Crise na Venezuela

Chavismo confirma reuniões com a oposição para iniciar um diálogo

Prefeito de Caracas informa que o Governo da Venezuela e a coalizão oposicionista MUD mantiveram dois encontros em segredo

O secretário-geral da oposicionista Mesa de Unidade Democrática, Jesús Torrealba, em entrevista coletiva.
O secretário-geral da oposicionista Mesa de Unidade Democrática, Jesús Torrealba, em entrevista coletiva. (EFE)

O chavismo revelou um segredo da oposição. Jorge Rodríguez, prefeito de Caracas, disse nesta terça-feira que o Governo da Venezuela se reuniu sigilosamente em duas ocasiões com dirigentes da coalizão oposicionista Mesa da Unidade Democrática (MUD) para iniciar um diálogo. Segundo Rodríguez, a oposição tinha solicitado que os encontros fossem mantidos em segredo. Horas mais tarde, Jesús Torrealba, secretário-geral da MUD, admitiu as reuniões. “O país entrou numa crise de governabilidade muito grave”, argumentou.

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As conversas são questionadas por alguns opositores. Henrique Capriles, governador do Estado de Miranda e ex-candidato presidencial, afirmou ter “ressalvas” às últimas decisões da aliança oposicionista, mas que as apoia por pertencer ao partido. “Se houver um milímetro de negociação turva que comprometa o país eu vou dizer”, acrescentou.

O presidente Nicolás Maduro se aferra ao diálogo como um antídoto contra a ameaça de um referendo revogatório do seu mandato. As infrutíferas negociações já tiveram como mediadores o ex-premiê espanhol José Luis Rodríguez Zapatero e os ex-presidentes Leonel Fernández (República Dominicana) e Martín Torrijos (Panamá), entre outros representantes da comunidade internacional.

Em outras ocasiões, o diálogo se viu frustrado pela crise econômica, pelos obstáculos impostos pelo Conselho Nacional Eleitoral – controlado pelo chavismo – à realização do referendo revogatório neste ano e pela prisão de opositores do chavismo.

Há dois meses, a tensão entre governismo e oposição cresceu. O Serviço Bolivariano de Inteligência (Sebin) iniciou uma onda repressiva contra militantes do partido Vontade Popular (VP), do detido dirigente Leopoldo López, e outros adversários de Maduro. A polícia política acusou os políticos presos de conspirarem para desestabilizar o Governo.

O prefeito de Caracas, a chanceler venezuelana, Delcy Rodríguez, o parlamentar Elías Jaua e o diplomata Roy Chaderton foram designados por Maduro para se reunir com os opositores Freddy Guevara, Carlos Ocariz, Enrique Márquez e Luis Aquiles.

Condição para o diálogo

Torrealba esclareceu que as reuniões com o Governo não significam o início de um diálogo, pois a oposição ainda espera a convocação do referendo revogatório. “Não faz sentido ‘dialogar’ para dar mais tempo a quem desperdiçou 17 anos [o Governo], nem para dar mais dinheiro a quem já esbanjou um bilhão de dólares”, afirmou ele em nota emitida pela aliança oposicionista.

Mas o Conselho Eleitoral ainda não determinou um prazo para que sejam reunidas as assinaturas de 20% do eleitorado, necessárias para a convocação do referendo. O chavismo se opõe ao processo revogatório alegando que a oposição fraudou etapas prévias à convocação do referendo. “Consideramos que não se deve autorizar a MUD a realizar o referendo, porque ainda há denúncias graves de delitos neste processo”, afirma o governista Rodríguez.

Se o referendo ocorrer depois de 10 de janeiro e a oposição conseguir mais votos do que Maduro obteve na eleição presidencial de abril de 2013, o vice-presidente da República, o chavista Aristóbulo Istúriz, assumiria o cargo até o final do mandato. Por isso a oposição pressionou o Poder Eleitoral com manifestações nas ruas para acelerar uma resposta. Enquanto isso, a oposição fará outro protesto na sexta-feira.

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