Tribuna
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Brasil, velhos problemas

Uma rápida recuperação econômica é a única coisa que pode salvar Temer

Manifestantes em favor de Dilma Rousseff
Manifestantes em favor de Dilma RousseffFERNANDO BIZERRA JR / Efe

Agora que Dilma Rousseff é história e os Jogos Olímpicos rebateram as previsões de apocalipse, os brasileiros esperam finalmente virar a página depois de dois anos horríveis de recessão e incerteza.

Muitos brasileiros estão dispostos a relevar a falta de honradez e apoiar seus dirigentes desde que a economia cresça

Infelizmente, não será fácil. Os mesmos dois problemas que fizeram Rousseff cair —a crise orçamentária e um escândalo de corrupção de proporções inéditas— continuarão causando graves dores de cabeça a seu sucessor, o presidente Michel Temer. Este advogado constitucionalista de 75 desfruta da confiança da maior parte da comunidade empresarial local e estrangeira, que se alegra de ver o fim de Rousseff, de sua má gestão orçamentária e de sua política industrial. Mesmo assim, Temer tem uma margem muito estreita para conduzir uma volta à normalidade, e alguns acontecimentos estão simplesmente fora de seu controle.

A economia brasileira, que joga em favor de Temer, começou a dar pequenos sinais de vida em meio à recessão mais prolongada e profunda em 80 anos, e possivelmente de toda sua história. Entre os 10 setores econômicos analisados pela Fundação Getúlio Vargas, uma escola de negócios e grupo de pesquisas, sete parecem estar agora crescendo ou reagindo. A recuperação é liderada pelos setores têxtil, calçadista e automobilístico, todos eles significativos para a exportação, graças em parte ao fato de que a moeda do Brasil está relativamente barata e a uma incipiente recuperação da confiança dos investidores. Segundo uma pesquisa semanal realizada pelo Banco Central, os economistas acreditam agora que a economia crescerá 1,2% em 2017, uma melhora modesta em relação às previsões médias de uma expansão de 0,2% que continuava acontecendo em abril, último mês completo de Rousseff no poder.

Se Temer conseguir conduzir uma mudança radical, seu índice de aprovação aumentará do nível atual, de apenas 14%

Se a recuperação continuar, Temer colherá os benefícios. Assim como os norte-americanos (mas, diferentemente, digamos, dos peruanos), a história recente indica que muitos brasileiros estão dispostos a relevar a falta de honradez e apoiar seus dirigentes desde que a economia cresça. Com efeito, a maioria dos votantes se mostrou disposta a olhar para o outro lado quando descobriu que o Governo de Luís Inácio da Silva, Lula, subornava sistematicamente os congressistas em meados da década de 2000, um período de prosperidade. Lula foi reeleito de qualquer forma.

De modo similar, se Temer conseguir conduzir uma mudança radical, seu índice de aprovação aumentará do atual, de apenas 14%, que não é muito mais alto do que o de Rousseff. Devido a sua falta de carisma e à magnitude das tarefas que tem pela frente, é possível que Temer nunca chegue a ser popular, nem sequer obtenha um grande sucesso. Mas poderia se tornar uma figura respeitada de transição assim como Itamar Franco, outro vice-presidente que na década de 1990 assumiu o timão do país depois de uma destituição e conseguiu colocar fim à hiperinflação. No melhor dos casos, Temer poderia ser lembrado como o homem que pôs fim à pior crise do Brasil e começou a tarefa de abrir a economia mais fechada da América, e até eleger seu sucessor preferido em 2018 e aposentar-se com tranquilidade e influência.

A principal ameaça a este cenário é a chamada operação Lava Jato, que investiga a corrupção na Petrobras; um caso que, apesar da saída de Rousseff, está muito longe de ser encerrado.

O iminente depoimento a fim de reduzir pena dado por importantes executivos de empresas que participaram da fraude da Petrobras, Odebrecht e OAS, desatará novos terremotos em Brasília. A mídia deu a entender que o testemunho é uma espécie de “quem é quem” da política brasileira, e cita numerosas figuras de diversos partidos, entre elas Lula, Rousseff e o próprio Temer. (Os três negam categoricamente qualquer conduta repreensível.) Por acaso ou de propósito, a maior parte do depoimento não foi publicada antes da destituição de Rousseff, mas poderia se tornar pública nas próximas semanas.

A principal ameaça para o novo cenário é a chamada operação Lava Jato, que investiga a corrupção na Petrobras

As acusações contra uma gama tão ampla de partidos e políticos plantou a dúvida de se alguém ligado à forma tradicional de fazer negócios em Brasília conseguirá sobreviver em longo prazo. Cerca de 60% dos congressistas federais do Brasil já são objeto de acusações graves, como suborno e fraude eleitoral. O juiz federal Sergio Moro, por sua vez, encarregado da investigação Lava Jato, desfruta de amplo respaldo entre os brasileiros, que consideram que a purgação da corrupção é o único raio de esperança dos dois últimos anos, e um passo necessário para afiançar a democracia instaurada no Brasil há 31 anos. É improvável que sua investigação comece a perder intensidade até 2017.

Isso nos leva ao dilema essencial de Temer. Sua necessidade de conservar o apoio em um Congresso paranoico e garantir a governabilidade em condições imprevisíveis pode, perversamente, enterrar a única coisa capaz de salvá-lo: uma recuperação econômica. Os líderes empresariais e os economistas estão ficando impacientes diante da incapacidade de Temer de reduzir um déficit que superava 10% do PIB em 2015. Muitos advertem que a incipiente recuperação econômica parará se não forem observados sinais mais claros de que o déficit cairá logo. Mas, no momento, Temer se mostrou relutante em aplicar medidas fortes e imediatas de austeridade, temendo indispor-se com sua base legislativa. Por exemplo, no início do mês, seu Governo desistiu da tentativa de congelar o salário dos trabalhadores por dois anos.

É possível que, depois da destituição, vejamos um Temer mais decidido e mais disposto a ofender seus aliados pelo bem de um benefício de longo prazo. Mas sem uma ação firme, e talvez com um pouquinho de sorte, é possível que Rousseff desfrute da vingança suprema: que Temer acabe desejando que ela nunca tivesse saído.

Brian Winter é redator-chefe da Americas Quarterly, revista sobre política, negócios e cultura na América Latina.