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Uma Europa concreta

Ante um ano turbulento, a UE deve priorizar seus planos mais visíveis e explicáveis

Sede da Comissão Europeia em Bruxelas.
Sede da Comissão Europeia em Bruxelas.

A Europa inicia domingo um ano dramático e crucial, no qual aposta a própria existência. O contexto mundial está deprimente e angustiante, na encruzilhada e provável conluio entre o próximo Governo extremista de Donald Trump e a crescente tendência ameaçadora de Vladimir Putin. Esta simbolizada pelo escândalo da espionagem informática que conduziu para a guerra diplomática nas últimas horas. Sem esquecer o velho autoritarismo de uma China que se imagina como a nova hegemonia. Por isso, o poder suave, pacífico e solidário da União Europeia será internacionalmente mais necessário que nunca. E, ao mesmo tempo, mais difícil de ser mantido, e nem falamos em ampliá-lo. A própria construção interna comunitária que fundamenta esse poder está em xeque, por suas agudas fraturas internas. De modo que se a necessidade de mais Europa a puxa para cima, a crua realidade a contrai para baixo. O risco não se limita hoje a uma queda na irrelevância. É um perigo real e evidente — embora evitável — de puro e simples desaparecimento.

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Se for comparada com sua referência tradicional, os Estados Unidos, é óbvio que a situação europeia é — considerada estaticamente — muito melhor. As instituições comuns não enfrentam um letal assédio populista. Funcionam a um ritmo moderado, mas palpável. Os Governos da maioria dos Estados membros — e essencialmente os dos países mais decisivos — continuam sendo decentes, embora os de alguns parceiros orientais (Polônia, Hungria) se tenham instalado no autoritarismo e no nacionalismo xenófobo, endogâmico e antieuropeu. Traços compartilhados por movimentos de rebelião ultraconservadores e populistas, um pouco por todo lado, o que contamina e contagia, ou pelo menos condiciona, todas as elites nacionais.

Mas a comparação deve incluir também as diferentes dinâmicas. O próximo poder de Washington se adivinha como fator de erosão da nação aberta e liberal em que se baseia sua supremacia mundial desde 1945 (ativismo global, responsabilidades defensivas e financeiras, comércio sem fronteiras, respeito — às vezes sincopado — pelas instituições multilaterais). Mas dificilmente destruirá a própria realidade dos EUA, arraigada ao longo de dois séculos: seu mercado, sua moeda, seu poder estratégico, o apego a suas liberdades.

Em troca, a UE, embora exiba resultados esplêndidos em seus quase 60 anos de existência, é mais vulnerável, por sua juventude, aos engodos externos e domésticos. Sobreviveria a uma mudança de alianças que a aprisione em uma pinça EUA-Rússia? Está condenada, como seu primeiro parceiro, a Alemanha, a atuar como colosso econômico e anão político? Pode digerir o assalto populista que obstaculiza qualquer avanço aproveitando o recurso à chantagem do veto em assuntos decisivos?

As próximas eleições e a aceleração do ‘Brexit’ dificultam a adoção de decisões necessárias

Pode, mas sob a condição de ganhar consciência de que qualquer revés prejudica muito mais uma criatura mal chegada à maturidade (como ela mesma) do que um adulto, de que necessita forjar uma liderança coletiva, na ausência de outras individuais; de criar um entendimento na direção para recuperar a confiança perdida por muitos cidadãos; de delimitar as ambições e traduzi-las em projetos concretos, autoexplicáveis, tangíveis, indiscutivelmente benéficos para todos, sob o auspício pioneiro de programas como o Erasmus.

As próximas eleições na Holanda, França e Alemanha, submetidas à pressão indigna dos ultraconservadores — se caem os parceiros principais, cairá a União —, e a aceleração do Brexit depois que em março o Reino Unido oficializar sua vontade de sair do clube, dificultam a adoção das grandes decisões que são necessárias. E urgentes para que o continente volte a ser coeso e enfrente o denso conjunto de ameaças vizinhas: a turbulência turca e suas implicações na questão dos refugiados; a cruenta volatilidade síria; o iminente agravamento no Oriente Médio; a exponencial aversão russa a bálticos e outros territórios de seu antigo império.

Mas a Europa não deve renunciar a relançar as políticas para seus vizinhos. Nem a completar a união econômica e monetária: concretizar a união bancária, construir um Tesouro, novos planos de investimento, uma nova ênfase político-econômica no crescimento e no emprego. Nem a recuperar a agenda social: direitos coletivos, jovens e desempregados há longo tempo, seguro desemprego europeu complementar. Nem a avançar em uma ação comum de defesa.

Demarcar os objetivos, selecionar os programas, medir as ações possíveis, buscar calendários viáveis significa moldar todos esses instrumentos a um realismo militante. A UE não deve comprar radares e aviões de transporte para se confrontar com EUA ou Rússia, mas para ter voz, ser respeitada, condicionar e preparar-se para voltar a tecer alianças no dia em que as ligações artificiais e adversas decaiam. Deve desenhar mais microprogramas-piloto (de eurobônus de recepção de imigrantes, de controle das costas, em favor dos empregados), melhor se forem facilmente financiáveis, do que um New Deal tão utópico e desejável como distante. Ou isto, ou o nada.