Crítica
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O classicismo contra a autocomplacência no Oscar

'A qualquer custo' combina western e thiller de maneira admirável, enquanto 'Manchester à beira-mar' parece um exercício irritante

Chris Pine e Ben Foster em 'A qualquer custo'.
Chris Pine e Ben Foster em 'A qualquer custo'.Divulgação

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Estas estatuetas conhecidas como Oscar, tão cobiçadas naturalmente tanto por aqueles que têm clareza que, acima de tudo, o cinema é um negócio quanto por espíritos elevados que querem criar arte com seus filmes, acostumaram-se à distribuição democrática de suas candidaturas, ao reconhecimento não só do que financiaram os grandes estúdios, mas também de filmes (um por ano e no máximo dois, tampouco é preciso ficar puxando o saco dos dissidentes) concebidos aparentemente fora do sistema, com essa etiqueta de filme indie que é aplicada com uma ausência alarmante de capacidade seletiva aos militantes espertos e aos tontos, e proveniente do festival de cinema de Sundance, onde, aparentemente, nascem todos anos alguns messias. É oferecida a possibilidade ao marginal e transgressor patinho feio de se transformar em cisne. Isso nunca acontece, mas Hollywood se sente moralmente coberta ao não excluir os pobres com pretensões de sua grande festa.

Independente do que acontecer na cerimônia mais importante do cinema, nesta edição vai competir com os gigantes dois exemplos desse cinema independente. Um deles pode ser o filme que mais gostei este ano. Chama-se A qualquer custo e tudo funciona admiravelmente nesta mistura de western e thriller. Ação, violência, complexidade, sentimento, descrição do ambiente, música... estão expressos com cristalino e formidável talento na história desses irmãos tão diferentes (um psicopata não só congênito, mas também vocacional; e outro, encurralado pela vida e com sagrados deveres familiares) que roubam bancos no Texas rural alegando as ancestrais ofensas e golpes que sofreram dos templos do dinheiro, e que são perseguidos por um ranger assustado com o vazio que irá criar sua aposentadoria iminente e um colega mestiço com quem tem uma relação divertida e afetuosa. E está o sempre exemplar Jeff Bridges. E os jovens e aceitáveis Chris Pine e Ben Foster, e os personagens episódicos magistralmente descritos. Tudo isso unido por um roteiro e uma direção de primeira classe.

O outro tem o título Manchester à beira-mar e vem coberto pelos comentários orgásmicos dos sempre previsíveis vanguardistas. Achei um exercício autocomplacente, cansativo e irritante de alguém determinado a contar uma tragédia de forma diferente, privando-a de recursos melodramáticos que manipulem o espectador convencional, tentando penosamente ser enigmático para alcançar o melhor realismo, combinando de forma gélida passado e presente, criando a sensação em muitos momentos de que os atores são livres para falar a primeira coisa que passa pela cabeça deles.

A terrível história de um homem com um segredo em seu passado, suicida frustrado, zumbi, com propensão a brigar em bares, guardião de um sobrinho adolescente, com sua inconsolável dor guardada bem fundo, teria capacidade para remover as fibras emocionais do espectador mais moderado, mas da forma como narra o diretor Kenneth Lonergan conseguiu que eu perdesse o interesse até níveis preocupantes de passado, presente (e futuro?) desse infeliz que a vida engordou.

Também jogaram muitas flores para a interpretação de Casey Affleck. Nunca suportei este ator. Se o seu irmão Ben é a personificação do nada, ele se esforça para representar um mundo interior torturado, com poucos gestos, mas sempre retorcido e intenso, emitindo o perigo que caracteriza certos idiotas, alguém com quem não gostaria de me encontrar na rua ou no cinema. Seria tragicômico que o Oscar desprezasse o classicismo de A qualquer custo e abençoasse esta experiência pretensiosa. Embora suspeito que a excessivamente elogiada La La Land não vai ter nenhum problema para ser coroada rainha.