Fazendeiros são presos por morte de um guarani-kaiowá no Mato Grosso do Sul

Eles são acusados de atirar em Clodioude de Souza em uma fazenda em conflito em junho deste ano

Familiares choram no velório de Clodioude, em junho passado.
Familiares choram no velório de Clodioude, em junho passado.Ana Mendes (CIMI)

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Fazendeiros do Mato Grosso do Sul foram presos nesta quinta-feira, acusados pelo Ministério Público Federal (MPF) de terem envolvimento na morte do guarani-kaiowá Clodioude Aquileu Rodrigues de Souza, de 26 anos, em uma fazenda em conflito no município de Caarapó, a 273 km da capital Campo Grande. O ataque, ocorrido em em junho deste ano, também deixou outros nove índios feridos, incluindo uma criança de 12 anos, todos alvejados por tiros de armas de fogo. 

O caso corre em sigilo, por determinação da Justiça Federal. Por isso, não há informações de quantas pessoas foram presas, nem de quem são elas. Segundo o MPF, que pediu as prisões, os fazendeiros estão diretamente envolvidos no ataque e podem ser responsabilizados pelos crimes de formação de milícia privada, homicídio, lesão corporal, constrangimento ilegal e dano qualificado. O órgão afirma que a prisão preventiva foi pedida para evitar novas agressões às comunidades indígenas da região, como outra ocorrida em 11 de julho, que deixou três índios feridos.

No Mato Grosso do Sul, o conflito por terras tem crescido nos últimos anos. São áreas de onde os índios foram expulsos décadas atrás para serem repassadas, muitas vezes pelo próprio Governo, a fazendeiros. Pela Constituição Federal, os indígenas têm direito a terras que comprovadamente (por meio de estudos técnicos) pertenceram a seus ancestrais, mas os fazendeiros detêm a titularidade das áreas e, para sair, querem indenização do Governo, que alega que só pode pagar pelas benfeitorias feitas na terra (casa, plantações etc.), mas não pela terra, que pertencia originalmente aos índios. O impasse se arrasta há décadas. E, sem solução aparente para a demarcação, índios, muitos deles vivendo em áreas apertadas ou em beiras de estradas, decidiram tomar as terras por conta própria, em ações que chamam de "retomadas". Com isso, fazendeiros reagem e promovem ataques, segundo investigações recentes. Em junho, o Ministério Público Federal do Mato Grosso do Sul denunciou 12 pessoas, entre eles fazendeiros, por formarem milícia para atacar indígenas no Estado. 

O ataque em Caarapó ocorreu em 14 de junho na fazenda Yvu, que faz parte de uma área de 55.590 hectares que está em processo de demarcação pelo Governo federal. Dois dias antes, um grupo de cerca de 300 índios havia entrado no local numa ação de retomada de terra. Os índios, que haviam montado barracas de lona perto da sede da fazenda de 490 hectares, foram surpreendidos por camionetes e carros que chegaram ao local cercando os guarani-kaiowá e atirando com armas de fogo e de balas de borracha. Vídeos gravados pelos índios mostram o momento em que o grupo de fazendeiros chega ao local, em meio a barulhos de fogos e outros sons que parecem ser de tiros. 

A fazenda pertence a Silvana Amado Buainain, filha do produtor rural Sylvio Mendes Amado, um dos fundadores da Federação da Agricultura e Pecuária do Mato Grosso do Sul (Famasul). Na época do crime, José Armando Cerqueira Amado, irmão de Silvana, confirmou ao EL PAÍS, que ela esteve na fazenda, acompanhada do marido e de um grupo de fazendeiros da cidade. Na chegada, segundo ele, houve uma discussão com os guarani-kaiowá e os produtores rurais soltaram fogos de artifício, o que afugentou os índios. Ele negou que alguém tivesse atirado. No entanto, o superintendente do Hospital da Vida, Genivaldo Dias da Silva, para onde os índios feridos foram levados, garantiu que todos foram alvejados por armas de fogo. Até o momento, não há informações se a proprietária é uma das pessoas detidas nesta quinta.

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