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A dolorosa confissão do último grande zagueiro do Manchester faz o Reino Unido chorar

Documentário que narra como Rio Ferdinand ficou viúvo, caiu em depressão, flertou com o álcool e pensou em suicídio comove seu país

Rio Ferdinand durante ato promocional da Copa do Mundo do Brasil 2014.
Rio Ferdinand durante ato promocional da Copa do Mundo do Brasil 2014. Cordon

Assim que terminou a exibição do documentário (nesta semana na BBC), milhares de espectadores inclinaram a cabeça e viram parentes e amigos com lágrimas escorrendo pelo rosto. Todos choravam, emocionados pelo que acabavam de ver. Rio Ferdinand: Being Mum and Dad ("Rio Ferdinand: ser mãe e pai") narra a história do lendário zagueiro do Manchester United fora dos gramados. Ou melhor dizendo, a história de como Rio Ferdinand ficou viúvo, caiu em depressão e, depois de um período de luto no qual flertou com o álcool e a ideia de suicídio, recuperou-se e seguiu em frente graças a seus três filhos.

“No começo [depois da morte de sua mulher] bebia um montão. Quando as crianças dormiam, descia as escadas e me embebedava a cada noite", confessa Ferdinand

Toda a minha vida tenho tentado ser ambicioso em tudo que faço. Quando era jovem, queria ser jogador de futebol, o melhor jogador de futebol, jogar em grandes estádios, ganhar troféus […]. Mas algo em que você nunca pensa é em como construir o melhor lar possível para seus filhos e sua mulher.” Assim começa o documentário sobre esse zagueiro que se aposentou do futebol em 2015, depois de 20 anos de carreira, 81 partidas com a seleção da Inglaterra, seis títulos da Premier League e um da Champions League com o Manchester United sob o comando do treinador Alex Ferguson.

 E então sua mulher foi diagnosticada com câncer

Em 2013, Ferdinand (Londres, 1978) era a imagem viva do sucesso. Era um dos jogadores mais midiáticos da Inglaterra do início deste século: pela primeira vez, um zagueiro central nascido no país sabia fazer algo mais com a bola nos pés do que o tradicional chutão para o alto. Era elegante na saída de bola, tinha um drible eficiente e sabia usar bem a cabeça na qual estreava um penteado exótico a cada fim de semana (afinal, compartilhou vestiário com o vaidoso Cristiano Ronaldo no Manchester United).

O ex-jogador chora ao recordar sua mulher em um momento do documentário da BBC.
O ex-jogador chora ao recordar sua mulher em um momento do documentário da BBC.

Razões mais que suficientes para se tornar por duas vezes o jogador de defesa mais caro da história da Premier League inglesa. O Leeds pagou 25 milhões de euros (83 milhões de reais) por seus serviços, uma cifra que se tornou irrisória quando o Manchester United o recrutou em 2002 por 45 milhões de euros (quase 150 milhões de reais). Uma quantia tão fabulosa que não foi superada na contratação de um zagueiro até 2014, quando o Paris Saint Germain pagou 62 milhões de euros (206 milhões de reais) pelo brasileiro David Luiz ao Chelsea). Internacional, capitão da seleção inglesa, seis vezes campeão da Premier e com uma Champions League no currículo. A vida lhe sorria de orelha a orelha. Até que, em 2013, sua mulher, Rebecca Ellison, foi diagnosticada com câncer de mama.

A doença de Rebecca

Rebecca era a namorada da vida toda de Rio Ferdinand. Os dois se conheceram em 2000 (ele pediu o telefone dela, que resistiu, mas acabou passando) e em 2006 tiveram seu primeiro filho, Lorenz. Ficaram noivos em Las Vegas e, em 2009, depois de Rio Ferdinand conquistar três Premier Leagues seguidas com o Manchester United, decidiram se casar e ter seu segundo filho, Tate, completando a família em 2011 com a única menina, Tia.

No documentário se veem imagens do caríssimo casamento nas Ilhas Virgens Britânicas: um delírio kitsch no qual o noivo está de branco imaculado e a noiva adorna sua fronte com uma joia de inspiração hindu. Rebecca não era modelo, nem criava tendências, nem nada parecido: estudou contabilidade. Não gostava muito de ir a festas nem de aparecer na imprensa. Ela teve essa mesma discrição durante sua doença. Em 2013, foi diagnosticada com câncer de mama. Após um primeiro tratamento, em 2015 a doença reapareceu, com uma força e uma agressividade inusitadas: apenas dez semanas depois, Rebecca Ellison morria aos 34 anos de idade, deixando um marido e três filhos destroçados.

A mulher de Ferdinand, Rebecca, chega ao Old Trafford, o estádio do Manchester United, com seus três filhos. A imagem é de 2012.
A mulher de Ferdinand, Rebecca, chega ao Old Trafford, o estádio do Manchester United, com seus três filhos. A imagem é de 2012. Cordon

Dias de vinho sem rosas

A primeira decisão de Rio foi pendurar as chuteiras. Depois de ter conquistado tudo no Manchester United, não tinha nem motivo nem interesse para continuar no Queens Park Rangers. A segunda decisão foi mais traumática: “No início, bebia muito. Todas as noites, quando as crianças iam dormir, eu descia as escadas e me embebedava. Foi assim durante os três ou quatro primeiros meses”. Rio confessa que era incapaz de responder quando seus filhos lhe perguntavam por que não tinham mãe. O homem que tinha tido tudo, que carregara nos ombros a defesa de um dos clubes mais importantes do mundo durante mais de uma década, desabava em alguns momentos. Um acidente de carro o tirou da depressão: era preciso viver, e era preciso fazer isso por seus filhos.

 O luto de Rio

É nesse momento que, na história de Ferdinand, aparecem outros homens, em sua maioria desconhecidos. Rio se depara com homens em situações parecidas: acidentes de carro, doenças, atropelamentos… Depois de sair da bolha da glória esportiva, ele descobre que as tragédias são mais comuns do que pensava: “Era muito resistente à ideia de procurar ajuda. Entretanto, depois de algo assim, os homens devem se ajudar”. No documentário, Rio chora. Muito. Porque não pode evitar o choro quando pensa em Rebecca e porque aprendeu que não tem sentido reprimir seus sentimentos. Ver um atleta como ele tão desconsoladamente aflito é um exemplo perfeito de como somos pequenos, por mais que nossa vaidade tente nos convencer do contrário.

Cristiano Ronaldo e Rio Ferdinand, juntos no Manchester United, com a taça da Premier de 2007.
Cristiano Ronaldo e Rio Ferdinand, juntos no Manchester United, com a taça da Premier de 2007. Cordon

Papai também é mamãe

Quando se casaram, Rebecca largou tudo para se dedicar à família: “Eu me levantava, vestia a roupa, tomava o café da manhã com as crianças, deixava-as na escola e ia treinar. E assim eu acreditava que colaborava nas tarefas domésticas”, confessa o jogador. Depois da morte de Rebecca, Rio teve de aprender outras coisas, desconhecidas para um astro do futebol como ele − e muito mais complicadas do que defender uma cobrança de escanteio ou fazer uma linha de impedimento.

Por exemplo, ele já domina a arte de encarar uma máquina de lavar roupa: “Olhei para ela e disse: ‘Sei o que você faz, mas não como faz’”. Faz as lições de casa com seus filhos, cozinha para eles, leva-os para treinar futebol (como não!) e até mesmo, em uma cena muito terna, penteia a cabeleira de Tia, a caçula. “Em um lar há toda uma organização e estrutura que os homens não veem. […] Rebecca cuidava de todas essas coisas que eu não fazia, mas agora estamos diante uma situação completamente diferente. Eu pergunto a mim mesmo coisas como: 'Onde será que eles deixaram seus sapatos? Onde está sua roupa?’”.

Hoje, Rio sabe. Aprendeu a ser pai e mãe. Está orgulhoso disso. E acredita que, provavelmente, há alguém mais que também o admira: “Agora posso dizer que quando Rebecca nos observar do céu, pensará: ‘Bom trabalho, crianças!’”. 

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