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Obama inaugura museu para “entender a dor” dos afro-americanos

Museu Nacional de História e Cultura Afro-americana reúne mais de 4.000 objetos

Obama seca uma lágrima diante de Michelle Obama e do ex-presidente George W. Bush.
Obama seca uma lágrima diante de Michelle Obama e do ex-presidente George W. Bush. EFE

Numa das salas principais do Museu Nacional de História e Cultura Afro-americana, em Washington, os visitantes podem contemplar um pedestal de pedra. Perto dele há uma placa que celebra os discursos feitos desse pódio por dois generais em 1830, mas que não contava quantas pisadas tinham desgastado sua superfície. Quase dois séculos depois, o último museu a se somar ao National Mall da capital termina de contar a história.

“Este pedestal nos fala sobre a história, sobre como a contamos e como deixamos de fora uma parte”, afirmou o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, durante o discurso de inauguração. “Dia após dia, durante anos, homens e mulheres eram arrancados de seus cônjuges, de seus filhos, algemados, amarrados, vendidos e comprados e leiloados como gado, sobre uma pedra gasta pela tragédia de milhares de pés descalços.”

Obama, visivelmente emocionado em alguns momentos de sua intervenção, destacou a capacidade dessa instituição, sonhada por veteranos da Guerra Civil há 100 anos e que neste sábado “deixou de ser um sonho”. Minutos antes, o congressista John Lewis, um dos líderes do movimento pelos direitos civis que nos anos 50 e 60 reivindicavam a igualdade dos afro-americanos, afirmou, olhando para o céu: “Esperei este dia por toda a minha vida”.

O relato da história e cultura afro-americana era um dos poucos que faltavam ser contados no National Mall, que em Washington reúne os museus mais importantes da nação. Financiado com dinheiro público e privado em partes iguais, a instituição dedicada à dor, à humilhação e aos triunfos de milhões de norte-americanos de origem afro-americana acaba de conseguir seu lugar no “jardim da América”, a apenas três quarteirões da Casa Branca. “Onde sempre deveria ter estado”, segundo o ex-presidente George W. Bush, que em 2003 assinou a lei para começar a construção do museu.

E foi inaugurado pelo primeiro presidente afro-americano do país, que repetiu o “Eu também sou América” de Langston Hughes para reafirmar que todos os norte-americanos levam em suas vidas um pedaço da trajetória dos afro-americanos da escravidão à igualdade. Poucas horas antes, durante uma recepção na residência presidencial, Obama mencionou o fato do local ter sido construído por escravos, mas também que a coincidência entre seu mandato e a abertura do museu é “fascinante”.

A encarregada de fazer soar o sino de uma das primeiras igrejas batistas do país, construída na Virgínia em 1776, foi Ruth, de 99 anos, descendente de um escravo do Mississípi que se tornou médico depois de conseguir a liberdade.
A encarregada de fazer soar o sino de uma das primeiras igrejas batistas do país, construída na Virgínia em 1776, foi Ruth, de 99 anos, descendente de um escravo do Mississípi que se tornou médico depois de conseguir a liberdade. AP

Os principais representantes da comunidade afro-americana do país, de líderes políticos e da cultura até famílias anônimas estiveram ao seu lado no sábado em uma cerimônia que abriu as portas de um museu imprescindível, mas que também começava a fechar um ciclo. Ocorre em Washington um festival de três dias que lembra o que deu as boas-vindas ao presidente há quase oito anos.

“Este museu nos lembra que a discriminação racial não é uma prática do passado”, disse Obama. “Conta por que não podemos nos surpreender por todas as feridas não estarem curadas, que todos os problemas não tenham sido resolvidos. Conhecer a totalidade de nossa história nos diz sobre como as mudanças foram grandes, até mesmo ao longo de minha vida. Só espero que nos inspirem a avançar mais”.

O presidente se declarou honrado de ter parado durante esses oito anos “na estação mais importante de nosso caminho rumo à liberdade”, mas que apesar dessa conquista, a história guardada pelo museu em seus mais de 4.000 expositores, “talvez agora deva mais do que nunca ser contada”. O centro, afirmou o mandatário democrata, “servirá para ajudar os visitantes brancos a entender a dor e a raiva dos manifestantes em Ferguson e Charlotte”, em referência aos protestos pela morte de afro-americanos desarmados pelos tiros da polícia. “E também para que os afro-americanos saibam que mesmo sofrendo com as tradições do passado, existem policiais que estão tentando compreendê-los e tomar a atitude correta”.

Obama fez a ligação entre as tensões raciais atuais e o leque de reivindicações que durante décadas pediram a igualdade dos afro-americanos em um país “fundado no ideal da liberdade, mas que manteve milhões de pessoas presas”, nas palavras de George W. Bush. Treze anos após aprovar a criação do museu, o ex-presidente comemorou a abertura de uma instituição que demonstra “a capacidade de mudança” dos EUA e que “uma grande nação não pode esconder sua história, mas sim que enfrenta seus erros e os corrige”.

A inauguração do museu se encerrou com um repicar de sinos que ecoou em toda a cidade e em igrejas de todo o país, como já aconteceu para comemorar a Emancipação com “o som e o hino da liberdade americana”, nas palavras de Obama. O presidente pediu aos norte-americanos que entrem no museu e conheçam “nossos sofrimentos, nossos sucessos e nossas conquistas” porque “conhecer a verdade fará com que saiam sendo pessoas melhores”.

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