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S MODA

Quatro hábitos para evitar que seu parceiro se torne seu colega de apartamento

Evitar que a paixão se desvaneça requer táticas, atitudes e disciplina para conseguir o “desejo sustentável”

Beijar, beijar muito, um truque infalível para não se acomodar. Cena do filme Jonathan.
Beijar, beijar muito, um truque infalível para não se acomodar. Cena do filme Jonathan. GC Images

Existe o amor e existe o desejo, e embora muitas vezes ambas as sensações venham no mesmo pacote; a segunda, turbulenta, é um parceiro inquieto e ambicioso que dissolve a empresa quando começa a ver que já não traz muitos benefícios. Apostar que ambos os personagens podem conviver juntos e felizes por longos períodos é arriscar muito, porque se pensarmos em alguns dos adjetivos que normalmente os acompanham veremos que seus gostos e preferências são opostos. O amor se dá muito bem com a segurança, a dependência, a confiança, a permanência; enquanto o desejo é mais inclinado à aventura, à incerteza, ao mistério, ao risco e até mesmo ao perigo. Este gosta de sair e ficar até tarde, ao contrário do amor, que é mais de ficar em casa e fazer tortas de maçã.

Nós queremos tudo, queremos ter o bolo e comê-lo, por isso já se começa a falar sobre um novo conceito, o “desejo sustentável”, que visa prolongar a vida de algo que é, geralmente, transitório. Esther Perel é uma psicoterapeuta belga, especialmente empenhada em estudar a compatibilidade entre a segurança e a liberdade nas relações humanas. Sua palestra no TED intitulada O Segredo do Desejo no Relacionamento de Longo Prazo, de fevereiro de 2013, é altamente recomendável e desde então teve cerca de 9 milhões de acessos na rede. “Estamos pedindo basicamente a uma só pessoa que nos dê tudo o que uma cidade inteira costumava oferecer antigamente aos seus habitantes: sentir-nos amados, sentimentos de identidade, continuidade, transcendência e mistério. Dê-me conforto e me leve ao limite, novidade e familiaridade. Dê-me previsibilidade e surpresa. Acreditamos que tudo isso nos pode ser dado por uma pessoa e que os brinquedos eróticos e a lingerie sexy nos salvarão do tédio”, diz Perel.

A questão é que nessa busca da utopia se encontraram casais que parecem ter reconciliado esses dois termos, que os anos não destruíram e nem tornaram crônica a falta de desejo. Como se estudam os centenários para descobrir quais hábitos de vida lhes proporcionaram uma longa existência, os especialistas começam a observar que depois de seis anos de convivência continuam chafurdando entre os lençóis. Estas são algumas das descobertas mais interessantes.

É preciso beijar como se não houvesse amanhã

The Normal Bar é um livro de Chrisanna Northrup, Pepper Schwartz e James Witte que procura aprofundar os hábitos que fazem com que os casais se separem ou fiquem juntos. É o resultado de um estudo com 100.000 participantes que chega a conclusões interessantes. Ou seja, as uniões que resistem são as que fazem amor, que é diferente de ter relações sexuais. Mas, ao contrário do que se poderia deduzir a partir dessa afirmação, a quantidade é tão importante quanto a qualidade dos encontros. O sexo mecânico não aparece quando é feito com frequência, mas quando não há interesse e o que se busca é cumprir com uma obrigação.

Mas o mais revelador dessa leitura é o capítulo em torno do beijo. “Beijar pode ser tão ou mais íntimo do que o sexo. É, definitivamente, um elemento-chave na vida sexual dos casais felizes e 85% dos entrevistados reconhecem que é uma das práticas de que mais gostam”. Soa familiar?, Não é o beijo um bom barômetro da saúde de uma boa relação?

O livro continua: “beijar é a forma como as pessoas estabelecem conexões íntimas. É um ingrediente essencial quando se faz amor e reforça a união. 86% dos casais que não desfrutam do sexo reconhecem que não se beijam. É claro que os baixos níveis de beijos indicam sempre problemas na relação”.

Um mais um é sempre um mais um

Nada mais distante da realidade do que essa ideia pretensiosa e imprecisa de que os amantes se fundem numa só pessoa porque, geralmente, os problemas chegam quando se perdeu a individualidade. De acordo com Perel, o desejo precisa de um ingrediente essencial: espaço. Quando essa terapeuta perguntou a milhares de pessoas ao redor do mundo quando se sentiram mais atraídos por seus parceiros, recebeu respostas como estas: “Quando o vejo no estúdio, quando está por sua conta, no seu elemento, quando faz algo que o apaixona. Quando está numa festa e outras pessoas se sentem atraídas por ele/ela. Basicamente, quando está radiante e se sente bem consigo mesmo”. O que é comum a todas essas reflexões, como aponta Esther em sua palestra, é que há certa distância. “O desejo procura o outro, alguém do outro lado que podemos visitar. O desejo precisa de uma ponte para ser atravessada. Em outras palavras, se o fogo precisa de ar, o desejo precisa de espaço (...). Desejo é quando vejo meu parceiro a uma distância confortável. Quando essa pessoa que já me é familiar se torna, por um momento, misteriosa novamente. Nesse espaço entre eu e o outro reside a pulsação erótica. Mas, como dizia Proust, “o mistério não é viajar para lugares novos, mas vê-los com novos olhos”.

A amabilidade é a base do relacionamento

Só depois do início dos anos 70, quando os divórcios dispararam, começaram a ser feitos estudos sobre a durabilidade dos casais. Os casais eram infelizes e sem sexo como sugeriu Tolstoi no início de Ana Karenina (“todas as famílias se parecem, mas as infelizes o são cada uma à sua maneira”) ou tinham traços comuns? O psicólogo John Gottman foi um dos que se interessou em estudar as peculiaridades dos casais de longa vida e criou, junto com o colega Robert Levenson, o The Love Lab em 1986. Seu método de trabalho consistia em perguntar aos cônjuges, que tinham seus sinais vitais monitorados, sobre os seus relacionamentos, enquanto eles eram acompanhados durante seis anos. Esses psicólogos classificaram os participantes em dois grupos: masters, os que continuavam felizes juntos depois desse período de tempo e os disasters, aqueles que tinham rompido ou continuavam juntos por várias razões, todas alheias à atração.

As conclusões a que chegaram com os estudos é que os disasters, mesmo quando não discutiam ou tratavam de assuntos espinhosos, manifestavam sintomas de estresse quando falavam sobre seu casamento ou estavam com sua cara-metade; algo que não acontecia com os masters. A teoria de Gottman é que o importante é o espírito da relação. Se este for a amabilidade, generosidade e apoio, as possibilidades de que a coisa dure são muitíssimo maiores do que se esse espírito for de crítica ou hostilidade. E a boa notícia é que “a boa sensação” é um músculo que pode ser exercitado.

Na Espanha, país em que é tão difícil o diálogo e a comunicação de opiniões contrárias, sem que resulte em conflito, é uma questão pendente. Vejo casais em que um dos parceiros deixa cair o açucareiro e esse simples fato provoca uma tempestade de reprovações ou, na melhor das hipóteses, comentários irônicos. Modelos de relacionamento cujo espírito é inspirado no ruído e na fúria, mais do que na amabilidade, palavra que não goza de muito boa reputação no nosso país. Existem também aqueles que identificam a paixão ou o desejo com mitos a banir como “o amante bandido” ou o “ canalha que fode bem”. Animaizinhos!

Sexo contra tudo e todos

Neste ano foi publicado no The Journal of Sexual Research um dos estudos mais elaborados sobre a satisfação nos casais de longa duração. Participaram do trabalho pesquisadores da Chapman University, em Orange (Califórnia); da California State University, em Los Angeles; da Sonora State University, em Rohnert Park (Califórnia); do Kinsey Institute e da Indiana University, em Bloomington (Indiana). Foram entrevistados e estudados 39.000 casais que estavam juntos há pelo menos três anos. As conclusões partem da ideia de que as uniões que têm uma vida sexual satisfatória são mais felizes, como se o sexo fosse o motor do qual dependem todos os outros fatores. No que eles não estão de acordo é sobre o que vem primeiro: se a frequência sexual ou a satisfação –o ovo ou a galinha?– pois os dois fatores estão inter-relacionados.

Quase todos os estudos concordam no que se refere à habilidade dos casais felizes para continuar com a vida sexual acima dos obstáculos de todo tipo (estresse, falta de tempo, filhos, problemas de saúde, deterioração física), cujo único objetivo é subjugar a luxúria. De acordo com Francisca Molero, sexóloga, ginecologista, diretora do Institut Clinic de Sexologia de Barcelona e diretora do Instituto Iberoamericano de Sexologia, “existem muitas ideias equivocadas em torno do que deve ser a vida sexual de um casal. Por exemplo, que o sexo sempre deve partir do desejo prévio –quantas vezes os encontros sem muita vontade acabam sendo os melhores? Planejar também é mal visto nesse campo, mas, se não se faz e se confia na espontaneidade, é provável que as oportunidades não surjam tão facilmente. Ao longo do tempo, a novidade se perde, mas se ganha em cumplicidade corporal, um poderoso afrodisíaco”. Segundo a especialista, o segredo de uma vida sexual longa é não ceder às dificuldades e se adaptar às circunstâncias. “Se alguém passa por um mau momento emocional ou uma doença que diminui a libido sempre pode satisfazer o outro ou se deixar fazer”, diz Molero. “É preciso saber envelhecer sexualmente e adaptar as práticas às nossas possibilidades, como fazemos em outras áreas da vida. Há uma idade crítica em que abandonar a vida sexual pode ser muito perigoso, a partir dos 50. Se você fraquejar, talvez a volta seja muito difícil”.

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