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A libertação de Neymar

Atacante retorna ao Barcelona depois de se consagrar no Rio e formar uma dupla letal com o Marcelo na seleção

Neymar comemora seu gol contra a Colômbia.
Neymar comemora seu gol contra a Colômbia. AFP

A dupla de ataque formada por Romário e Ronaldo, conhecida pelo apelido Ro-Ro, conseguiu dar ao Brasil o título da Copa América de 1997 na temida altitude de La Paz, quando Mario Lobo Zagallo, então técnico da Canarinha, explodiu. “Agora vão ter que me engolir”, disparou o treinador. A raiva de Zagallo tinha um porquê. O técnico sofria com as críticas à sua seleção, amiga de um futebol duro de digerir, alheia ao seu delicado pedigree. Com a Copa América no bolso, o velho Lobo mandou seus detratores ficarem quietos com uma frase antológica.

Quase 20 anos depois, e após faturar o ouro na Olimpíada do Rio, Neymar copiou Zagallo. “Agora vão ter que me engolir”, disse o atacante do Barcelona. Fazia tempo que o Brasil perseguia a medalha de ouro e, com a decepção da Copa de 2014 ainda fresca na memória, a torcida brasileira andava sedenta por alegrias. Mas a seleção não começou iluminada no Rio, e os olhares se voltaram para Neymar, último herdeiro de um estilo de jogo vistoso, mas em extinção. Depois do segundo empate consecutivo na fase de grupos, o camisa 10 driblou os microfones, e a imprensa brasileira castigou o paulista. Entretanto, Neymar teve sua desforra. Surgiu como o líder do Brasil e deu ao time pentacampeão do mundo o único título que lhe faltava: o olímpico, e em seus próprios Jogos.

“Não carrego nem quero carregar nenhum peso. São vocês [jornalistas] que puseram isso sobre mim”, atacou Neymar após conquistar o ouro no Maracanã. E, quando ninguém esperava, abriu mão do bracelete de capitão. “Foi algo que recebi e honrei com muito carinho. Para mim foi uma honra ser o capitão da seleção, mas deixo”, disse. Neymar não estava sozinho; contava com o apoio do seu treinador. “É desumano colocar toda a responsabilidade sobre um atleta. Neymar está entre os três melhores jogadores do mundo, mas o futebol é um esporte coletivo, e é preciso dividir responsabilidades. E quando isso acontece todos se potencializam, inclusive um jogador como Neymar”, analisou Tite.

O amigo do Real

E Neymar respirou. Uma excelente notícia para Tite, mas sobretudo para a seleção brasileira. Com o atacante do Barcelona em estado de combustão, a Canarinha se recompôs nas eliminatórias sul-americanas para a Copa da Rússia 2018 e, depois de vencer o Equador fora de casa (3 x 0) e a Colômbia como mandante (2 x 1), assumiu o segundo lugar da tabela, um ponto atrás do Uruguai – e sempre graças ao camisa 10, que deixou um gol em cada jogo. Recolhido à lateral esquerda como faz no Barça, Neymar se reencontrou com Marcelo. O lateral do Real Madrid, escanteado pelo ex-técnico Dunga, é o sócio ideal para o atacante azul-grená. Tabelinhas em campo, risadas no vestiário. E até publicaram nas redes sociais um vídeo de dancinha; à coreografia liderada por Neymar e Marcelo se juntaram Dani Alves (não perde uma), Marquinhos e Paulinho.

Consolidado como o líder da sua seleção, Neymar volta ao Barcelona após 110 dias de ausência. O brasileiro fez seu último jogo com a camisa do Barça em 22 de maio, na vitória da final da Copa do Rei, contra o Sevilla. De férias durante a Copa América Centenário (o clube catalão só o autorizou a disputar a Olimpíada), o 11 volta ao time justamente quando Luis Enrique mais precisa dele. Messi está com problemas no púbis – nesta quarta-feira treinou por alguns instantes com o grupo – e, quando o argentino se apaga, é o brasileiro que assume a batuta.

Na temporada passada, Messi passou quase dois meses na enfermaria por causa de uma entorse no joelho esquerdo, e ninguém se alterou no Camp Nou. Havia Neymar. O 11 colocou o time de Luis Enrique sobre os ombros e marcou 9 dos seus 24 gols no Campeonato Espanhol nos seis jogos em que a Pulga esteve ausente.

O argentino é dúvida para a partida de sábado contra o Alavés, e o brasileiro, que pousou nesta quarta-feira em Barcelona com sua nova juba loira, vai ao resgate do Barça. Afugentados os complexos e com o Brasil aos seus pés, Neymar volta libertado para o clube catalão.

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