Operação Lava Jato

“A Odebrecht é craque em se entender bem com a esquerda e com a direita”, diz um dos delatores

Ex-executivo do alto escalão da construtora contou ao EL PAÍS como entrava em outros mercados, da América Latina à Europa, aliado a parceiros locais para operar com governos de todas as tendências políticas

Protesto contra Odebrecht em Lima.
Protesto contra Odebrecht em Lima.Guadalupe Pardo/Reuters

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Agora, Venezuela, Colômbia, Argentina, México, República Dominicana e Peru entraram na mira das investigações das autoridades internacionais. E, pela primeira vez, um ex-executivo do alto escalão da empresa e um dos delatores da Lava Jato admitiu o esquema no exterior. Ao EL PAÍS, disse, com exclusividade, que a companhia se aliava a empresas locais para operar os esquemas de cartel e propina que realizou por anos dentro do Brasil. Essas parcerias permitiam à empreiteira brasileira ter relações privilegiadas com Governos de todas as tendências políticas. "A Odebrecht é craque em se dar bem com a esquerda e com a direita", disse o ex-executivo.

"Você não entra em um país sozinho", afirmou, ao contar sobre as parcerias da Odebrecht com as estrangeiras. Em cada país, a construtora  buscou parceiros e sócios para que abrissem as portas da política local. A história, embora tenha vindo à tona só agora, começou há mais de duas décadas. “Na Argentina, por exemplo, nos associamos à Benito Roggio”, disse ele. “Isso faz mais de 20 anos”, afirmou, durante um almoço com a reportagem.

Fundada em 1908 por um imigrante italiano, a Benito Roggio é hoje uma das prestadoras de serviços mais importantes para a Argentina. Por isso, não é de se estranhar que a Odebrecht a tenha escolhido como sócia para sua incursão naquele país. O que ocorre é que a Roggio não é só uma construtora e seus tentáculos se estenderam a concessões em transportes, saneamento e soluções ambientais, um modelo muito parecido ao que a Odebrecht tem no Brasil. Desde 1994, a empresa gerencia toda a rede de trens subterrâneos de Buenos Aires, através da empresa Metrovías, além da linha de trem Urquiza, que liga a capital com os municípios do oeste.

Seu modelo de negócios também inclui o serviço de recolhimento de resíduos na cidade de Buenos Aires, sob a marca Cliba, e em outras cidades da América Latina, como Assunção (Paraguai), Puebla (México), La Paz (Bolívia) e São Paulo. No Brasil, a Roggio integra o Consórcio VLT Carioca, junto com a operadora do metrô de Paris, a RATP, para a construção da linha VLT do Rio. A rede de negócios da Roggio também é ampla no Paraguai, com projetos de até 119 milhões de dólares.

"Você não entra em um país sozinho", diz o ex-executivo da Odebrecht 

Em 1989, sob a presidência de Carlos Menem, a Odebrecht e a Roggio fizeram uma parceria na Argentina para a construção da Autopista Acesso Oeste, um dos principais corredores viários de entrada e saída de Buenos Aires. O ex-executivo da Odebrecht confirmou a este jornal que as operações da companhia para negociação de propina e cartel começaram "muito antes" da onda de esquerda ganhar as eleições pelos países da América Latina. "A Odebrecht é apartidária", disse.

Porém, no caso da Argentina, o kirchnerismo juntou novamente a Odebrecht com a Roggio. Em 2008, obtiveram o contrato para o desenvolvimento de uma estação de tratamento de água solicitada pela estatal Aysa. O projeto, destinado à periferia norte de Buenos Aires, demandou 750 milhões de dólares no câmbio da época, dos quais 290 milhões foram financiados por um crédito do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

Na Colômbia

Embora as investigações na Colômbia estejam em fase embrionária, o envolvimento de políticos graduados em todo o esquema de subornos montado pela empreiteira brasileira prenuncia um ano de escândalos em plena pré-campanha para a eleição presidencial de 2018. Até agora só há dois detidos. Um vice-ministro de Transportes do Governo do ex-presidente direitista Álvaro Uribe e um ex-senador cujas contraditórias declarações abalaram os alicerces da Casa de Nariño, residência do presidente.

A Odebrecht distribuiu na Colômbia 11 milhões de dólares em propinas para obter licenças em obras nacionais e locais de infraestrutura. Mais de seis milhões foram parar no bolso do ex-vice-ministro Gabriel García Morales. Otto Bula, desconhecido da maioria, ocupou temporariamente o cargo de senador e levou 4,6 milhões de dólares da construtora. Parte desse dinheiro – especificamente um milhão de dólares – é alvo de um inquérito do Ministério Público e do Conselho Nacional Eleitoral (CNE) da Colômbia, que busca esclarecer se a verba irrigou a campanha eleitoral do presidente Juan Manuel Santos em 2014. Um comunicado do Ministério Público em 7 de fevereiro dava a entender que a quantia poderia ter servido para esse fim. Uma semana depois, porém, o ex-senador depôs ao CNE e negou que a propina tenha ajudado a reeleição de Uribe.

As operações da companhia para negociação de propina e cartel começaram "muito antes" da onda de esquerda em América Latina

Paralelamente, a Corte Suprema de Justiça recebeu informações confidenciais sobre a suposta vinculação de dezenas de congressistas com as propinas da empreiteira. O alto tribunal terá que revelar se há na lista pessoas com foro privilegiado, o que resultará em abrir ou não investigações preliminares que permitiriam continuar ampliando o rol de envolvidos no escândalo.

Diante dessa situação, a Superintendência de Sociedades, responsável pela fiscalização das empresas, decidiu submeter a controles quatro companhias vinculadas à Odebrecht: Odebrecht Latininvest Colombia SAS, Constructora Norberto Odebrecht de Colombia SAS e sua filial no exterior, além da Navelena SAS. Essas companhias estão vinculadas a grandes projetos de infraestrutura no país, como a construção de rodovias e a recuperação da navegabilidade do rio Madalena. “Uma vez que essa resolução seja definitiva, a Superintendência terá capacidades de fiscalização”, dizia Francisco Reyes Villamizar, diretor do órgão. Ou seja, seus agentes poderão solicitar documentação fiscal e contábil, as empresas precisarão pedir sua autorização para reformas e capitalizações, e poderão ser submetidas a investigações.

No caso dos contratos assinados com a Odebrecht para a construção de rodovias, a Superintendência de Indústria e Comércio deu um passo mais. Pablo Felipe Robledo, diretor do órgão, solicitou à Agência Nacional de Infraestrutura (ANI) que liquide o contrato da Rota do Sol (trecho 2), um dos projetos mais importantes concedidos à empresa brasileira. A decisão se baseia numa suposta “violação da livre concorrência”.

Na Europa

O ex-executivo da Odebrecht explica que os braços da companhia não eram curtos. Cruzando o oceano, ele aponta a construtora Bento Pedroso, em Portugal, como uma das parceiras nos esquemas da empreiteira. "A Bento Pedroso foi comprada para que a Odebrecht entrasse em Portugal, há mais de 25 anos", disse.

Em 2013, a festa de 25 anos da construtora luso-brasileira, no Palácio Nacional da Ajuda, contou com a presença do ex-presidente Lula entre os ilustres convidados. Para celebrar o aniversário, a companhia lançou, naquele mesmo dia, o livro Tempo de criar o futuro.

Tempestade no Peru

Raúl Tola

No Peru a Odebrecht também procurou como parceira a maior construtora do pais, Graña y Montero. E agora, o depoimento que Jorge Barata, ex-representante da empresa brasileira no Peru, deu aos promotores peruanos evidências para desencadear uma tempestade cujo futuro é incerto.

Em sua confissão, o colaborador da justiça reconheceu que a Odebrecht havia dado três milhões de dólares (cerca de 9,33 milhões de reais) para a campanha de Ollanta Humala em 2011, na qual foi eleito presidente. Também falou do suborno de 20 milhões de dólares pago ao ex-presidente Alejandro Toledo –hoje fugitivo da justiça, com uma ordem de prisão preventiva decretada contra si–, com o qual a empresa brasileira garantiu a concessão da Rodovia Interoceânica Sul, que liga o Peru com o Brasil.

Quando os promotores perguntaram se as empresas peruanas consorciadas com a Odebrecht na Interoceânica sabiam dessas práticas corruptas, Barata respondeu: “O pagamento [a Toledo] foi feito pela Odebrecht, mas as outras empresas tinham conhecimento, não de detalhes, mas sabiam que tínhamos pago e sabiam que tinham de assumir a parte delas”.

Medir o impacto de uma denúncia de corrupção numa empresa como a Graña y Montero, que é cotada em Bolsas de Valores (nas de Lima e Nova York), é impossível. Neste caso, a incerteza despertou uma forte pressão de venda imediata entre os investidores. Acuadas pelos acontecimentos políticos, as ações da construtora registraram uma queda histórica de 33,3% na Bolsa peruana e de 34,7% na de Nova York. Em Lima, a cotação das ações recuou 1,10 soles e atingiu a mínima de 2,20 soles, com uma perda acumulada de 35% na semana.

Intervenção dos EUA

Por seu tamanho, a Graña y Montero é uma empresa com muitos interesses cruzados. De acordo com o último relatório da Superintendência de Bancos e Seguros, as quatro administradoras do sistema privado de pensões investiram cerca de 1,3 bilhão de soles (cerca de 370 milhões de dólares) em ações da construtora.

A empresa tentou enfrentar a turbulência com um comunicado de imprensa em que negou veementemente as afirmações de Barata. “Reiteramos que nossa empresa e nossos executivos nunca tiveram conhecimento, e muito menos gerenciaram ou realizaram pagamento algum relacionado a qualquer forma de suborno ou reembolso de pagamentos desse tipo, realizados pela Odebrecht, como eles afirmaram”, acrescentou.

O comunicado de pouco serviu. Poucas horas depois de publicado, soube-se que o Rosen Law Firm, um escritório de advocacia que representa um grupo global de investidores, cogita abrir uma ação coletiva contra a construtora para recuperar as perdas sofridas por seus acionistas em Nova York. Seu argumento é que “a Graña y Montero pode ter divulgado informações de negócios materialmente enganosas ao público investidor”. Tudo pode se agravar caso a Comissão da Bolsa de Valores dos Estados Unidos (SEC) decida intervir por iniciativa própria, amparada pelas estritas leis antifraude desse país.

Na tarde da última sexta-feira, um grupo de promotores fez buscas nos escritórios da Graña y Montero para obter todas as informações possíveis sobre os contratos assinados com a Odebrecht. Em sua conta no Twitter, o Ministério Público afirmou que tais diligências se destinaram a esclarecer a investigação de um caso diferente da concessão da Rodovia Interoceânica. Trata-se do Gasoduto Sul, uma dos maiores obras de infraestrutura da história do Peru (representa um investimento de mais de 7,3 bilhões de dólares). A operação foi suspensa quando o consórcio formado por Odebrecht, Graña y Montero e a espanhola Enagás a perdeu, ao vencer o prazo para o financiamento. Como resultado, o Estado peruano executou a maior multa da história, de 262 milhões de dólares.

Isto implicou a Graña y Montero, a ICCGSA e a JJC Contratistas Generales, que formaram o consórcio CONIRSA com a empresa brasileira. Entre todas elas, a Graña y Montero é a mais importante e a que sofreu as piores consequências.

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