O candidato independente que barrou o populismo na Áustria

Van der Bellen, ex-líder do Partido Verde, se elege à margem dos desgastados partidos tradicionais

Van der Bellen celebra sua vitória nas eleições presidenciais, no domingo em Viena.
Van der Bellen celebra sua vitória nas eleições presidenciais, no domingo em Viena.VLADIMIR SIMICEK (AFP)

Muitos dirigentes europeus comemoraram com alívio a vitória de Alexander van der Bellen sobre a ultradireita na eleição presidencial da Áustria, com 53% dos votos, e a interpretaram – horas antes do anúncio de que o não vencera o referendo sobre a reforma constitucional na Itália – como um sinal de que é possível frear o avanço dos movimentos populistas. Apesar de ter sido associado ao Partido Verde no começo da sua carreira, o novo chefe do Estado atraiu eleitores distantes do ecologismo e da esquerda, ao se apresentar como um independente que exercerá o cargo de forma apartidária. Uma imagem de presidente de centro, acompanhado de uma dupla mensagem: um não à ultradireita tão taxativo quanto o sim à UE.

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Nessa viagem, esse economista de 72 anos deixou pelo caminho sua militância nas fileiras social-democrata e verde, que financiou parte da sua campanha e cuja bancada parlamentar ele liderou entre 1999 e 2008. Mas Van der Bellen nunca seguiu o estereótipo do militante verde de bicicleta, exibindo em lugar disso um perfil moderado de liberal de esquerda, como se definiu há alguns anos. De fala pausada, entrou na política depois dos 50 anos, após uma longa carreira como professor universitário de Economia. Havia deixado o Parlamento e a primeira fila da política austríaca, mas volta agora como o primeiro presidente não egresso das fileiras social-democratas ou democrata-cristãs desde a Segunda Guerra Mundial.

Filho de refugiados

Parte do eleitorado atendeu ao apelo por barrar o ultranacionalista FPÖ, mas a vitória de Van der Bellen se alimentou também do eleitorado tradicional dos dois grandes partidos. “Há uma parte da população que nunca escolherá o FPÖ, mas só com eles não se alcançam 53%”, diz o cientista político Laurenz Ennser-Jedenastik, da Universidade de Viena.

Seu adversário, Norbert Hofer, tentou colar nele a imagem de um oportunista que esconde suas verdadeiras inclinações comunistas e ecologistas. Acusou-o também de ser incoerente por pedir mudanças nos tratados comerciais num momento em que os protestos se intensificaram e de estar do lado do establishment. “Você tem a elite, eu tenho as pessoas”, disse a Van der Bellen num debate quando este se gabou do respaldo de um amplo comitê de representantes da cultura, da universidade e de políticos de todo o espectro. “Também há um varredor, um carpinteiro, uma enfermeira…”, defendeu-se a equipe do político verde. Mas o que os eleitores de Van der Bellen mais apreciaram nele, segundo uma pesquisa da consultoria Sora para a televisão pública, é que transmitiria uma boa imagem do país e apresentava uma postura pró-europeia e uma visão tradicional do cargo, centrado na representação externa.

Para combater a ideia de que é uma pessoa distante, Van der Bellen, casado e pai de dois filhos, percorreu mercados e festas populares, envergou trajes típicos e gravou vídeos no dialeto do Tirol, entre cujas montanhas se criou como filho de refugiados (seu pai, russo de origem holandesa, e sua mãe, estoniana, fugiram da Rússia bolchevique).

Sua história familiar lhe serviu para alertar contra os lemas anti-imigração da ultradireita e, no seu afã por falar à Áustria rural – a urbana já o apoiava esmagadoramente – e conservadora, reivindicou a “pátria” como um sentimento que não é patrimônio da direita. “Não deixo que me tirem essa palavra, e também uso gravatas azuis”, brincou, em referência à cor da FPÖ.

Após as vitórias do Brexit e de Donald Trump, ele insistiu aos cidadãos para que formassem um dique contra o populismo. Ontem, voltou a salientar essa mensagem, ao afirmar que deve seu mandato a uma mobilização “acima dos partidos”, com o que a Áustria envia um “sinal de esperança a toda a Europa”.

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