Os desafios do novo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump

Republicano deve abordar papel dos EUA na guerra contra o Estado Islâmico e tensão com a Rússia

Novo presidente dos EUA, Donald Trump
A Casa Branca, em Washington. EFE

O novo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, enfrentará, a partir de 20 de janeiro, quando toma posse, um amálgama de desafios. O novo ocupante do Salão Oval terá pela frente um tabuleiro de xadrez geopolítico em que Washington pretende consolidar sua influência como primeira potência mundial. E no âmbito interno deve dar uma resposta a uma sociedade preocupada com a erosão da classe média e a alucinante polarização política, e que está em plena transformação demográfica frente ao retrocesso da raça branca como o grupo populacional hegemônico.

De alguns dias para cá foi fechada ao tráfego a passarela de pedestres em frente da Casa Branca. Como acontece a cada quatro anos, estão sendo montadas arquibancadas para assistir à chegada do novo presidente no fim de janeiro. Os ritual estabelece que o presidente dê uma volta, de carro e caminhando, pela avenida que une as escadarias do Congresso, onde presta juramento, até a residência presidencial.

Washington entra hoje oficialmente em uma fase de transição. Depois de semanas de contatos informais, o Governo que está de saída começa a trabalhar com membros do novo poder Executivo para preparar a transferência de poder. Além de suas próprias prioridades, o novo comandante-em-chefe herda dos oito anos de presidência do democrata Barack Obama um conjunto de assuntos que marcarão o início do seu mandato.

Na arena internacional, deverá abordar o papel dos EUA na guerra contra o Estado Islâmico (EI) no Iraque e na Síria, a tensão com a Rússia por suas ânsias expansionistas e o crescimento de uma China mais ambiciosa regionalmente .

Os desafios da União Europeia frente à saída do Reino Unido da União Europeia e a onda de refugiados também serão prioridades. “Deverá construir fortes alianças bilaterais com França, Alemanha e Itália se quiser avançar em seus objetivos ante a visível incapacidade das instituições europeias para oferecer soluções eficazes a esses desafios”, afirma Carles Castelló-Catchot, chefe de gabinete do Centro Brent Scowcroft do Atlantic Council, um laboratório de ideias de Washington. O especialista adverte sobre a crescente “irrelevância” da Europa como “parceira prioritária” dos EUA.

“O mundo é diferente daqueles de 2009 e 2013. Quem ocupar o Salão Oval terá de levar em conta o que está acontecendo no mundo e como isso afeta a política e os interesses dos EUA”, diz P.J. Crowley, que foi assessor de assuntos de segurança nacional do presidente Bill Clinton e porta-voz da candidata democrata Hillary Clinton quando foi secretária de Estado no primeiro mandato de Obama. “Terá de avaliar que tipo de mandato recebeu nas eleições. O povo americano considera importante a luta contra o Estado Islâmico”.

Os EUA têm cerca de 5.000 soldados no Iraque e 300 na Síria, na campanha contra o EI. O novo presidente deve decidir se aumenta esse contingente e reforça a campanha aérea, iniciada em agosto de 2014. Outra prioridade é o futuro do presidente sírio, Bashar al-Assad, e seu papel na resolução do labirinto sírio depois de mais de cinco anos de sangrenta guerra civil. Washington continua pedindo oficialmente a saída de Assad, mas nos últimos meses reduziu a urgência, consciente de que sua prioridade é a derrota do jihadismo.

No cenário doméstico, o novo presidente herdará um país mais dividido depois da batalha entre Hillary Clinton e o republicano Donald Trump. Os ataques ferozes entre ambos dificultam prever o fim da polarização política e o bloqueio no Congresso que marcou os anos de presidência de Obama. “Teremos de descobrir o porquê”, disse na segunda-feira, véspera da eleição, o vice-presidente em fim de mandato Joe Biden num ato de campanha em Fairfax (Virginia), sobre a desconfiança em relação ao establishment político existente entre muitos eleitores. “Há muita gente que se sente abandonada”, acrescentou.

A ascensão do populismo de Trump e também do senador Bernie Sanders, que perdeu as primárias democratas para Clinton, evidenciou o fosso crescente entre uma parte da sociedade norte-americana e sua classe política. À semelhança de outros países desenvolvidos, a saída da crise econômica não é percebida da mesma maneira no bolso de todos os cidadãos. A crescente desigualdade de renda dos EUA não desaparecerá antes de 20 de janeiro.

Tampouco desaparecerá o crescente debate racial sobre o tratamento da polícia em relação à comunidade afro-americana. Obama, como primeiro presidente negro, não conseguiu resolver a questão. O novo presidente deverá responder também ao desafio da imigração em um país cada vez mais latino. E às preocupações financeiras do dia a dia do cidadão, como o custo crescente da saúde e das matrículas universitárias.

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