Obama inaugura museu para “entender a dor” dos afro-americanos

Museu Nacional de História e Cultura Afro-americana reúne mais de 4.000 objetos

Obama seca uma lágrima diante de Michelle Obama e do ex-presidente George W. Bush.
Obama seca uma lágrima diante de Michelle Obama e do ex-presidente George W. Bush.JIM LO SCALZO / EFE

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“Este pedestal nos fala sobre a história, sobre como a contamos e como deixamos de fora uma parte”, afirmou o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, durante o discurso de inauguração. “Dia após dia, durante anos, homens e mulheres eram arrancados de seus cônjuges, de seus filhos, algemados, amarrados, vendidos e comprados e leiloados como gado, sobre uma pedra gasta pela tragédia de milhares de pés descalços.”

Obama, visivelmente emocionado em alguns momentos de sua intervenção, destacou a capacidade dessa instituição, sonhada por veteranos da Guerra Civil há 100 anos e que neste sábado “deixou de ser um sonho”. Minutos antes, o congressista John Lewis, um dos líderes do movimento pelos direitos civis que nos anos 50 e 60 reivindicavam a igualdade dos afro-americanos, afirmou, olhando para o céu: “Esperei este dia por toda a minha vida”.

O relato da história e cultura afro-americana era um dos poucos que faltavam ser contados no National Mall, que em Washington reúne os museus mais importantes da nação. Financiado com dinheiro público e privado em partes iguais, a instituição dedicada à dor, à humilhação e aos triunfos de milhões de norte-americanos de origem afro-americana acaba de conseguir seu lugar no “jardim da América”, a apenas três quarteirões da Casa Branca. “Onde sempre deveria ter estado”, segundo o ex-presidente George W. Bush, que em 2003 assinou a lei para começar a construção do museu.

E foi inaugurado pelo primeiro presidente afro-americano do país, que repetiu o “Eu também sou América” de Langston Hughes para reafirmar que todos os norte-americanos levam em suas vidas um pedaço da trajetória dos afro-americanos da escravidão à igualdade. Poucas horas antes, durante uma recepção na residência presidencial, Obama mencionou o fato do local ter sido construído por escravos, mas também que a coincidência entre seu mandato e a abertura do museu é “fascinante”.

Os principais representantes da comunidade afro-americana do país, de líderes políticos e da cultura até famílias anônimas estiveram ao seu lado no sábado em uma cerimônia que abriu as portas de um museu imprescindível, mas que também começava a fechar um ciclo. Ocorre em Washington um festival de três dias que lembra o que deu as boas-vindas ao presidente há quase oito anos.

“Este museu nos lembra que a discriminação racial não é uma prática do passado”, disse Obama. “Conta por que não podemos nos surpreender por todas as feridas não estarem curadas, que todos os problemas não tenham sido resolvidos. Conhecer a totalidade de nossa história nos diz sobre como as mudanças foram grandes, até mesmo ao longo de minha vida. Só espero que nos inspirem a avançar mais”.

O presidente se declarou honrado de ter parado durante esses oito anos “na estação mais importante de nosso caminho rumo à liberdade”, mas que apesar dessa conquista, a história guardada pelo museu em seus mais de 4.000 expositores, “talvez agora deva mais do que nunca ser contada”. O centro, afirmou o mandatário democrata, “servirá para ajudar os visitantes brancos a entender a dor e a raiva dos manifestantes em Ferguson e Charlotte”, em referência aos protestos pela morte de afro-americanos desarmados pelos tiros da polícia. “E também para que os afro-americanos saibam que mesmo sofrendo com as tradições do passado, existem policiais que estão tentando compreendê-los e tomar a atitude correta”.

Obama fez a ligação entre as tensões raciais atuais e o leque de reivindicações que durante décadas pediram a igualdade dos afro-americanos em um país “fundado no ideal da liberdade, mas que manteve milhões de pessoas presas”, nas palavras de George W. Bush. Treze anos após aprovar a criação do museu, o ex-presidente comemorou a abertura de uma instituição que demonstra “a capacidade de mudança” dos EUA e que “uma grande nação não pode esconder sua história, mas sim que enfrenta seus erros e os corrige”.

A inauguração do museu se encerrou com um repicar de sinos que ecoou em toda a cidade e em igrejas de todo o país, como já aconteceu para comemorar a Emancipação com “o som e o hino da liberdade americana”, nas palavras de Obama. O presidente pediu aos norte-americanos que entrem no museu e conheçam “nossos sofrimentos, nossos sucessos e nossas conquistas” porque “conhecer a verdade fará com que saiam sendo pessoas melhores”.

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