GUERRA SÍRIA

A difícil missão de sair vivo de Aleppo

Sírios relatam suas experiências ao serem levados para a periferia rebelde ou para a zona do Governo

Civis lotam um veículo para ser retirados do leste de Aleppo nesta sexta-feira
Civis lotam um veículo para ser retirados do leste de Aleppo nesta sexta-feiraSTRINGER (AFP)

Nisrine, dona de casa, quatro filhos, 30 anos de idade

Em segurança na Aleppo controlada pelo Exército sírio

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“Saímos. Estamos bem”. Essa foi a mensagem que Nisrime enviou depois de passar pelos controles do Exército que marcam a passagem para a Aleppo ocidental. Mergulhar em um prato de sopa, tomar um banho e “dormir muitas e muitas horas” -- isso foi a primeira coisa que essa mulher de 30 anos, seu marido (que sofre de problemas graves nas costas) e os quatro filhos, entre quatro e 12 anos de idade, fizeram. Há um mês, Nisrine se via tomada pela incerteza. Transformada em chefe da família, precisava decidir entre fugir do cerco ou sobreviver nele. “Permanecer é correr o risco de morrer sob os bombardeios. Ou, pior, de que um dos meus filhos seja ferido e morra por falta de cuidados. Sair é se arriscar a morrer no caminho”, refletia ela em conversas entrecortadas. Quando um morteiro caiu no quarto dos filhos, que saíram ilesos, a cena de suas camas destruídas dissipou todas as dúvidas de Nisrine. “Temos de sair daqui”. A família correu de rua em rua no último domingo, junto com um grupo de moradores apavorados. Esquivaram-se de tiroteios e bombardeios até chegar aos postos controlados pelas tropas de Assad. Do outro lado, na Aleppo ocidental, o abraço saudoso de seus pais os aguardava havia mais de dois anos.

Muitas famílias evacuadas não tiveram nem tempo de gozar de sua segurança física, sendo imediatamente afetadas pela insegurança econômica. “A coisa vai muito mal aqui”. Não temos dinheiro, e meus pais dividem a casa com 25 pessoas”, sussurra Nisrine, já a salvo. A segunda maior cidade síria está completamente lotada com a chegada de mais de 100.000 pessoas em uma semana, o maior deslocamento em massa ocorrido no país nos últimos quatro anos. Uma pressão que faz transbordarem as instalações de acolhimento, onde 100 funcionários exaustos da Meia Lua síria e da Cruz Vermelha trabalham ininterruptamente, e o valor dos alugueis disparar, passando de 300 euros, o equivalente a cinco meses de salário na Síria.

Mohamed, cuidador de gatos e motorista de ambulâncias, 40 anos de idade

Evacuado para a periferia rebelde a caminho da Turquia

“Saímos. Estamos bem”. Essas mesmas palavras eram repetidas por Mohamed Alaa Al Jaleel em mensagem de voz na manhã desta sexta-feira. Proveniente de Idlib, última capital regional ainda em mãos dos rebeldes, esse ex-eletricista que na guerra virou motorista de ambulância e cuidador de gatos relata as suas últimas 24 horas. Ele saiu com o segundo comboio, em meio a 1.500 civis, sem grandes perturbações. “O terceiro comboio foi cercado quando milicianos iranianos interromperam a sua passagem”, conta ele.

Dois meses atrás, Jaleel passava as noites alimentando mais de 170 gatos, entregues pelos moradores que fugiam. Durante o dia, transportava feridos a bordo de duas ambulâncias. Duas semanas atrás, as bombas atingiram o abrigo dos gatos, matando vários deles e deixando outros tantos completamente cobertos de pó a deambular em meio às ruínas. O bombardeio inutilizou uma das ambulâncias, que de qualquer maneira, por causa da chuva de bombas, não tinha condições de circular.

Na quinta-feira, Jaleel saiu da Aleppo oriental dirigindo uma ambulância esfrangalhada, levando seu gato favorito no porta-luvas e três pessoas feridas na parte de trás. “Topamos com soldados russo em todos os postos de controle. Não falaram nada”. Faz quatro meses que ele mandou sua mulher e os dois filhos para a Turquia, “para que eles não virem analfabetos”, como dizia na ocasião. Mas ele optou por permanecer sob o cerco “com os pobres, aqueles que não têm aonde ir, aqueles que não têm mais nada”. Depois de cumprir sua promessa, neste domingo ele partirá rumo à Turquia para se reencontrar com a família. Não sem antes transportar para hospitais turcos os feridos em situação mais grave.

Os 47 órfãos da Casa das crianças

Retidos em Aleppo oriental depois de uma evacuação fracassada

Neste vídeo, os órfãos fazem um telefonema desesperado ao mundo para que os ajudem a sair da cidade.

“A primeira coisa que eu vou fazer quando o cerco terminar é comer um shawarma”, gritava, ao telefone, em outubro passado, Mohamed Qantar, órfão de 14 anos que, junto com outros 46 menores de idade, encontrou abrigo no porão da Casa das crianças. Foi ali que foram parar todos os que perderam os pais, uns levados pela loucura, outros pelas bombas, como no caso dos pais de Qantar. Faz 24 horas que o telefone de Asmar el Halabi não atende. “Se Deus quiser, de manhã as crianças serão retiradas”, foi a sua última mensagem, na madrugada da quinta-feira. Mas algo deu errado. Novos ataques, desta vez vindos de Teerã, travaram novamente uma evacuação já cheia de obstáculos. As crianças que já aguardavam o transporte fazendo fila nas portas dos ônibus tiveram de ser levadas de volta às pressas para o orfanato, como confirmou via WhatsApp um ativista localizado no reduto dos rebeldes.

Em outro último, por falta de abastecimento, El Halabi teve de baixar as refeições diárias de três para duas. Mas, mais do que os seus estômagos, o que o deixa preocupado são as mentes das crianças. “Não existe um único psicólogo em Aleppo oriental, e todas as crianças estão com problemas”. Neste domingo eles tentarão sair de novo dali. Depois que Qantar conseguir fazer isso, juntamente com seus companheiros de orfandade, o seu irmão maior, de 18 anos, irá ao lado dos rebeldes para Idlib, onde se abre uma nova frente de batalha.

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