Conflitos de interesses que esperam por Donald Trump na Casa Branca

Presidente eleito lidera rede de empresas e acordos comerciais que operam em vários países

Quando o presidente eleito Donald Trump tomar posse de seu cargo no próximo 20 de janeiro, terá nas mãos uma longa lista de potenciais conflitos de interesse, algo sem precedentes na história dos Estados Unidos. O magnata possui um conglomerado de empresas com negócios em outros países, assim como vínculos em mercados financeiros internacionais e contratos no exterior que poderiam influenciar algumas das decisões em matéria fiscal, política externa e de segurança nacional.

O interior da Trump Tower em Manhattan, Nova York.
O interior da Trump Tower em Manhattan, Nova York. AFP

Trump se recusou a adotar a única solução para este problema. O empresário poderia criar um fideicomisso cego, através do qual cederia a administração de suas posses e negócios a outra pessoa, sem a possibilidade de obter informações sobre eles. Essa separação entre ele e suas empresas evitaria potenciais conflitos que possam surgir quando seus interesses comerciais entrarem em choque com os dos EUA. O magnata considerou ceder essa responsabilidade para seus filhos Donald, Eric e Ivanka, mas isso significa que estariam negociando acordos internacionais usando o sobrenome do presidente.

O conflito de interesse piora ainda mais porque o presidente eleito não divulgou suas declarações de impostos dos últimos anos, rompendo com a tradição dos candidatos à presidência. Esses documentos teriam revelado as fontes de renda de Trump dentro e fora do país, mas o republicano se recusou a fornecê-los com a desculpa de que está sendo auditado pelo Tesouro dos EUA — embora a auditoria não impeça que as informações sejam divulgadas — uma instituição que vai funcionar sob seu comando a partir de 20 de janeiro.

Da China ao Irã

A legislação norte-americana exige que seus presidentes divulguem seus bens, mas podem manter secretas suas declarações de impostos, os empréstimos que recebem de bancos estrangeiros, seus investimentos em outros países ou os acordos para construir infraestrutura fora das suas fronteiras. E, embora os congressistas devam abandonar toda negociação que possa afetar o funcionamento de suas empresas, essa mesma regra não afeta os presidentes. Jimmy Carter e George W. Bush renunciaram aos conselhos administrativos de suas empresas antes de tomar posse em Washington para evitar uma situação como a que agora enfrenta Trump.

Segundo uma investigação da Newsweek, o presidente eleito tem uma rede de centenas de empresas que o levou a construir edifícios com seu nome na Turquia, Índia, Coreia do Sul e Azerbaijão, além de ser beneficiário ou possuir ações em fundos com sede fiscal, entre outros, na República Dominicana. Seu projeto imobiliário no Azerbaijão, paralisado segundo Trump durante a campanha eleitoral, conta entre seus sócios com Anar Mammadov, filho do ministro dos Transportes do Azerbaijão.

Na Rússia colaborou com Felix H. Sater que, de acordo com informações do The New York Times, colocou-o em contato com o fundador de uma construtora que levou potenciais investidores a reuniões com Trump em seu escritório em Nova York. A mesma empresa “recebeu ocasionais injeções não identificadas em dinheiro de contas no Cazaquistão e na Rússia”, diz o Times.

Outro de seus credores internacionais, o Banco da China, também poderia gerar conflitos. De acordo com outra investigação do Times, a instituição do Governo chinês concedeu um empréstimo de 950 milhões de dólares (3,2 bilhões de reais) para realizar um projeto a um grupo de empresas, entre elas uma propriedade de Trump, que recebeu 30% desse dinheiro.

A lei norte-americana proíbe que qualquer funcionário federal — incluindo presidentes — recebam doações de governos estrangeiros, e Trump poderia entre em choque com a legislação, se uma de suas empresas for destinatária desse tipo de empréstimos enquanto estiver ocupando a Casa Branca.

Na Coreia do Sul, a Newsweek descobriu que Trump esteve associado com a construtora Daewoo Group, que posteriormente se declarou falida em meio a acusações de corrupção. Na Índia, o ministro de um estado do sudoeste do país se recusou a alterar a regulamentação para favorecer os investimentos da Trump Organization depois de receber um pedido do filho do presidente eleito, de acordo com a mesma publicação. E na Turquia — aliado dos EUA na luta contra o Estado Islâmico — sua empresa assinou uma colaboração com o Dogan Group para colocar o nome Trump em dois arranha-céus em Istambul.

Uma ampla carteira de ativos

Trump possui hotéis em Nova York, Las Vegas, Chicago e Waikiki, campos de golfe na Flórida e o Trump International Hotel em Washington. O empresário chegou a um acordo com o Governo federal, dono do edifício na capital, para abrir seu negócio hoteleiro. Como presidente, vai supervisionar os termos desse pacto consigo mesmo.

O maior credor das empresas de Trump é o Deutsche Bank, que atualmente está negociando com o Departamento de Justiça uma multa por seu papel na bolha imobiliária. O acordo pode não ser fechado pelo Governo de Obama e seria o de Trump que resolveria o caso contra o banco que financiou grande parte de suas iniciativas nos últimos anos. O magnata também possui ações no Facebook, Bank of America – que poderia se beneficiar de uma desregulamentação bancária – e um futuro oleoduto em Dakota do Norte para o qual prometeu eliminar qualquer obstáculo.

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