Coluna
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A nova química do amor que fica

O amor líquido está com os dias contados, o amor quixotesco está de volta e se solidifica, meu velho Bauman

Christian Hartmann (REUTERS)

Pelo menos aqui na área, “hô - ba - lá – lá, hô - ba - lá – lá”, pelo menos no parque da Tupi, no Sumaré, SP, um casal de meninas se beijava no coreto ontem à tarde e fazia da chuva uma sólida tempestade de granizo, pelo menos é o que tenho observado, mr. Zyg, e olhe que nem citei ainda as malditas estatísticas. Sabias que voltou a crescer o número de casamentos nos trópicos? É o que dizem os anuários desde 2014.

Carajo, grande Zyg, que a terra lhe seja leve, sentiremos muito tua falta, sem palavras...

Este país é tão contraditório, meu velho, que até os encontros do Tinder —e outros correlatos aplicativos da sacanagem moderna e líquida— podem levar ao matrimônio. Maria, minha amiga gaúcha lá em Brasília, que o diga. Casadíssima, depois de um chamego tindernético na cidade do Rio de Janeiro. “Hô - ba - lá – lá, hô - ba - lá – lá, esta canção...”

Amor, com ou sem pica, amor picaresco, amor quixotesco que solidifica. Óbvio, mr. Zyg, que a putaria rola solta neste verão pecaminoso, nada mais natural —nada mais líquido e certo também do que o mantra do “lavou está novo”. A busca por nós mais firmes, porém, voltou com o visgo dos casais de outrora. Uma busca romântica, não obrigatoriamente careta. Um desejo. Sacanagem avulsa é bom, todavia cansa, assim funciona o movimento sexy e antropológico da vida, não achas?

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Não testemunhava nada igual, polaco pai d'égua, desde priscas eras. Depois do lançamento do teu livro Amor Líquido –sobre a fragilidade dos laços humanos (ed. Zahar, 2003), a bíblia que captou a fuleiragem amorosa, somente agorinha, na virada para 2017, comecei a entender que o amorzinho gostoso e demorado está de volta. É tendência. Mesmo antes do Carnaval. Apostem. Brincar junto nos blocos será a nova onda?

Tempo ao tempo, só a areia da ampulheta sabe a resposta e a guarda em silêncio. Até lá, paciência, que se mantenha o processo de solidificação do que parecia apenas gotejante. Mesmo que em alguns casos a inocente água inodora e incolor seja capaz de gerar um coração de gelo. Rio o riso possível, talvez com o filtro degradê do cinismo. Já é um avanço, hoje me encontro mais otimista do que um filme do Frank Capra. Muito prazer, Pollyana, moça.

Carajo, grande Zyg, que a terra lhe seja leve, sentiremos muito tua falta, sem palavras... Embora o amor estrebuche sinais de vitalidade, viejo polaco, no restante tudo segue na mesma lengalenga social clube.

A modernidade do atraso neoliberal liquida sem dó nos Tristes Trópicos. Vi um filme esta semana no cinema da rua Augusta, rapaz, que nem te conto. Título: Eu, Daniel Blake. Direção do teu amigo Ken Loach, aquele Corisco que não se entrega, que resistência, hombre.

A busca por nós mais firmes, porém, voltou com o visgo dos casais de outrora

Pobre Daniel. Cagado e cuspido um personagem do teu livro Vidas Desperdiçadas. Daquelas figuras que deram até a última gota de sangue ao país e agora não contam com nenhuma segurança social por parte do Estado liquidado. Só pega a senha da decepção histórica na fila dos desvalidos. E olhe que o tiozinho mora em Newcastle, Inglaterra. Imagina no Brasil, Zyg, que adota aquele receituário capaz de tragédias gregas.

Guardes, porém, a reviravolta no amor como boa nova, te dou em breve notícias do nascimento de Irene, uma filha da imaginária Cratóvia, mistura do meu Crato com a Varsóvia materna. O sangue cosmopolita ainda bombeia os encontros amorosos de São Paulo.

 Xico Sá, escritor e jornalista, é autor de Se um cão vadio aos pés de uma mulher-abismo (editora Fina Flor), entre outros livros. Comentarista de televisão nos programas Papo de Segunda (GNT) e Redação Sportv.