James é covarde: sim ou não?

James tem uma semana para fazer um gesto de maior coragem por seu país e declarar "sim" pela paz com as FARC

James Rodríguez, durante um treino do Madri.
James Rodríguez, durante um treino do Madri.Juan Carlos Hidalgo (EFE)

“Há uma maré nos assuntos dos homens que, quando se a pega subindo, leva à fortuna”. Shakespeare

Em qualquer ranking das cem pessoas mais conhecidas do mundo, a profissão com maior presença seria a de jogador de futebol. De longe.

Alguns concorrentes até poderiam existir, como Obama, os Clinton, Putin, o Papa, a rainha da Inglaterra e alguns atores de Hollywood (Brad e Angelina, por exemplo, me vem à mente). Mas ninguém disputaria os dois primeiros lugares com Lionel Messi e Cristiano Ronaldo. E pelo menos a metade dos outros cem seria ocupada por jogadores ou técnicos de futebol, a começar por celebridades que estariam no Top Dez, como Neymar, Mourinho e Guardiola. Na lista também entraria o meio-campista do Real Madrid James Rodríguez, que é, por sua vez, a figura mais conhecida e admirada em seu país natal, a Colômbia.

Depois de horas e horas a vê-las em nossas telas de televisão e lendo sobre elas nos jornais e revistas, sabemos muita coisa sobre essas celebridades do futebol, suas qualidades e deficiências em campo, sua capacidade de articulação verbal, seu senso de humor, suas disputas no vestiário e sua vida privada. O curioso é que, quase sem exceção, não conhecemos nada sobre suas opiniões políticas. Messi e Cristiano são mais de esquerda ou de direita? Não temos a menor ideia.

Ele tem uma semana para demonstrar se lhe interessa mais o dinheiro ou o bem comum colombiano

Os jogadores de futebol silenciaram em alguns momentos por mera ignorância, em outros por falta de convicção, em todos por dinheiro. Se viessem a ofender um determinado setor da população por se declararem a favor de uma certa posição política, colocariam em risco as vendas de camisetas da Nike ou da Adidas em algum setor da população mundial, poriam em risco a sua credibilidade na hora de fazer publicidade para um automóvel, um refrigerante, um perfume ou para o Kentucky Fried Chicken.

Dá para entender.

Outra coisa é um jogador silenciar quando o que está em jogo não é o resultado de uma eleição geral, mas sim o destino do país onde nasceu. É o caso, hoje, de James Rodríguez. Em 2 de outubro, será realizado aqui na Colômbia o plebiscito para decidir se o acordo com as guerrilhas das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) para pôr um fim a meio século de guerra será aplicado ou não. Se o “não” for vitorioso, quatro anos de negociações irão por água abaixo. E voltarão os assassinatos e sequestros, o terror e os confrontos militares.

Por incrível que pareça, o resultado não é dado como certo. Há muitas pessoas, lideradas pelo populista ex-presidente Álvaro Uribe, que preferem se prender e afundar no lodo dos rancores do passado, como no eterno conflito entre Israel e Palestina, a agarrar a oportunidade única que se apresenta para um futuro de paz. Uribe, uma versão mais cerebral de Donald Trump, mas tão vaidosa e embusteira como ele, tem arrastado multidões. James também.

Houve tentativas por parte da campanha pelo “sim” de recrutar James para a causa. Até o momento, ele não se posicionou. Em contrapartida, o ciclista Nairo Quintana, vencedor da última Volta da Espanha, assumiu. Nairo, que vem de uma família rural e mais humilde do que a de James, é o outro grande herói do esporte na Colômbia. Hesitou por algum tempo, mas finalmente, neste mês, se declarou a favor dos acordos.

Não há dúvida de que, se o astro do Real Madrid seguir o exemplo de Nairo, o resultado do plebiscito deixará de ser uma interrogação. O “sim” arrasaria no plebiscito. James tem ainda uma semana para fazer um gesto de maior coragem por seu país do que qualquer outro troféu que possa conquistar, inclusive a Copa do Mundo; ele tem uma semana para mostrar se o seu interesse pelo dinheiro é maior do que o bem comum dos colombianos, se é um covarde ou um valente.

O cenário ideal seria o seguinte: James faz um gol para o Real Madrid entre hoje e a noite do domingo 2 de outubro, tira a camiseta do clube e mostra para o mundo inteiro uma outra, embaixo, com as palavras: “Sim à Paz”. Seria, de longe, o gol mais importante da sua vida. Seria a sua chance de entrar para a história não apenas como um grande futebolista, mas também como um grande homem.