Eike Batista será investigado por suspeita de pagamento de propinas

Empresário será um dos alvos da Lava Jato. Depoimento prestado por ele motivou prisão de Guido Mantega

A fase da Lava Jato desencadeada nesta quinta-feira teve como ponto de partida um depoimento prestado pelo executivo “por livre e espontânea vontade”. Em data desconhecida, ele procurou o Ministério Público Federal, e contou ter se reunido em 2012 com o então ministro da Fazenda do Governo de Dilma Rousseff, Guido Mantega. No encontro, o homem forte da economia petista – que chegou a ser detido durante a manhã, mas teve o pedido de prisão revogado - solicitou o pagamento de 5 milhões de dólares para quitar uma dívida de campanha possivelmente relativa à campanha da presidenta em 2010. O dinheiro teria sido repassado em 2013 por uma das empresas de Batista com sede no exterior para a conta offshore Shellbill, de propriedade do casal de marqueteiros João Santana e Mônica Moura.

Em contrapartida, o consórcio Integra, do qual fazem parte a OSX (de Batista) e a Mendes Júnior receberam de forma fraudulenta contratos de construção plataformas da Petrobras - a P-67 e P-70, que serão usadas na exploração do pré-sal. "Eles ganharam concorrência na Petrobras sem competência para essas operações”, afirmou o procurador Carlos Fernando dos Santos Lima em entrevista coletiva após a operação. De acordo com ele, Batista não foi preso ou conduzido para depor uma vez que já havia testemunhado, mas o empresário será investigado.

Além dessa vertente das investigações, a força-tarefa também apontou outros contratos firmados pela OSX que beneficiariam empresas ligadas ao ex-ministro José Dirceu e ao ex-deputado petista André Vargas, ambos condenados por seu envolvimento no esquema de corrupção. Os procuradores não souberam precisar os valores de propinas pagos nestes negócios. Por fim, a força-tarefa afirmou que empresas de Batista estariam envolvidas no pagamento de 7 milhões de reais ao suposto operador do PMDB no esquema, João Henriques.

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O ex-diretor da OSX, Luiz Eduardo Carneiro também foi detido nesta quinta-feira. De acordo com o delator da Lava Jato Eduardo Vaz da Costa Musa, ex-gerente da Petrobras, Carneiro era um dos contatos do esquema de propinas.

Ascensão e queda 

Além do envolvimento nas investigações da Operação Lava Jato, Eike Batista é hoje réu em duas ações penais, acusado de ter cometido crimes de manipulação de mercado e uso de informação privilegiada. Há quatro anos, era difícil imaginar que o empresário mais rico do país, veria seu império de empresas de diversos setores -como energia, indústria naval, mineração,turismo e gastronomia-, desmoronar tão rápido.

Com um estilo ousado de fazer negócios e considerado um visionário, o empresário nascido em Governador Valadares, em Minas Gerais, faturou seus primeiros milhões no setor da mineração, extraindo ouro no Norte do país nos anos 90. Em 2006, Eike lançou na Bolsa de Valores de São Paulo a sua primeira empresa de capital aberto: a mineradora MMX. Dando início as empresas do grupo X.

O empresário, filho de um ex-ministro de Minas e Energia e ex-presidente da Vale durante o governo militar, ganhou projeção global, no entanto, quando resolveu entrar no setor do petróleo. Em 2008, surfando na euforia mundial com o crescimento da economia brasileira, Eike criou a OGX Petróleo, que o empresário sonhava em transformar em uma espécie de "mini-Petrobras". A petroleira, que contava com executivos vindos da estatal brasileira, estreou no mesmo ano na Bolsa de Valores e teve a maior oferta inicial realizada no país até então. A empresa captou 6,7 bilhões de reais.

Em seus primeiros anos, a companhia atraiu diversos investidores que acreditam na promissora petrolífera e nas promessas do seu controlador, um vendedor nato. A expectativa era de que a petroleira produzisse 1,05 bilhão de barris de petróleo até 2019. A euforia era tamanha que nessa época o mercado sinalizava total confiança de que Eike tiraria seus projetos do papel.

Com o tempo, no entanto, o abismo entre o sonho agressivo de Eike e o resultado real e pífio da OGX começou a gerar uma crise de desconfiança que se estendeu para as outras companhias do grupo EBX, que reúne 16 empresas, que vão de mineração a logística.

Em junho de 2012, a OGX deu os primeiros sinais de que as coisas não iam tão gbem assim quando divulgou um breve comunicado, que anunciava um corte na projeção de produção num dos campos explorados pelo grupo. No dia seguinte, as ações da OGX abriram o pregão com queda de 28%. Começava o início da crise de confiança que levaria à queda do império de negócios de Eike e corroeria sua fortuna. A contaminação fez com que Eike despencasse de 7º homem mais rico do mundo (pelo ranking da Forbes) para 46º, com uma fortuna avaliada em 13 bilhões de dólares.

Tentando contornar as perdas e elaborar um plano para salvar a empresa, Eike contratou como assessor, em 2013, o BTG Pactual, do banqueiro André Esteves, que chegou a ser preso no âmbito das investigações da Lava Jato no ano passado. A partir daí, foram impulsionadas as vendas de ativos do grupo para quitar dívidas e prosseguir com projetos.

Em 2014, a trajetória do empresário afundou ainda mais. Eike começou a ser julgado por crimes contra o sistema financeiro e foi processado por lavagem de dinheiro. Ele é acusado de manipulação de vender ações sem informar a situação negativa das empresas.

No mesmo ano, a Justiça do Rio determinou o bloqueio dos valores depositados nas contas de Eike até o limite de 1,5 bilhão de reais. O montante seria equivalente ao dano supostamente causado por ele em crimes contra o mercado financeiro. Foram apreendidos até um Lamborghini e um piano que decoravam a casa do empresário.

Em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo na época, o empresário afirmou que voltar à classe média foi um "baque gigantesco". No mesmo período, a mineradora MMX se tornou a terceira empresa do grupo "X" a entrar com um pedido de recuperação judicial, depois da OGPar e da OSX. Em outubro de 2014, Eike entregou o controle da OGPar (ex-OGX) aos credores e ficou como acionista minoritário.