Guerra na Síria | O Drama de Aleppo

Evacuação de Aleppo é suspensa em meio a novos confrontos

Comitê Internacional da Cruz Vermelha e OMS foram forçados a abandonar a área

Agencias
Beirute / Ancara - 16 dic 2016 - 14:39 UTC
Um grupo de sírios abandona, na sexta-feira, os bairros rebeldes de Aleppo.
Um grupo de sírios abandona, na sexta-feira, os bairros rebeldes de Aleppo.STRINGER

Mais informações

A evacuação de pessoas do leste de Aleppo, na Síria, foi suspensa na sexta-feira, após quatro explosões terem sido ouvidas no momento em que vários ônibus estavam saindo do ponto de evacuação, de acordo com um correspondente da Reuters. A cadeia de televisão estatal síria informou que os rebeldes violaram o acordo fechado com o Governo tentando fazer prisioneiros durante a evacuação. As equipes da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) foram forçadas a deixar a área. Um funcionário sírio que supervisiona a evacuação disse à Reuters que foi impedido por “obstáculos”. Os meios de comunicação próximos aos rebeldes acusam as milícias xiitas de terem disparado contra os comboios.

“Há poucos minutos a operação foi abortada. Foi pedido à OMS e ao CICV que abandonem a área com ônibus e ambulâncias, embora não tenham dado nenhuma explicação”, disse por telefone de Aleppo a representante da OMS na Síria, Elizabeth Hoff. Consultada sobre quem pediu para abortar a operação, Hoff disse que “assumia” que “foram os russos”, mas não afirmou categoricamente que essa tenha sido a fonte da ordem. O que afirmou é que a OMS não teve contato direto com o regime sírio. Também explicou que “ordenaram” aos civis “que estavam desesperados para sair”, disse, para voltarem para suas casas. Hoff disse que desconhecia o número de pessoas que ainda permanecem em Aleppo oriental e que estão presos em 2,6 quilômetros quadrados, acrescentando que entre os que esperavam esta manhã havia “muitas crianças e mulheres”.

O presidente do escritório político do grupo insurgente Fastaqin, Zakaria Malahifyi, disse à Agência Efe por telefone que “a evacuação foi suspensa porque milícias iranianas com seu franco-atiradores atacaram o comboio na altura da zona Projeto 1070, depois de passar pelo corredor de Ramusa”.

Mais de 3.000 pessoas foram levadas para o território opositor na quinta-feira, de acordo com o Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV), mas a ONU assegura que cerca de 50.000 pessoas continuam presas no último reduto rebelde. O número de evacuados difere de acordo com as várias fontes na região. O cessar-fogo foi mantido na segunda maior cidade do país, depois de mais de quatro anos de hostilidades, até depois das 11h da manhã hora local (7h no Brasil).

A agência de notícias estatal SANA disse que até agora um total de 8.079 “terroristas” e suas famílias abandonaram os distritos sitiados de Salaheddine, Al Ansari, Al Mashhad e Al Zabdie pelo corretor de Ramusa-Ameriya, sob a supervisão do CICV e do Crescente Vermelho. Essas pessoas, de acordo com a mesma fonte, foram evacuadas de Aleppo em dez grupos, que se dirigiram a partes do sudoeste da província.

Por sua parte, o Observatório Sírio de Direitos Humanos, localizado em Londres, confirmou que até agora saíram dez grupos com 8.500 feridos, doentes, civis e combatentes do leste de Aleppo, em direção ao oeste, para a província de Idlib, controlada quase inteiramente por facções rebeldes.

O Observatório, por outro lado, disse que nenhum doente ou ferido saiu das cidades de maioria xiita de Al Fua e Kefraya, encravados no território dos insurgentes na província de Idlib e sob cerco há mais de um ano. Ontem, um comboio de ambulâncias foi até essas duas localidades para facilitar a evacuação, que ainda não ocorreu. A saída dos pacientes das duas cidades é parte do acordo de evacuação de Aleppo, já que foi uma das condições impostas pelo Irã, aliado do Governo de Damasco, para permitir a saída dos rebeldes e civis da maior cidade do norte da Síria. “Ahrar al Sham e outros grupos rebeldes impediram que ônibus e ambulâncias chegassem a Al Fua e Kefraya”, segundo Rami Abdel Rahman, diretor do Observatório.

Os milhares de civis evacuados esta semana do leste de Aleppo poderiam ser acomodados em um acampamento que será criado no norte da Síria, perto da fronteira com a Turquia, e o país vizinho vai continuar a aceitar os feridos e doentes que forem transportados da cidade, como informaram funcionários do governo turco à Reuters.

As fontes consultadas disseram que há dois locais em potencial para o acampamento dos deslocados, que terá capacidade para cerca de 80.000 pessoas sendo que esperam a chegada de 30.000 a 35.000 pessoas nos próximos dias.

Putin e Erdogan trabalham para organizar uma rodada de negociações no Cazaquistão

O presidente russo Vladimir Putin disse na sexta-feira que as tropas sírias “estão tendo êxito” na operação em Aleppo, apontando que Rússia e Turquia “estão trabalhando” para organizar negociações de paz entre as partes envolvidas. “A próxima fase é chegar a acordos sobre um cessar-fogo total em toda a Síria”, sublinhou Putin, segundo a agência russa de notícias Tass.

Por causa de seu acordo bilateral com a Turquia, Moscou continua “prestando assistência às forças militares sírias” e à população deste país durante o cerco e a evacuação de Aleppo, disse Putin em uma conferência de imprensa realizada hoje em Tóquio depois de se reunir com o primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe.

“Não sei os últimos detalhes, mas de acordo com a última conversa por telefone com o presidente turco [Recep Tayyip Erdogan] está sendo feito o que foi negociado na hora de ajudar a proteger a população síria”, disse Putin durante o segundo dia de sua viagem ao Japão.

O líder do Kremlin acrescentou que o próximo passo deveria ser “a negociação de um cessar-fogo” entre as partes envolvidas, observando que Erdogan e ele “estão trabalhando” para organizar uma nova rodada de negociações de paz em Astana – capital do Cazaquistão.

Estas conversações aconteceriam em paralelo ao processo de paz facilitado pela ONU e sobre a base das discussões mantidas nos últimos anos em Genebra, disse Putin. “Vamos tentar encontrar uma solução política e um compromisso entre todas as partes”, disse o líder russo, acrescentando que a Turquia e a Rússia “não estão conversando com a comunidade internacional” neste processo.

Mais informações

O mais visto em ...

Top 50