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O demônio que ensinou Trump a atacar

Presidente ressuscita seu mentor companheiro de farra, Roy Cohn, inquisidor mcCarthista e advogado de mafiosos

Donald Trump com seu advogado Roy Cohn, no início dos anos oitenta.
Donald Trump com seu advogado Roy Cohn, no início dos anos oitenta. Bettmann Archive

É uma história antiga, que estava quase enterrada. Mas Donald Trump encarregou-se de ressuscitá-la. Acorralado pelo escândalo de espionagem russo, suas alegações de que é alvo de uma "caça às bruxas e uma vítima do mcCarthismo" fizeram voltar à tona uma das amizades mais obscuras do presidente dos Estados Unidos. Um vínculo que remete aos anos 1950, quando o país foi vítima de uma histeria anticomunista e passou a adorar o monstro da suspeita. O protagonista, então, foi o diabólico advogado Ray Cohn. "Ele teve papel fundamental na vida de Trump, Cohn foi seu grande mentor, foi o homem que lhe ensinou a atacar", disse Marc Fischer, editor do The Washington Post e co-autor da biografia Trump Revelado.

Joseph McCarthy.
Joseph McCarthy.

Morto há 30 anos, Cohn teve dois momentos de extremo destaque eu sua vida. O primeiro foi aos 23 anos, quando como assessor-chefe do senador Joseph McCarthy (1908-1957) orquestrou um dos maiores grupos políticos do século XX norte-americano. O segundo foi muitos anos depois, em outubro de 1973, no Le Club, uma das casas noturnas mais exclusivas de Nova York. Naquela época, Cohn tinha 46 anos, um Rolls Royce verde dólar e era um advogado bem sucedido com clientes duvidosos.

Naqueles tempos de milionários de meia idade, o antigo macarthista conheceu um jovem com ambições faraônicas. Um tigre de 27 anos, chamado Donald Trump, que havia decidido deixar para trás o Queens, terra de seu pai, e ir conquistar Manhattan. O que surgiu, então, foi algo que foi além da amizade.

Ethel e Julius Rosenberg.
Ethel e Julius Rosenberg.

Cohn continuava sendo muito conhecido. A fama vinha desde a juventude, quando como promotor ele condenou à cadeira elétrica o casal Ethel e Julius Rosenberg, acusado de ter revelado segredos de projetos atômicos para a União Soviética. Seu jeito inquisidor naquela julgamento despertou a simpatia de McCarthy, que não duvidou em tê-lo como braço direito em sua temida caça aos comunistas. Juntos, eles acabaram com as carreiras de milhares de inocentes e construíram conspirações paranoicas. Diante de um país eletrificado pelo ódio, seu poder de inquisidores alcançou tanta força que o próprio presidente Dwight Eisenhover teve de intervir.

Após ser censurado pelo Senado, McCarthy acabou seus dias como alcoólatra. Cohn transformou-se em um magistrado tão brilhante quanto inescrupuloso e amante de um dry-martini. "Ele defendia os chefes das famílias de mafiosos Gambino e Genovese, entre outros", explica David Cay Johnston, ganhador do prêmio Pulitzer e autor da biografia The Making of Donald Trump.

Assíduo frequentador do Le Club, Trump já observava havia muito tempo aquele tubarão, até que em uma noite decidiu aproximar-se e pedir-lhe ajuda em uma causa que estava tirando o sono dele e de seu pai. Donos de 14 mil apartamentos no Brooklyn, eles eram investigados pelo Governo Federal porque negavam-se a alugar os imóveis para negros. Não era a primeira vez. Vinte anos antes, seu pai já havia enfrentado acusações similares, que inclusive motivaram uma música de protesto do lendário Woody Guthrie, um dos inquilinos. Mas, daquela vez, as provas acumuladas eram muitas, e a repercussão do caso ameaçava ser catastrófica.

Depois de ouvir a explicação de Trump sobre o assunto, Cohn não teve dúvidas. Em vez de recomendar um acordo, soltou: "Diga para eles irem para o inferno e lute na justiça". Aquela agressividade encantou Trump.

Pouco tempo depois, seguindo conselho do advogado, o jovem convocou uma entrevista coletiva em que acusou o Departamento de Justiça de ter fabricado o caso contra ele, e exigiu uma indenização de 100 milhões de dólares. O golpe deu certo. Os Trump conseguiram um acordo sem necessidade de declararem-se culpados. "Foi um momento-chave. Cohn mostrou o caminho para ele: não ceder, não cooperar, chamar a atenção seja como for e ganhar as causas diante da mídia", explica Fischer.

A partir de então, o advogado transformou-se no mestre de Trump. Quase em um segundo pai, que moldou a personalidade do empresário e o ensinou o "atacar, atacar e atacar". "Trump aprendeu muito com Cohn, foi quem o instruiu sobre como atacar o Governo e os jornalistas que não faziam o que ele queria", explica David Cay Johnson.

O pai, Trump e Ivana.
O pai, Trump e Ivana.

O magistrado, bem relacionado, abriu as portas da Nova York dourada para seu novo amigo. Colocou Trump na mesma mesa dos grandes políticos, foi seu representante nos casos mais espinhosos, deu conselhos em detalhes íntimo, como o acordo pré-nupcial com a modelo Ivana Zelnickova. Trump e Cohn se davam bem. Nasceram para viver no luxo e na mídia. E eram implacáveis. "Eles se pareciam em seu jeito de agir e suas crenças", diz Fischer.

Para Trump, além disso, os complexos de seu advogado importavam pouco: Cohn é um homossexual que insultava publicamente os homossexuais; um extremista que, até seus últimos dias, aplaudia o senador McCarthy.

Da esquerda para a direita, Donald Trump, o prefeito Ed Koch e Roy Cohn na inauguração da Torre Trump, em 1983.
Da esquerda para a direita, Donald Trump, o prefeito Ed Koch e Roy Cohn na inauguração da Torre Trump, em 1983. Getty

A dupla viveu muito tempo nesse mundo selvagem. E não apenas nas noites loucas da discoteca Studio 54. Cohn era um necromante do poder, e em sua lista de contatos estavam desde o estranho diretor do FBI, J. Edgar Hoover, até o chefe mafioso Anthony Salerno.

"Nunca me enganei sobre Roy. Não não era um escoteiro. Um dia ele me disse que tinha passado mais de dois terços da vida adulta sendo acusado. Aquilo me fascinou", escrevia Trump, anos mais tarde.

A amizade acabou de forma natural. Cohn, devastado pelo vírus HIV, morreu em 2 de agosto de 1986. Ele tinha 59 anos e havia acabado de ser expulso da advocacia. Ele foi condenado, entre outras coisas, por ter entrado no quarto do multimilionário Lewis Rosenstiel, então senil e agonizante, e, segurando sua mão, tê-lo obrigado a assinar um documento que o nomeava como responsável por seus bens.

Mas a morte não foi o fim, o esquecimento. A sombra do advogado nunca deixou de perseguir Trump. E quando, na semana passada, pressionado pelo escândalo russo, o presidente declarou que era vítima do "mcCarthismo" e acusou sem provas a Barack Obama de ter gravado suas conversas telefônicas, muitos imaginaram que, na Casa Branca, vive o fantasma de Cohn. Bem perto de Trump, aconselhando-lhe ao pé do ouvido: ataque, ataque, ataque.

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