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Os últimos dias das FARC na guerra da Colômbia

Guerrilheiros vivem placidamente após décadas de terror, alheios ao mundo

O EL PAÍS visitou um acampamento após a assinatura do cessar-fogo definitivo

 FOTO: CAMILO ROZO
Selvas del sur de Colombia

Nas montanhas da Colômbia, o final da guerra civil é comemorado ao ritmo de rancheras, vallenatos e muita cumbia. O silêncio dos fuzis, das bombas e do terror trouxe de volta à selva o som dos Los Rebeldes del Sur, banda composta por guerrilheiros das FARC. No primeiro fim de semana de julho, sobre um palco de madeira em algum lugar da região de Putumayo, eles celebravam com um show o cessar-fogo bilateral definitivo entre as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia e o Governo do país. Durante anos, o som teria funcionado como um chamariz para um bombardeio do Exército. Agora, serve para levar mais ou menos meia centena de guerrilheiros a caírem na festa. Livres de uma vida de chumbo, alheios ao abismo de um futuro incerto.

No último ano, a guerrilha mais antiga da América Latina, alçada em armas desde 1964, se abriu ao mundo. Desde que cessaram os bombardeios, em agosto de 2015, as FARC se empenham em apresentar um lado amável, após mais de 50 anos de um conflito que deixou um saldo retumbante: oito milhões de vítimas, entre mortos, feridos, refugiados internos e desaparecidos… Um macabro rastro que Governo e insurgência esperam deixar para trás nas próximas semanas com a assinatura de um acordo de paz definitivo.

Depois de quase quatro anos de negociações, e à medida que o desenlace ia ficando mais nítido, as FARC se tornaram mais acessíveis, não só em Havana, onde os negociadores se acostumaram a tratar com a imprensa, mas também no terreno, sempre preservando os parâmetros de segurança e sendo muito sucintos nas orientações. Apenas um e-mail indica, com poucos dias de antecedência, o ponto da Colômbia ao qual comparecer. Neste caso, o encontro é em Mecaya, um distrito na região de Putumayo, aonde se chega após quatro horas de lancha a partir da cidade mais próxima.

Já em Mecaya, ninguém estranha a presença dos desconhecidos que se instalam num salão de sinuca. Pressupõe-se que, se estão ali, é porque têm a autorização de quem controla o lugar. No território das FARC, todos olham, mas ninguém pergunta. Nem sequer a proprietária do local, que cumprimenta alegremente e oferece café. Após algumas horas, e ao ficar a par da situação, dá uma palmadinha no ombro do repórter. “Eles já vêm. Os camaradas sempre vêm.”

Após bastante tempo, um homem entra no local, estende a mão sem dizer palavra e então anuncia: “Sou eu quem vai levar vocês”. Carregando vários sacos de mantimentos, o bote de Tulio, o guerrilheiro à paisana que faz as vezes de anfitrião, sobe o rio Caquetá e entra por um labirinto impossível de memorizar. O único som que se ouve além do motor é o das aves e dos macacos que saltam entre a vegetação selvagem, cada vez mais frondosa. Apenas algumas casas de camponeses aparecem durante uma hora de percurso até uma clareira onde dois guerrilheiros aguardam, estes já vestidos de verde oliva, mas desarmados. Falta ainda uma boa caminhada, por uma trilha enlameada por causa dos recentes dias chuvosos, até chegar ao acampamento central do Bloco Sul das FARC, na área de operações da Frente 48. Ou, simplificando: um lugar da selva colombiana aonde não há outra forma de chegar se não pelas mãos dos guerrilheiros – ou com um ataque militar aéreo. Não muito longe desta zona foi bombardeado, em 2008, o acampamento de Raúl Reyes, então o número 2 da guerrilha, num dos maiores golpes às FARC na última década.

Os comandantes Martín Corena e Robledo – seus nomes de guerra – aguardam na entrada do acampamento, protegido por imensas árvores que, de longe, disfarçam o que há no interior. Corena, de 63 anos e 38 na guerrilha, é o responsável pelo Bloco Sul, enquanto Joaquín Gómez, membro do secretariado das FARC, permanece em Havana. Com um chapéu de caubói enfiado na cabeça e vestindo a camiseta azul da seleção brasileira, parcialmente encoberta pelo colete do qual desponta uma pistola, Corena marca o passo até o interior do acampamento. O que mais surpreende à primeira vista é que o lugar é grande e sofisticado, e que dezenas de animais correm por ali.

– Vivemos mais aliviados. Antes, dormíamos aqui uma noite e no dia seguinte em outro lugar.

Antes, na linguagem de Corena, não significa muito tempo atrás. Um mês depois de as FARC iniciarem um cessar-fogo unilateral, em julho do ano passado, o Governo suspendeu os bombardeios contra os acampamentos e reduziu a pressão sobre o terreno. Com o tempo, a trégua se instalou verdadeiramente nas vidas dos guerrilheiros. Os mais de 50 combatentes que convivem neste acampamento não saem daqui há dois meses. Nunca tinham permanecido tanto tempo no mesmo lugar. “Deveríamos conservá-lo tal qual está quando formos embora”, repetirá várias vezes Yudi, de 34 anos, quase 19 deles nas FARC, vestida com uma camiseta rosa-choque. Durante anos, a discrição no vestir foi regra, para evitar chamar a atenção dos aviões militares. Agora, as roupas são os primeiros sintomas de mudança. As cores chamativas abundam entre homens e mulheres, assim como as camisas de times: Manchester City, Alemanha, Barcelona e, como não, a onipresente 10 do Real Madrid, cujo dono atual é o colombiano James. Até na selva.

Todos os cambuches, o espaço onde dormem, contam com toldo contra a chuva, uma cama erguida com grossas tábuas e alguns paus onde penduram o colete, o fuzil e o embornal. Alguns inclusive improvisaram prateleiras onde deixam sabonetes, perfumes e potes variados. Mais de cem galinhas e perus zanzam pelo acampamento, junto com quatro cães, macacos e papagaios que riem soltos nas árvores.

A mercearia fica praticamente vazia durante algumas horas, quando frutas e hortaliças são levadas a acampamentos vizinhos. Inundações, contam os guerrilheiros, destruíram os banheiros, por isso várias latrinas foram improvisadas perto de uma das saídas do acampamento. A água não afetou nenhuma das duas cozinhas, ambas suficientemente equipadas com fornos pequenos, vasilhas de diversos tamanhos e uma geladeira. Exceto no dia do show, onde todos se refestelaram de leitão – um dos 20 porcos criados ali –, os guerrilheiros pouco saem do arroz com feijão servido em canecas de metal. Para os comandantes e convidados, o cardápio é mais amplo: copiosos cafés da manhã de caldo com carne ou peixe, almoços contundentes e jantares nada frugais, sempre servidos em pratos. “É por uma questão de saúde e também porque conquistamos isso”, argumenta Corena. Também há classes nesta guerrilha de origem comunista. Se a maioria toma banho de roupa íntima no rio, os comandantes se asseiam na frente dos seus cambuches graças a um enorme barril, do qual vão tirando água com um recipiente.

Uma tábua marca o centro do acampamento, onde todas as manhãs os combatentes entram em formação e recebem as ordens do comandante. A jornada começa muito cedo, às 4h, embora o sol só comece a brilhar quase às 6h, para se pôr 12 horas depois. A partir das 19h todos portam uma lanterna, algo impensável antigamente. Alguns aproveitam o final do dia para ler um livro, outros veem filmes aglomerados em volta de um computador, ou vão para o barracão que serve como sala de aula, onde a televisão fica ligada até tarde. Às vésperas do pós-conflito, as FARC também se dão ao luxo de ter TV paga. Durante a semana, veem notícias; nos finais de semana, filmes. “Fatura vencida”, avisa uma etiqueta. “Algum camarada paga”, dizem os guerrilheiros, sem dar maiores explicações. A greve dos caminhoneiros e os últimos crimes do ELN, outra grande guerrilha colombiana, marcam a atualidade nos últimos dias. Ninguém parece prestar muita atenção, nem comenta nada. É um ritual para adormecer.

Os afazeres também mudaram nos últimos dias. Já não são mais preparados ataques ou outras operações militares. Os esforços se concentram em começar a capacitar os guerrilheiros para a vida sem armas, para quando, dentro de alguns meses, tiverem de se desfazer dos fuzis M-16, R-15 e AK-47 que foram parte deles e cuja onipresente presença, em meio a confortos mais típicos de um acampamento de verão, devolve o local à realidade guerrilheira. Não há sinal, isso sim, de explosivos e de armamento pesado. “Está guardado para a verificação”, afirma Martín Corena.

Faz só uma semana que o cessar-fogo bilateral e definitivo foi anunciado, e Yudi volta a ler o comunicado emitido em Havana. Um palavrório que nem todos entendem claramente. Andrea Rojas, 53 anos e 32 de guerrilha, pede a palavra e cobra mais pedagogia dos seus companheiros. Pouco depois, a sós, completa: “Confiamos nos camaradas do secretariado, mas acho que precisamos de mais informação, que nos expliquem melhor esse troço”. É uma sensação generalizada. A massa de guerrilheiros está ciente de que se concentrará e deixará as armas – a palavra entrega é tabu –, mas ninguém tem a mínima ideia do que virá em seguida.

Diferentemente do que aconteceu na Frente 1, e talvez em outras, aqui as deserções não são uma possibilidade. A rigidez da estrutura militar se instalou até as entranhas. Qualquer sonho ou desejo para o futuro está sujeito “ao que a organização disser”, seja por convicção, por medo ou por insegurança. Continuar a estudar é o maior anseio. “Tudo o que sabemos, muito ou pouco, aprendemos aqui”, conclui Andrea.

Quase todos entraram na guerrilha ainda adolescentes e apenas com estudos muito básicos. “Há guerrilheiros que nunca atenderam um celular nem ligaram um computador”, admite Ramiro Durán, um dos comandantes do Bloco Sul. Ele, sim, conhece um mundo que o resto – como aliás quase toda esta Colômbia tão desigual – nem imagina. Prestes a completar 36 anos, decidiu largar o curso de Direito em Bogotá quando tinha 20 e era líder estudantil. Com seu discurso elaborado, transmite a sensação de que o desembarque das FARC no dia a dia da política tradicional será liderado por gente como ele, até agora anônima. Não se sabe, entretanto, quantos perfis como esse existem entre os 8.000 guerrilheiros da FARC – e outros tantos milicianos – que as autoridades estimam existir. “Precisamos conseguir uma abertura democrática na Colômbia, e isso não fazemos com dogmatismo nem com sectarismo, que infelizmente existem na esquerda”, arrisca, quando questionado sobre o futuro papel político das FARC.

O desafio é enorme. Apesar de serem a única institucionalidade reconhecida pelos camponeses em algumas zonas, as FARC são alvo de uma esmagadora rejeição nos núcleos urbanos. As pesquisas apontam que cerca de 90% da população tem uma imagem desfavorável da guerrilha. Mas a autocrítica é limitada. Os assassinatos, os sequestros, o recrutamento… Para eles, tudo reflete uma campanha governamental e midiática de criminalização ou, na pior das hipóteses, a erros individuais em meio à guerra, segundo Ramiro Durán.

– Precisamos nos mostrar como seres humanos, pois nos transformaram em monstros.

– E como pretendem fazer isso?

– Precisamos inovar, ser criativos, menos esquemáticos, mais abertos a escutar o outro.

Não falta muito para essa nova vida começar. O processo de paz se tornou irreversível. Martín Corena passa o dia coordenando como será a transferência dos guerrilheiros para as áreas de concentração. Primeiro, um grupo se deslocará para inspecionar, e depois outro para construir os acampamentos. Nem todos irão. Um dos acordos alcançados em Havana prevê que as FARC retirarão os menores de 15 anos de suas fileiras e iniciarão um protocolo para garantir que o mesmo ocorra com quem ainda não completou 18. É o caso de Sofía. “Minha família não me queria, e meu pai era guerrilheiro, então fui procurá-lo, mas o mataram numa emboscada antes que eu o achasse”, conta ela, referindo-se a algo que aconteceu há quatro anos, quando ela tinha 12. A soma não bate com os 19 anos que ela diz ter e que está longe de aparentar. Martín Corena confirma: “Ela não está nada a fim de ir parar no Bem-Estar Familiar”. A média de idade no acampamento central do Bloco Sul é de 25 anos. Praticamente todos os guerrilheiros foram recrutados quando eram menores. Nenhum esconde esse fato. “Costuma ser assim”, admite María Elena, de 28 anos, 15 deles nas FARC, enquanto repassa em seu cambuche algumas anotações sobre imagem e fotografia. Há décadas órgãos internacionais, como o Unicef, denunciam o recrutamento de menores por parte dos grupos armados na Colômbia.

Outro dos desafios será contribuir para a erradicação de cultivos ilícitos. As FARC negam todas as acusações e denúncias de envolvimento com o narcotráfico. Só admitem que cobraram um imposto dos cartéis que operam em seu território, para poupar os camponeses que cultivam a folha de coca e, dizem eles, são protegidos por serem o elo mais frágil. “O narcotráfico nos causa muitos males, corrompe todo mundo e explora o camponês. Ele é imposto sobre nós para que possamos ser mortos por narcotraficantes”, argumenta Robledo.

O Putumayo, região fronteiriça com o Equador e Peru, é historicamente um corredor da coca. É impossível ignorar os cultivos da planta que existem ao redor deste acampamento. Os chefes guerrilheiros insistem em que pertencem aos camponeses da região, e que os guerrilheiros propriamente ditos só se dedicam ao cultivo de mandioca, banana e outras roças de subsistência, que são também bastante visíveis e às quais eles dedicam boa parte do dia. O cuidado em tentar não expor qualquer relação com a coca é extremo. O palco onde atuam Los Rebeldes del Sur está encravado numa plantação. Martín Corena pede que não sejam feitas fotos dos arbustos de coca, “para evitar confusões injustas”. Fala isso serenamente, ao pé ouvido, com a voz quase afogada pelo som da cumbia que anima os guerrilheiros. São os últimos acordes da guerra na Colômbia, os incertos primeiros passos da paz. ao fogo bilateral, levam dois meses. Nunca antes permanecia tanto tempo em um mesmo local.

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