Seleccione Edição
Entra no EL PAÍS
Login Não está cadastrado? Crie sua conta Assine

Donald Trump acusa Obama de grampear suas ligações antes das eleições

Presidente dos Estados Unidos acha que o Governo anterior interceptou as chamadas de seus escritórios em Nova York. Obama rebate com veemência as acusações

Donald Trump, neste 3 de março, em Orlando.
Donald Trump, neste 3 de março, em Orlando. AP

Sem provas, sem dados, mas cheio de rancor. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, dirigiu sua artilharia tuiteira contra seu antecessor, Barack Obama, e o acusou, numa série de disparos incendiários, de ter interceptado sua comunicação durante a campanha. Em cinco mensagens o presidente dos EUA afirmou que "acabara de descobrir" que haviam sido gravadas conversas em seus escritórios em Nova York "logo antes da vitória". "Que baixo desceu o presidente Obama para grampear meus telefones durante o sagrado processo eleitoral. Isso é Nixon/Watergate", vociferou no Twitter.

Obama, evitando o embate pessoal, negou com veemências as acusações. "Nem o presidente Obama, nem qualquer funcionário da Casa Branca ordenou qualquer vigilância a nenhum cidadão dos EUA. Qualquer acusação contrária a isso é completamente falsa”, afirmou um porta-voz do ex-presidente.

O ataque, sem precedentes, acontece em meio ao escândalo de espionagem da Rússia que cerca a Casa Branca. As investigações revelaram as numerosas reuniões que membros da equipe do atual presidente fizeram com representantes do Kremlin enquanto o Partido Democrata era alvo de uma campanha de ciberataques orquestrados de Moscou e destinados, segundo os serviços de inteligência, a favorecer Trump e desacreditar sua rival, Hillary Clinton. O personagem principal dessa trama foi o embaixador russo, Sergei Kislyak. Os contatos com o representante de Vladimir Putin e sua ocultação custaram o posto do conselheiro de Segurança Nacional, Michael Flynn, e esta semana levaram o procurador-geral, Jeff Sessions, a se afastar de todas as investigações abertas sobre a campanha e a conexão russa.

Embora não tenha sido demonstrada participação da equipe de Trump nos ciberataques, as investigações abertas pelo FBI, pelos serviços de inteligência, pelo Senado e pela Câmara se tornaram a mais séria ameaça ao presidente. Encurralado, o bilionário não apenas viu sua reputação ser corroída como também a ressuscitação do escândalo pela oposição democrata e o surgimento de dúvidas em seu próprio lado.

A resposta de Trump foi, como tudo nele, inesperada e brutal. Primeiro atacou os líderes do Partido Democrata e da Câmara, Chuck Schumer e Nancy Pelosi, por suas reuniões com o presidente Vladimir Putin. Em sua conta no Twitter, divulgou nesta sexta-feira uma imagem do senador Schumer com o dirigente russo e exigiu que fossem esclarecidas as ligações. Na manhã deste sábado, quando os Estados Unidos despertavam, voltou a se manifestar.

Numa tentativa desesperada de criar uma reviravolta no escândalo, Trump afirmou que o embaixador Kislyak visitou 22 vezes a Casa Branca durante a Administração Obama. "E no ano passado estiveram sozinhos quatro vezes." Depois passou à acusação mais grave lançada desde que chegou ao poder: Obama grampeou seus telefones em outubro, durante o "sagrado processo eleitoral".

A acusação representa um salto qualitativo em sua costumeira verborragia. Atribui sem provas ao presidente anterior um crime e até o compara ao Watergate, que levou à saída de Richard Nixon. Com um só gesto esmaga o pretendido trânsito para águas mais tranquilas que havia começado depois do discurso de terça-feira no Congresso e volta ao ponto de partida. O de um político acostumado ao assédio verbal e ao descomedimento para atacar seus rivais.

Desta vez talvez tenha ido longe demais. Obama ainda tem apoio de amplos setores da sociedade norte-americana, e se Trump não apresentar provas de suas acusações o tiro poderá sair pela culatra.

MAIS INFORMAÇÕES