Tiros ao alto em uma escola rural: a ação policial num símbolo do MST

Na Escola Nacional Florestan Fernandes, policiais fazem disparos com arma letal e detêm dois

Balas supostamente usadas por policiais na escola Florestan Fernandes.
Balas supostamente usadas por policiais na escola Florestan Fernandes.H. Torchi (Sigmapress/Folhapress)
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Duas pessoas foram detidas por desacato, segundo a secretaria de Segurança Pública de São Paulo: um senhor de 64 anos, que vive na escola há três anos e realiza um trabalho voluntário na biblioteca, e uma musicista, que não é funcionária da escola, mas estava ali para dar uma oficina. Eles prestaram depoimento e foram liberados em seguida. Apesar dos disparos, ninguém foi atingido, mas o detido teve ao menos uma costela quebrada por socos e pontapés de um policial, segundo o depoimento que prestou na delegacia.

A polícia portava um mandado para a prisão preventiva de Margareth Barbosa de Souza. Segundo a advogada que acompanhou o caso, Alessandra da Silva Carvalho, ninguém na escola conhece Margareth. Além disso, “há fortes indícios” de que o mandado de prisão não tenha validade, segundo a advogada. “O policial nos mostrou o mandado por WhatsApp, depois foi imprimir em um lugar perto da escola”, explicou Carvalho. O documento, ao qual a reportagem teve acesso, não tinha assinatura do juiz.

A ação, realizada pelo Grupo Armado de Repressão a Roubos e Assaltos (Garra), faz parte da Operação Castra, deflagrada no Paraná para prender 14 integrantes do movimento em três Estados: Paraná, São Paulo e Mato Grosso do Sul. Segundo a secretaria de Segurança Pública do Paraná, os suspeitos formam parte de uma organização criminosa e são acusados de furto e dano qualificado, roubo, invasão de propriedade, incêndio criminoso, cárcere privado, lesão corporal, porte ilegal de arma de fogo de uso restrito e irrestrito e constrangimento ilegal. Até o momento, sete pessoas estão foragidas e outras sete foram detidas, dentre elas o vereador Claudelei Torrente de Lima (PT), que foi o mais votado nas eleições deste ano em Quedas do Iguaçu (PR). As duas pessoas detidas em São Paulo não faziam parte da lista das 14 buscas.

“Hoje é dia de matar ou morrer”

Segundo os relatos de presentes na escola Florestan e imagens do momento da operação, a polícia agiu com truculência. "O senhor detido tem mal de Parkinson. Ele foi se apoiar em um policial, porque ele tem dificuldade de locomoção", conta a advogada Alessandra. "Neste momento, ele é jogado no chão e algemado". De acordo com a advogada, a musicista foi detida ao se desesperar com o tiro que o policial deu pra cima no momento em que algemava o senhor.

Já a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo diz, por meio de nota, que os policiais foram recebidos com violência e que as duas pessoas detidas foram levadas para a delegacia porque foram identificados como agressores dos agentes. “Os policiais ficaram encurralados num espaço do local e, sem que pudessem exercer outra maneira de se defenderem, tiveram que efetuar dois disparos de advertência ao alto, pois cerca de duzentas pessoas vieram em direção a esses policiais e, caso não tivessem agido daquela maneira, certamente seriam desarmados, linchados e quiçá mortos".

Polícia invade a Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF) sem mandado de busca e apreensão. #LutarÉumDireito

Gepostet von ENFF - Escola Nacional Florestan Fernandes am Freitag, 4. November 2016

A nota também afirma que quatro policiais foram agredidos fisicamente, medicados e liberados do hospital. Uma funcionária da Santa Casa de Guararema confirma que "quatro ou cinco" policiais foram atendidos no hospital. Eles se queixavam de "dor no dedo, escoriações e nervosismo".

A advogada Alessandra afirma que a abordagem policial foi violenta desde o início. “Um dos policiais dizia: 'hoje é dia de matar ou morrer. E eu não estou aqui para morrer”, conta ela. Os agentes não estavam identificados.

A investigação dos integrantes do MST envolvidos na operação foi iniciada em março de 2016, por policiais da Delegacia de Cascavel (PR), após a invasão da Fazenda Dona Hilda, em Quedas do Iguaçu (PR), quando empregados da propriedade foram mantidos em cárcere privado por horas e sob a mira de armas de fogo, segundo a nota da Secretaria de Segurança Pública do Paraná. O dono da terra disse à polícia que após a invasão sumiram cerca de 1.300 cabeças de gado e que teve um prejuízo estimado em 5 milhões de reais no total de danos à propriedade.

Os bois eram transportados com documentação irregular e a investigação apontou que uma parte destes animais foi vendida pelos integrantes do MST. Os alvos desta ação policial também cobravam uma taxa em dinheiro (de até 35.000 reais) ou sacas de grão para autorizar que os donos fizessem a colheita da própria plantação.

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