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O improdutivo conflito entre surfistas e tubarões

Por que não é uma boa ideia matar esses animais para reduzir os ataques aos esportistas

Um surfista espera flutuando sobre a prancha a menos de 200 metros da praia. A água está um pouco turva por causa das chuvas que caíram no último dia e não resta mais do que uma hora de luz, mas as ondas são fantásticas. O sol tornou-se uma bola laranja a quatro dedos da linha do horizonte que marca o mar e tudo está calmo. De repente, um choque violento arranca o surfista da prancha. Ele não sabe o que aconteceu, não vê nada que tenha se chocado contra ele. Percebe ao redor a água mais quente e se dá conta que seu próprio sangue o envolve. Alarmado, não sabe onde está ferido e nem com qual gravidade. Tenta chegar à praia desesperadamente.

Esse é o caso típico de ataque de tubarão. A maioria das pessoas que sofre um ataque não vê o animal nem costuma sofrer mais do que uma mordida sem maiores consequências. Os poucos casos que resultam na morte da vítima acontecem por hemorragia ou pelo choque de se ver envolvido em tal situação, se não consegue cuidados médicos nos primeiros momentos. Quase ninguém é partido em dois ou devorado, pois o homem não está entre as presas naturais dos tubarões.

De todos os incidentes com tubarões no ano passado, os surfistas ficaram com a maior parte, totalizando 58% dos ataques; os que menos problemas tiveram com os tubarões foram os mergulhadores, que só sofreram um ataque. A razão pela qual os surfistas são o grupo mais atacado se deve ao fato de que eles são os que ficam mais tempo na água, exatamente na área preferida dos tubarões, a rebentação, e fazendo atividades que despertam os sentidos dos tubarões: batida de pés, agitação de mãos e pés na água, remar com as mãos ou cair estrepitosamente da prancha. A “boa” notícia é que no ano passado 81 pessoas foram atacadas por um tubarão, mas apenas quatro morreram. É muito mais provável morrer afogado, 132 vezes mais, ou atingido por uma embarcação no mar, até 290 vezes mais, do que ser atacado por um tubarão. Para cada morte por ataque de tubarão, 1.000 ciclistas morrem, e você tem o dobro de possibilidades na vida de morrer nas garras de um urso do que ver um tubarão fincar-lhe os dentes, imagens um tanto perturbadoras.

Kelly Slater
Kelly Slater AFP

Sinceramente, serei impopular por dizer isto, mas deveria haver uma matança seletiva (de tubarões) séria na Ilha da Reunião e deveria ser diária.

Kelly Slater

Ainda assim, com as estatísticas na mão, não é de estranhar que entre os surfistas haja maior sensibilidade aos incidentes com tubarões. O medo não entende de matemática. Depois do acidente infeliz em que um surfista, Alexandre Naussance, perdeu a vida na Ilha da Reunião, Kelly Slater – 11 vezes campeão mundial de surfe –, disse que é necessário fazer uma matança de tubarões na região porque o desequilíbrio era insustentável. E, claro, provocou imensa polêmica nas redes sociais e no mundo do surfe. O pobre Kelly Slater foi chamado de tudo, menos de bonito, mas não estou plenamente de acordo.

Um livro para entender a vida dos tubarões

O improdutivo conflito entre surfistas e tubarões

Pedro Lopez Alegret

Tiburones (Tubarões) é um livro que oferece a imagem real dos tubarões. Traz as lendas urbanas, a história real, dá uma visão da natureza através da classificação do animal, sua anatomia, órgãos sensoriais, alimentação, reprodução, distribuição e migrações. Ensina como identificá-los, as regras para evitá-los e como agir quando se encontra um. Além disso, traz uma seleção dos melhores lugares para mergulhar com tubarões e dicas para fotografar tubarões, pesquisar sobre eles e protegê-los.

Pedro López Alegret é formado em Biologia com grau em “biologia de tubarões” pelas universidades de Cornell e Queensland. É mergulhador desde 1965. Autor de oito livros sobre tubarões, natureza marinha e fotografia subaquática. Dedica-se atualmente ao mergulho em todo o mundo... de preferência com tubarões.

Não conheço pessoalmente Kelly Slater, então não posso opinar nada sobre ele; como surfista profissional é conhecido por todo mundo, então nesse aspecto está tudo dito. O que posso dizer é que Kelly Slater não tem muitos conhecimentos de dinâmica populacional, de tubarões, nem de ecologia (como ciência que estuda as mudanças de energia em um ecossistema, não como conceito de proteção não profissional da natureza), embora não tenha razões para isso.

O tubarão que ocasionou o ataque era da espécie conhecida como tubarão-touro. Uma espécie cuja simples imagem infunde muito mais do que respeito. É um tubarão corpulento, com um grande dorso, uma cabeça larga e dono de uma das mais poderosas mordidas do reino animal. Certamente Slater tem certo medo dele, eu certamente tenho bastante, testemunhei sob a água a grande curiosidade e a falta de timidez desse peixe. Sem dúvida, é um animal em relação ao qual se deve ter muito respeito, não em vão é a terceira espécie com mais ataques identificados, depois do tubarão-tigre e do tubarão branco. Se alguma coisa o tubarão-touro provoca é respeito e, às vezes, medo atávico. Talvez tenha sido essa a razão que levou o campeão, em um momento visceral, a pedir que fosse feito um controle populacional do tubarão por meio da pesca discriminatória. É verdade que a Ilha da Reunião tem uma história de ataques de tubarão muito peculiar e bastante interessante. Nos últimos 10 anos ocorreram 21 ataques em suas águas, dos quais 7 acabaram com a vida da vítima; em todo o mundo houve um total de 766 ataques com 61 mortes no mesmo período. O problema é que a Ilha da Reunião também tem uma das rebentações mais atraentes para o surfe e talvez seja por isso que os surfistas são mais ameaçados.

Mas, claro, pedir a matança de um dos predadores marinhos não parece ser uma ideia muito boa para o frágil equilíbrio de um ecossistema insular. Além de que frase “é preciso matar tubarões porque quero surfar nessas águas” seja um pouco dissonante eticamente. E também foi demonstrado que a matança discricionária de tubarões em primeiro lugar é bastante difícil e, em segundo lugar, não reduz o número de ataques. No Havaí foram pescados 5.000 tubarões durante 16 anos para evitar ataques, mas o número de ataques não diminuiu. Às vezes não é a espécie que provoca os ataques a que sofre as consequências da pesca, mas outras que compartilham o ecossistema e, às vezes, estão em perigo de extinção. Matar os tubarões não parece, a priori, ser uma boa ideia.

E a razão para isso está na própria Ilha da Reunião, onde o tubarão-touro não é uma espécie nativa. O motivo de a população do tubarão-touro ser dominante na região é que a pesca excessiva de tubarões de recife, a espécie residente, devido ao comércio de barbatanas de tubarão, fez a concorrência entre ambas as espécies entrar em colapso e deixou um nicho vazio, que foi ocupado pelo tubarão-touro, muito mais agressivo.

A Ilha da Reunião tem sua própria seção no Arquivo Internacional de Ataques de Tubarão, já mencionei antes que é um destino um tanto peculiar. E por isso as autoridades da ilha encarregaram mergulhadores de fazer um inventário ambiental dos tubarões. O que descobriram foi surpreendente: os mergulhadores não encontraram muitos tubarões, e os poucos que viram estavam concentrados na linha dos portos de Le Port e Saint Gilles, entre os quais está a praia de Boucan Canot e a foz do rio Galets, exatamente onde os barcos de pesca jogam peixes pequenos, lixo e restos de peixe na água. É justamente onde aconteceu a maioria dos ataques.

Alimentando tubarões ampliar foto
Alimentando tubarões

Os mergulhadores sofreram apenas um ataque de tubarão em 2016

É evidente que os habitantes e os visitantes da Ilha da Reunião merecem desfrutar do mar sem medo de ser mordidos por uma fera como o tubarão-touro e deve ser encontrada uma solução para que a ilha deixe de ser um ponto negro no panorama internacional dos ataques de tubarão. Mas a solução para o conflito entre surfistas e tubarões, para ser ecologicamente inócua, deve ser gradual, com ações como não jogar lixo no mar, não surfar ao amanhecer e ao entardecer ou em águas turvas, além de fazer um estudo populacional, ou trazer tubarões de recife para a área. Ou tudo o que foi mencionado antes.

Temos um medo paralisante de sermos devorados, medo herdado dos nossos antepassados que corriam para salvar a vida diante dos leões no vale de Afar. E isso faz com que às vezes o medo fale em vez da razão, por isso não se deve crucificar Kelly Slater, que por um lado é um grande defensor da natureza marinha e, por outro, depois que passou a tempestade midiática sobre seu pedido para matar tubarões, desculpou-se e afirmou: “Não pensei no que disse”.

A Ilha da Reunião tem um problema com os tubarões, mas, na verdade, é um problema pequeno. Se tomarmos alguma distância, veremos que os milhões de surfistas que se lançaram ao mar em todo o mundo em 2016 (estima-se que em todo o planeta existam 23 milhões de surfistas), apenas 45 tiveram problema com os tubarões e entre eles apenas três resultaram em morte. O que torna a probabilidade de você ser atacado por um tubarão ao entrar no mar com sua prancha semelhante à de ganhar na loteria. Ter medo dos tubarões no mar é como ir aos picos da Europa e ter medo de ursos, matematicamente falando.

O normal na vida de uma pessoa que desfruta do mar na costa é nunca encontrar um tubarão, porque estes evitam o contato com as pessoas de forma muito ativa, mesmo quando eles estão a centenas ou dezenas de metros de distância.

Dicas para evitar um ataque de tubarão

O surfista brasileiro Gabriel Medina em águas Australianas
O surfista brasileiro Gabriel Medina em águas Australianas EFE

Arquivo Internacional de Ataques de Tubarão (Universidade da Flórida)

O Arquivo Internacional de Ataques de Tubarão (ISAF, na sigla em inglês) é uma instituição científica com escritórios na Universidade da Flórida que já estudou mais de 6.000 casos individuais de ataques de tubarão com o objetivo de estabelecer parâmetros e evitar futuros acidentes com esses animais. Desses estudos foram tiradas as seguintes recomendações:

1. Surfar ou nadar sempre em grupos, pois existe uma probabilidade muito maior de um tubarão atacar uma pessoa isolada.

2. Não se afastar muito da costa, pois o isolamento dificulta o atendimento em caso de ataque ou qualquer outro problema.

3. Não surfar ou nadar ao amanhecer ou ao anoitecer, quando os tubarões estão mais ativos e têm uma grande vantagem sensorial.

4. Não usar joias, cujos reflexos podem parecer escamas de peixe.

5. Não entrar na água com ferimentos ou durante a menstruação. O olfato do tubarão é prodigioso.

6. Não entrar em áreas com efluentes, águas residuais, portos de pesca comercial ou esportiva, ou onde se esteja pescando ou agitando o mar. As aves marinhas que se lançam à água na vertical são um bom sinal.

7. A presença de golfinhos ou botos não significa que não existam tubarões, ambos compartilham as mesmas presas.

8. Evitar águas sujas ou desembocaduras de rios.

9. Não entrar com partes do corpo com tons de bronzeamento da pele muito diferentes ou com algo muito brilhante. Os tubarões são atraídos pelo contraste.

10. Não agitar a água ou surfar com animais de estimação, cujos movimentos erráticos podem lembrar um peixe ferido.

11. Ter cuidado ao atravessar áreas entre bancos de areia o banco de areia de um recife, pois são os locais preferidos dos tubarões.

12. Não entrar na água se souber que há presença de tubarões e sair se avistar algum.

13. Claro, não perturbar um tubarão, mesmo que ele não demonstre interesse por nossa presença.

14. Se ocorrer uma aproximação, bater no focinho do tubarão e aproveitar o afastamento do animal para sair da água. Se o tubarão morder, colocar os dedos ou um objeto nos olhos ou nas brânquias do animal, mas nunca ficar passivo.

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Kelly Slater AFP

Não pensei no que disse

Kelly Slater, campeão de surf, empresário, ecologista.

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