Daniel Dias eleva-se a herói paralímpico mundial

Nadador conquista nove medalhas no Rio e torna-se o homem mais premiado da natação paralímpica. Sua família e seu treinador contam como ele não conhece limites

Daniel Dias Jogos Paralímpicos
O nadador Daniel Dias, após o ouro nos 50m costas. REUTERS

O dia em que Daniel Dias (Campinas, 1988), já adolescente, pediu aos seus pais que lhe compraram um piano, eles olharam desconcertados um para a cara do outro. Daniel, nascido com 1,9 kg e uma má formação congénita nos braços e na perna direita, apenas tem um dedo completo, mas ele queria tocar. “Compramos um teclado, como também tínhamos comprado uma bicicleta. Nós nunca falamos para ele que não podia fazer alguma coisa. Ele percebeu depois que não dava para ele tocar, mas não desistiu. Pediu uma bateria que toca até hoje”, relata Paulo, o orgulhoso pai de Daniel, recém coroado como o homem com mais medalhas da história (24) na natação paralímpica.

A perseverança que levou Daniel a conquistar um pleno de nove pódios no Rio, (quatro ouros, três pratas e dois bronzes) e o colocou entre os dez esportistas paraolímpicos com mais medalhas da história vem do ninho. Embora parecessem óbvias algumas limitações físicas, Daniel foi sempre educado para se virar. Sua mãe o obrigava todos os dias a fazer a cama, as tarefas domésticas e até a se amarrar os cadarços. “Demos disciplina, mas nunca colocamos limites, muito menos na sua capacitação, nem na sua realização”, conta Paulo.

Daniel, um dos poucos atletas paralímpicos brasileiros que consegue viver dos patrocínios, vê na natação um esporte que ama mas, sobretudo, um trabalho. “Ele construiu sua casa, sua família, graças a renda que a natação lhe dá. Depois de se casar, após as Paralímpiadas de Londres, ele ficou com uma responsabilidade maior com o esporte. É o sustento da família”, explica seu treinador Marcos Rojo.

A família e sua fé em Deus são o mais importante para Daniel. Durante todos os dias de competição, sua mulher, Raquel, seus dois filhos, os pais, os padrinhos de casamento, alguns amigos, a prima e a sogra acompanharam taquicardíacos as provas. Vestidos com camisetas com a foto do nadador no peito e a legenda bíblica nas costas “Tudo posso naquele que me fortalece” (Filipenses 4.13), eles elogiavam, além do sorriso e sua simplicidade, que Daniel fosse um homem de fé. Daniel nunca sabia onde a família se sentava, mas eles, aos gritos, lhe mostravam onde olhar. Após as cerimonias das medalhas, Raquel e o pai e, às vezes, a família toda, pegavam as crianças no colo e corriam entre a multidão do estádio aquático até chegar na fileira mais próxima do pódio para ele poder tocá-los. Os meninos, de dois anos e meio e nove meses, não entendem que é seu pai quem fez vibrar o estádio, mas o mais velho, que morreu de saudades dele durante os Jogos, já perguntou nesses dias ao ouvir os gritos fervorosos da torcida: “Eles também estão chamando o papai?”. Estavam, e o próprio Daniel mostrou-se surpreso: “Nunca ouvi tanto barulho embaixo da água”.

A mulher de Daniel, Raquel, entrega o filho menos para o nadador após a prova.
A mulher de Daniel, Raquel, entrega o filho menos para o nadador após a prova. REUTERS

Daniel, assim como o doutrinaram seus pais, nunca viu limites. “Ele tentou com o basquete mas não tinha como, tentou com o futebol, mas quebrava a prótese, até que chegou à natação”, relata Rojo, seu treinador há dez anos. “Meus pais me ensinaram que a gente nunca deve desistir e eu tento transmitir isso através do esporte. A força está dentro de cada um de nós, basta ir em busca do que a gente almeja. Todos temos sonhos”, disse Daniel, infinitas vezes procurado por pais que buscam transmitir essa força aos seus filhos, que precisam aprender a conviver com deficiências.

Mesmo que por uns segundos, Daniel sempre responde. Após conseguir sua primeira medalha de ouro no Rio, nos 200m livres (S5), o treinador recebeu um vídeo no seu Whatsapp. Nele, o pequeno Mateus, com paralisia cerebral, animava a Daniel a ganhar muitas medalhas e o convidava a encontrá-lo junto os seus amiguinhos em Bragança Paulista, o município paulista onde ambos moram. Daniel se emocionou ao vê-lo e, embora não tinha tempo nem para encontrar seus filhos, enviou um áudio para a criança agradecendo seu apoio.

Após tentativas frustradas em vários esportes, Daniel descobriu sua vocação na natação ao assistir pela tevê as Paralimpíadas de Atenas em 2004 e se deparar com Clodoaldo Silva. Clodoaldo, cuja trajetória foi homenageada nesses Jogos ao acender a tocha no Maracanã, tem seis medalhas de ouro; Daniel já tem 14. “Ele era uma pedra em bruto, tinha um dom que precisava ser lapidado. E ainda falta por trabalhar porque a cada competição conseguimos mais. Ajuda que ele é muito determinado desde que nasceu, o cara toca a bateria, gente!”, exclama Rojo cheio de orgulho.

Depois desses Jogos será necessário, no entanto, avaliar resultados, segundo o técnico. No Rio, Daniel ganhou mais medalhas que em Londres (nove contra seis), mas em 2012 todo foram ouros. O nadador tampouco conseguiu quebrar recordes, muitos deles impostos por ele mesmo, exigências que, imperceptíveis para a torcida, são parte do planejamento de atletas do nível de Daniel. “Dessa vez não conseguimos quebrar marcas, como sempre buscamos, a pesar de ter mantido os mesmos objetivos e planejamento que temos desde 2006 e ter feito, ainda, um treinamento de altitude [na Serra Nevada, Espanha]. Mas mantivemos ele 100% ativo durante dez dias de competição e estamos 100% satisfeitos”, comemorou Rojo após a última prova (e medalha) de Daniel. “Não foram tantos ouros mas, porra!, são nove medalhas!”.

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