sobre as mudanças necessárias à indústria do pornô, conversa sobre relação entre o sexo e a tecnologia

O nome de Erika Lust é reconhecido como o de uma pioneira do novo cinema de adultos, feito por mulheres para mulheres e também para muitos homens que já não se excitam com a pornografia clássica: sexo oral interminável, penetrações hiper-realistas e forçadas, mulheres que nem a excitação do orgasmo impede de continuarem olhando fixamente para a câmera e homens com ereções que duram mais do que uma tendinite.

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O que acha da série da Netflix Hot Girls Wanted: Turned On? Acha que mostra bem o mundo do sexo e da pornografia?

Para dizer a verdade, ainda não a vi. Eles vieram acompanhar meu trabalho no ano passado, e ficaram uma semana filmando e conversando comigo sobre todos os seus aspectos. É muito interessante que se façam documentários sobre esses assuntos dos quais ainda se fala tão pouco, mas que são cada vez mais relevantes. Nos últimos 10 anos, a pornografia passou de ser algo escondido, que era projetado em cinemas especiais ou que cada um assistia em sua própria casa, para se transformar em um veículo de comunicação que está a um clique de nós, de graça. A grande maioria do pornô online, gratuito, não tem nenhum cuidado, humilha muito a mulher, é violento e mostra uma sexualidade feia e desagradável. Do meu ponto de vista não o entendo muito porque me parece totalmente anti-luxúria, não acredito que tenha a ver com que muita gente identifica com o erótico e a fantasia.

Eu vi todos os capítulos e diria que não só o pornô, mas os aplicativos de encontros, as webcams e todo o negócio do sexo, que cresceu graças à tecnologia e à Internet, segue um modelo masculino.

Isso tem a ver com quem está nos mostrando tudo isso, porque 98% são homens que produzem ideias e fantasias masculinas, para um determinado tipo de homem, os que gostam de carros, seios e bundas. Existem poucos artistas, realizadores e intelectuais nessa área.

De qualquer maneira, se trata de diferentes ferramentas, que podem ser usadas de uma forma positiva ou negativa. Quando as pessoas comentam que a Internet destruiu a pornografia eu não estou muito de acordo. No meu caso, se existo é graças à Internet. Lá me tornei conhecida e criei uma plataforma onde me conecto com minha audiência e juntos criamos os filmes que estou fazendo graças ao projeto X Confessions, onde as pessoas enviam suas fantasias sexuais e eu as filmo. Tenho também outra plataforma, a www.eroticfilms.com, na qual reuni filmes de muitos diretores e diretoras diferentes que podem ser alugados.

Quando fiz meu primeiro curta-metragem e entrei em contato com algumas empresas do setor do cinema adulto, todas me desestimulavam por completo. “Não, isso não vai interessar a ninguém, as mulheres não assistem pornô, não são nossa audiência”, me diziam sempre. De modo que construí um site, comecei a escrever minhas reflexões, coloquei meu filme online gratuitamente e duas semanas depois já tinha 2 milhões de visualizações e as pessoas me escreviam. Foi quando vi que não estava completamente sozinha, que existiam pessoas que se interessavam pelo meu trabalho e que me pediam para que continuasse fazendo meus filmes.

Quais você diria que são os principais traços de identidade do cinema de Erika Lust?

O que eu vejo é que a pornografia tem um potencial enorme, o que acontece é que as pessoas que estão no ramo desde os anos 80 (antes existiam coisas mais interessantes) são muito básicas, e não tem valores. Está muito concentrada somente no físico, na penetração. Eu quero ver gente interagindo, a química entre eles, como reagem. Quero mostrar o lado positivo e prazeroso da sexualidade e para isso utilizo todos os ingredientes do cinema. Uma ideia poderosa, que seja interessante, excitante, sexual e erótica. Para mim é importante entender quem são os personagens e por que fazem o que fazem. Preciso de contexto e dou muita importância ao casting. Escolho pessoas que me agradem, que me atraiam, com personalidade. Fujo do look típico do ator pornô, ainda que tenha descoberto que muitos atores do pornô convencional não têm essa aparência, ela é construída. Se você simplesmente lhes coloca outra maquilagem e outra roupa eles se tornam diferentes. Também tem a ver com as locações. Os cenários típicos do pornô, que são pobres e descuidados, com uma luz terrível. São todas essas pequenas decisões juntas.

Existe então um vasto mercado para explorar o pornô responsável, apesar da gratuidade da rede?

Sim, porque muitos procuram outra coisa. É como a junk food e as lojas gourmet. Muitos quando vão ao supermercado também prestam atenção no rótulo, de onde vem a comida, como foi produzida, como alimentaram os animais que fornecem a carne ou os ovos. Essas coisas estão se tornando importantes e há cada vez mais gente consciente do processo de fabricação, do que está por trás do produto. Costumo dizer que uma maneira de procurar o bom pornô, se você estiver navegando on-line, é ver se existe uma página about. Existe uma pessoa por trás, alguém com nome completo e foto, de quem talvez você possa ler uma entrevista para conhecer suas opiniões ou assistir ao making of de um de seus filmes, para sentir que há realmente alguém que fabrica tudo isso com valores? É o que se chama de pornografia ética. Ou seja, existe uma garantia de que os atores foram bem tratados, que conhecem o roteiro e estão de acordo com as cenas que vão rodar, que nunca serão forçados a fazer algo com o que não estão de acordo ou que são objeto de exames de saúde e de DST que eles compartilham.

O mundo do pornô clássico não tem essas regras?

Quando você está diante da câmera sem roupa, você está numa situação muito vulnerável, você precisa sentir que há uma equipe de produção por trás que te respeita. Mas no mundo do cinema adulto alguns não seguem essas normas ou pressionam os atores a fazer as coisas que não querem. Tem muita gente que se vê obrigada a filmar cenas que não foram acordadas e, claro, a fazer intervenções cirúrgicas ou colocar implantes, especialmente se já têm mais idade, para prolongar sua vida profissional ou ganhar mais dinheiro, embora essa já seja uma pressão social para todos, mas elas/eles a acusem ainda mais.

Para mim, o olhar feminino é importante. Eu tenho atrás de mim uma equipe de mulheres, quinze mulheres que rodam os filmes: diretora de arte, de fotografia, figurino, maquiagem, assistente de direção. Tenho a melhor equipe do mundo. Mostro mulheres que têm o poder de sua sexualidade, que fazem coisas que querem fazer. Isso nem sempre significa que têm de ser as dominadoras, porque não tem nada a ver com isso, pois você pode muito bem ter o poder e ser submissa. Significa que é importante mostrar o consentimento, situações em que os integrantes estão confortáveis e decidiram fazer o que fazem, por mais forte ou escandaloso possa ser para alguns.

Você já disse que a pornografia é a educação sexual dos jovens. Podemos falar, além de um pornô feminista e ético, de outro educativo?

É difícil para mim essa posição. Não posso promover isso. A idade legal é 18 anos e nessa idade os meninos e meninas já viram de tudo, mas há pais que já me escreveram pedindo para recomendar filmes que tenham sido pensados para um público mais jovem. Fiz um filme recentemente com atores que tinham 22 anos, mas pareciam mais jovens, como de 18, mostrando uma relação normal entre dois adolescentes. Foi baseado em uma confissão de alguém que me pedia, por favor, que fizesse um retrato de jovens normais. Porque as pessoas estão muito cansadas da fetichização dos teenagers no pornô. Meninas com tranças, rabos de cavalo e minissaias com homens muito mais velhos. Outra característica da pornografia convencional, que procura estabelecer tipologias muito específicas: negras, maduras, asiáticas... Colocar todo mundo em categorias.

Se os jovens que ainda não tiveram relações sexuais constroem sua sexualidade com imagens da pornografia convencional, o que sai de tudo isso?

Um conceito do sexo muito ligado à variedade, como um catálogo, mandando fazer isso e aquilo. Uma concepção consumista do sexo. Há toda uma geração que cresceu com a pornografia e cujo comportamento sexual será influenciado pelas imagens que veem. Os maiores como nós, que já tiveram sexo, sabem o que é, como funciona, sabem que é algo que leva seu tempo, você tem de conhecer o corpo da outra pessoa, ver como reage. No pornô tudo acontece muito mais rápido do que na vida real.

Mas também tem o lado bom de tudo isso, ainda existe muita gente que têm medo de si mesma, dos seus desejos ou fantasias. Uma mulher que é feminista e que não entende como a excita a ideia de ter sexo forte com um homem e pensa “humm, algo está errado aqui”. É interessante ver retratos de outras pessoas e suas sexualidades. Com X Confessions muita gente me escreve e diz que foi ajudada por ter visto como as pessoas se relacionam. É muito difícil ver retratos honestos de sexo, porque nos filmes de Hollywood é proibidíssimo e então, no outro extremo, há a pornografia superpesada. Somos todos um pouco perversos, é bom, não tem problema. É preciso das as boas-vindas à pessoa interior erótica que temos lá dentro.

O que suas filhas acham de ter uma mãe pornógrafa?

Sou a melhor mãe do mundo! Elas têm 6 e 9 anos e sabem que faço cinema para maiores, que trabalho com atores que muitas vezes estão nus, mas a compreensão delas do que é realmente a pornografia ainda não está claro. Elas têm uma visão do sexo ainda muito inocente. Mas, aos poucos, vou colocando o assunto na educação delas, também tecnológica. Hoje você não pode ensiná-las a usar um computador ou um iPad sem falar de certas páginas que existem na Internet, abertas a todos.

Como você vê o futuro da pornografia, acabará sendo exibida nas salas comerciais?

É difícil dizer, porque o mundo está mudando muito rápido. Muitos dos meus filmes já são exibidos nas salas de arte e ensaio. Há uma semana mostrei meu trabalho no clube Soho House, em Barcelona, e também fui convidada para participar, neste verão, do Soho House em Berlim e da feira de tecnologia Tech Open Air, também na capital alemã. Já dei conferências em universidades e uma palestra TED. Se você faz esse tipo de cinema erótico pode chegar a ter uma entrada em salas mais comerciais. É possível que consiga fazer em algum momento um filme mais comercial, mas vou tentar também manter algo de sexo dentro.

Imagino antes do reconhecimento internacional do seu trabalho você atravessou um período em que te chamaram de tudo.

Feminazi era o mais comum. O que mais perturbava muitos colegas não era tanto o sexo, mas a visão feminista do mesmo, especialmente entre os integrantes da tradicional indústria pornô. Para eles eu sou a bruxa mais bruxa, dizendo que tudo o que eles fazem é horrível. Eu não me meto com o tipo de filme deles, mas sim com os valores deles. Acho que deveriam limpá-los um pouco, parar de tratar as mulheres como merda e respeitar mais os atores. Mas sim, o feminismo ainda irrita muita gente. Na próxima semana acontece em Toronto (Canadá) um festival pornô que antes se chamava Feminist Porn Awards. Agora mudaram o nome e tiraram a palavra feminista por suas conotações negativas, você sabe, aquelas mulheres que querem cortar os paus dos homens.

Você acredita que a forma pela qual a sociedade e nós nos enfrentamos e entendemos nossa sexualidade está caduca e que, talvez, devêssemos renová-la?

Uma das grandes coisas que nos empurram é o sexo. Na verdade, estamos aqui porque em algum momento duas pessoas tiveram sexo. Mas eu acho que, especialmente as mulheres, ainda somos empurradas para não vivermos nosso lado sexual plenamente. Continuam existindo os dois estereótipos extremos: ou você é uma freira ou uma puta, e é difícil encontrar modelos no meio, quando a maioria das mulheres está nessa faixa. Eu acho que agora há uma luta importante a ser feita, a dos trabalhadores do sexo em sua ânsia de ser descriminalizados. Porque comparar as redes de tráfico de pessoas com o trabalho de outros é como comparar sexo com estupro. É outra batalha e não é minha especialidade, mas acho que é importante começar a descriminalizá-los.

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