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Wilco: uma inquietação crítica permanente

'Schmilco' nos toca mais do que o efervescente 'Star Wars', embora ambos sejam irmãos siameses

Um ano se passou desde que Star Wars surgiu do nada para ser baixado gratuitamente, uma atitude que criou entre os seus ouvintes a suspeita de estarem recebendo gato por lebre. Ainda é difícil decidir qual valor deve ser atribuído a esse trabalho irregular do Wilco, certamente por causa dessa aparência de um disco supostamente menor lançado por uma banda importante. Aquela gravação relativamente breve e em alguns momentos rangida, de importância duvidosa, era uma virada e soava a uma regeneração. Talvez tenha sido um gesto necessário para o momento complicado que a banda norte-americana vivia, com a doença da mulher de seu líder indiscutível, Jeff Tweedy, mas não tão longe como o seu antecessor, The Whole Love (2011), que está presente em nossos ouvidos até hoje. Schmilco propõe o contrário de Star Wars, com uma exposição precisa e escancarada daquilo que se escondia nas entrelinhas daquelas canções em registro de glam-rock, levemente ruidoso e com uma ou outra pitada mais adocicada.

Artista: Wilco

Título: Schmilco

Selo: dBpm Records-PIAS

Avaliação: 7 sobre 10.

Segundo Tweedy, o novo trabalho foi concebido e desenvolvido nas mesmas sessões, em que a banda decidiu separar as canções em dois blocos: as mais fortes e diretas iriam para Star Wars; as mais voláteis e introspectivas, para Schmilco. O resultado acaba sendo surpreendente, pois mostra uma banda desprovida do seu conhecido aparato instrumental, que veste com uma suave eletricidade canções em parte autobiográficas já desde a primeira faixa, Normal American Kids, retrato de uma adolescência desenraizada. Mais uma vez, nos vemos imersos na irritante mente do misantropo que luta para destacar a sua condição com um meio-sorriso nos lábios. Em If I Ever Was a Child, fica clara a busca pela expressão de uma dor que ele sabe que poderá controlar: em Happiness, revela-se uma tristeza tão grande que acaba em nada; e em Shrug and Destroy, suspira-se: “Às vezes eu gostaria de me libertar das coisas que ainda me importam”.

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Cantor e compositor do “negativismo positivo”, o persistente Tweedy deveria se sentir um felizardo por estar cercado de instrumentistas excelentes que, como Nels Cline ou Glenn Kotche, sabem calibrar suas guitarras e sua percussão alcançando uma delicadeza que soma em vez de subtrair. A alma do sexteto se deixa levar, mais uma vez, pela sua inquietação criativa permanente. Parecem conscientes de que o desdém pelo artifício e pelas expectativas alheias os mantém vivos, ainda se equilibrando entre o folk, o pop clássico e a pós-modernidade.

Com seu título bem-humorado e uma capa que mostra que a dor pode levar ao gozo –obra do desenhista catalão Joan Cornellà--, Schmilco nos toca mais do que o efervescente Star Wars, embora ambos sejam, na verdade, irmãos siameses separados ao nascer. Se a soma dos dois constituirá, ao final, um marco em sua trajetória, só o tempo dirá. Por enquanto, continuamos imersos na aventura existencial do transitório. O que não é pouco em se tratando do Wilco.