Operação Lava Jato

Guido Mantega é preso em nova fase da Lava Jato

Ex-ministro da Fazenda foi preso quando acompanhava a cirurgia da esposa, em hospital de São Paulo

Guido Mantega, ex-ministro da Fazenda, em imagem de arquivo, de agosto de 2014.
Guido Mantega, ex-ministro da Fazenda, em imagem de arquivo, de agosto de 2014. José Cruz/ Agência Brasil

Guido Mantega, ex-ministro da Fazenda de dos Governos de Lula e Dilma, foi preso temporariamente pela Polícia Federal na manhã desta quinta-feira, em São Paulo, na 34ª fase da Operação Lava Jato, intitulada Arquivo X. Ele foi detido no hospital Albert Einstein, na região do Morumbi (zona sul), quando acompanhava a esposa no momento em que ela passava por um procedimento cirúrgico para o tratamento de um câncer. De acordo com a força-tarefa, ele é responsável por intermediar o repasse de propinas pagas por empresas pela obtenção de contratos com Petrobras e redirecionar estes recursos para a quitação de dívidas de campanha de candidatos do PT. O casal de marqueteiros João Santana e Mônica Moura seriam alguns dos beneficiados pelo esquema.

De acordo com os investigadores, Mantega, que era também do conselho administrativo da Petrobras, se reuniu com o empresário Eike Batista em 2012 e solicitou o pagamento de 5 milhões de dólares para quitar uma dívida do PT, possivelmente relativa à campanha de Dilma Rousseff em 2010. O dinheiro teria sido repassado em 2013 pelo empresário para uma conta offshore chamada Shellbill, de propriedade do casal Santana.

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Em contrapartida, o consórcio Integra, do qual fazem parte a OSX (de Batista) e a Mendes Júnior, receberam de forma fraudulenta contratos de construção plataformas da Petrobras - a P-67 e P-70, que serão usadas na exploração do pré-sal. "Eles ganharam concorrência na Petrobras sem competência para essas operações”, afirmou o procurador Carlos Fernando dos Santos Lima em entrevista coletiva após a operação. Os fatos que embasaram essa nova fase da Lava Jato teriam sido contados à força-tarefa espontaneamente por Batista, que se apresentou como testemunha voluntariamente. “Temos evidências de que Eike Batista sabia e participou do pagamento de propinas", afirmou Lima.

Inicialmente, agentes da força-tarefa foram até a casa de Mantega, em Pinheiros, na zona oeste da capital paulista, no início da manhã, mas como ele não estava (estava apenas um dos filhos do ex-ministro), os policiais decidiram seguir até o hospital, onde ele foi detido. “Gostaria de dizer que infelizmente situações como essas são tristes, mas não há como não cumprir uma ordem judicial”, afirmou o procurador Lima. Segundo ele, o pedido de prisão de Mantega ocorreu em julho de 2016, mas foi acatado por Sérgio Moro apenas em agosto. A reportagem não conseguiu entrar em contato com o advogado de Mantega, José Roberto Batochio. A prisão de Mantega tem duração de cinco dias, podendo ser prorrogada por igual período (ou transformada em prisão preventiva, caso a Justiça julgue necessário).

Nesta etapa da Lava Jato, foram cumpridos 8 mandados de prisão temporária, 8 mandados de condução coercitiva e 32 mandados de busca e apreensão em Minas Gerais, Brasília, Rio de Janeiro, Bahia, Rio Grande do Sul, além de São Paulo. Executivos e empresários da Mendes Júnior e da OSX estão entre os detidos.

De acordo com informações da Polícia Federal, o ex-ministro foi levado do hospital para sua casa para acompanhar a ação de busca e apreensão dos policiais federais em sua residência e para buscar alguns pertences antes de ser levado à carceragem da Polícia Federal. Na sequência, foi levado para a sede da Superintendência da PF em São Paulo, e deve ser encaminhado ainda nesta quinta para a sede da PF em Curitiba, onde está o inquérito do caso.

Mantega já havia sido citado anteriormente por outra investigada na Lava Jato, a mulher do marqueteiro João Santana, Mônica Moura, que negocia um termo de delação premiada com as autoridades. Segundo ela, que foi presa em fevereiro deste ano na 23ª etapa da operação e solta em agosto, as empresas do casal receberam recursos de caixa 2 em todas as campanhas que eles fizeram para o PT: Lula (2006), Dilma (2010 e 2014), Fernando Haddad (2012), Marta Suplicy (2008) e Gleisi Hoffmann (2008). O ex-ministro teria sido o intermediário desses recursos irregulares, segundo Mônica. À época do depoimento, todos os políticos citados negaram pagamentos irregulares.

Mantega foi o ministro da Fazenda mais longevo da história, ao ficar no cargo por oito anos durante os Governos Lula e Dilma: ele comandou a condução da economia brasileira durante todo o segundo mandato do Governo do ex-presidente Lula (de 2006 a 2010) e durante o primeiro mandato da gestão da ex-presidenta Dilma Rousseff (de 2010 a 2014). Também foi presidente do Conselho de Administração da Petrobras.

Em maio deste ano, Guido Mantega já havia sido alvo de uma condução coercitiva (quando a pessoa é levada a depor), mas na 7ª fase da Operação Zelotes, que investiga um um dos maiores esquemas de sonegação fiscal já descobertos no país. Ele teve seus sigilos bancários quebrados pela Justiça, que autorizou a investigação do ex-ministro, investigado por sua atuação para indicar nomes para o Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf).

No mesmo hospital Albert Einstein onde ele foi preso nesta quinta-feira, o ex-ministro da Fazenda já havia passado por um episódio que ganhou notoriedade pública: em fevereiro do ano passado foi hostilizado por clientes de uma cafeteria, e deixou o local sob gritos de "vai para o SUS".

Lula chama Lava Jato de "Operação Boca de Urna"

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), de quem Mantega foi ministro da Fazenda, diz que o avanço da operação neste momento aparenta ter caráter eleitoral, já que ocorre nas vésperas das eleições municipais. “[A operação] deveria se chamar operação boca de urna. Está chegando perto das eleições e outra vez eles vêm para cima do PT”, reclamou Lula em entrevista à rádio Povo do Ceará.

Assim como outros aliados de Mantega, Lula reclamou do momento da prisão do ex-ministro, que teria ocorrido enquanto ele acompanhava uma cirurgia de câncer realizada pela mulher dele, em São Paulo. “Se isso é verdade, qualquer tese de humanitarismo foi jogada no lixo. Ele foi ministro da Fazenda, tem residência fixa e as pessoas deveriam tratá-lo como qualquer ser humano deveria ser tratado”, afirmou o ex-presidente.

A senadora Vanessa Graziotin (PCdoB-AM) questionou os métodos utilizados pela força-tarefa da operação Lava Jato. “Tem de ser feito dentro dos princípios da humanidade (...) Qual é a justificativa de retirar uma pessoa de dentro do hospital acompanhando a cirurgia de sua esposa?”, questionou a parlamentar.

Outro questionamento feito pela senadora é que a Lava Jato estaria “cometendo excessos” com o objetivo de se desmoralizar e ser encerrada antes que as investigações atingissem o núcleo duro do governo Michel Temer (PMDB). “Ou seja, as punições ocorreriam apenas com os que já estão investigados. Os que promoveram o golpe continuariam soltos, livres e sem serem questionados”.

Os opositores do PT, que hoje estão no Governo, dizem que a prisão de Mantega é resultado dos erros cometidos por ele e pelo seu partido. “Mestre da contabilidade criativa, Mantega foi também o criador da matriz econômica que quebrou o Brasil. Agora ele é preso como um dos que achacava empresários para dar dinheiro ao Partido dos Trabalhadores. É lamentável como o PT e seus governantes trataram a coisa pública do nosso país”, afirmou o líder do DEM na Câmara, Pauderney Avelino.

O líder do PSDB no Senado, Paulo Bauer, diz que o país precisa comemorar o avanço das investigações. “A prisão do ministro Mantega demonstra que o trabalho da Lava Jato não terminou. A prisão também de outros envolvidos demonstra que o Brasil segue sendo um país sério onde quem atua no mundo da ilegalidade, da corrupção, concretamente acabará sendo punido”, afirmou Bauer.