Coluna
i

Um ouro olímpico no futebol não vai vingar o vexame dos 7 x 1

Brasil tem a chance de enterrar a obsessão pela medalha de ouro e enxergar o pódio no futebol como ele deve ser visto: uma medalha como a de qualquer outra modalidade

MARTIN BERNETTI

A frase surrada diz que o futebol não é apenas o jogo. Mas, por sorte, os Jogos Olímpicos não são apenas o futebol. A bola nos pés vive deslocada do espírito que guia os atletas dos outros esportes. Um dos motivos é geográfico: os jogadores não se concentram na Vila Olímpica, e as partidas acontecem em praças tão distantes quanto Manaus e Brasília. É um torneio à parte, que apenas seleções sem expressão e o Brasil, por uma obsessão doentia, levam a sério.

MAIS INFORMAÇÕES

Por obra do destino, a final do torneio deste ano será disputada entre Brasil e Alemanha. Há dois anos, as seleções principais dos dois países se enfrentaram, e o resultado foi um vexatório 7 x 1 para os europeus, que expôs fissuras desde a preparação emocional à formação de jogadores. Sábado, no entanto, a partida é diferente, em condições diferentes. Vai valer apenas uma medalha no cômputo geral. Se vencer, o ouro daqueles 18 atletas, entre titulares e reservas, vai ter o mesmo peso que os do judô, do atletismo e do boxe.

A obsessão de o futebol nunca ter ganho uma medalha de ouro olímpica não é um peso a ser carregado. Como a derrota de 2014, essa “obrigação” criou feridas que ainda não foram cicatrizadas. Três anos atrás, em conversa com Zico, perguntei sobre como foram os anos entre a goleada de 6 x 0 sofrida pelo Flamengo em 1972 e a devolução do mesmo placar nove anos depois. “Eu seria o único a estar nos dois 6 x 0. Em 1972, eu estava concentrado e, quando chegou o dia, o Zagallo [então técnico do Flamengo] me tirou até do banco e fui, de uniforme, para a arquibancada. Quando estava 3 x 0, saí e fui para casa. No jogo de 1981, eu era quem mais queria por causa de uma bandeira de 6 x 0 que os botafoguenses colocavam lá no Maracanã, em frente do túnel [do vestiário]. Eu falava: ‘Um dia vocês vão tirar isso daí!’”.

Claro que há um sentimento por vingança no duelo, como a que Zico carregou por nove anos, mas, se o Brasil quiser pensar no jogo do Maracanã como uma forra, é preciso, antes de tudo, saber que não há como comparar a Copa do Mundo com o torneio olímpico de futebol. Há limitação de três jogadores acima de 23 anos inscritos para a competição. A Alemanha do Maracanã não é a mesma de dois anos atrás. Apenas o zagueiro Matthias Ginter, do Borussia Dortmund, estava no grupo de 2014, ainda que não tenha participado de nenhuma partida da Copa. Ginter tem idade olímpica (22 anos), a mesma de Julian Draxler, que entrou no minuto 31 do segundo tempo dos 7 x 1 no lugar de Khedira, mas não foi convocado agora.

As surras e os traumas, no entanto, são didáticos. Para Zico, foi o combustível que o alimentou em busca dos títulos que conquistou e de repetir o placar simbólico. O Brasil soube lidar bem com o maior de todos até o 7 x 1. O Maracanazo, quando a seleção perdeu a Copa de 1950 para o Uruguai quando a partida parecia ganha na véspera, forçou a profissionalização de nosso futebol, e o resultado foi o título na Suécia, oito anos depois. Uma comissão técnica de verdade foi montada, com supervisor, preparador físico, psicólogo e dentista, e um plano de trabalho, com roteiro diário, foi seguido.

Tínhamos uma geração inesquecível, mas parte do mérito por aquela conquista poderia ser creditada à nossa preparação. Uma vitória no sábado não vai apagar o 7 x 1, como bater o Uruguai na semifinal da Copa de 1970 também não foi uma vingança pelo que aconteceu em 17 de julho de 1950. O Brasil só vai superar o trauma do Mineirão quando lembrar da experiência de 1958. Os alemães, nossos algozes de 2014 e adversários deste ano, perceberam isso após o fracasso nas Euros de 2000 e 2004, quando nem sequer passaram da primeira fase. Eles repensaram o modelo a ser seguido pela modalidade no país, com planos para os torneios desde a base, com os atletas sendo acompanhados pela seleção nos clubes mesmo depois de profissionais.

O Brasil ainda trata a derrota de 2014 como um deslize provocado pela vaidade dos jogadores. O tempo gasto em salões de beleza pelos atletas foi usado como uma das razões para o fiasco. A política de não investir em preparação e de descaso com o calendário nacional e a formação de atletas é ignorada. Tite parece, a princípio, um técnico preparado para a transformação necessária. Rogério Micale, a quem confiou a seleção olímpica, tem um raro espírito moderno. Se o desastre de 2014 ainda vai sobreviver, Micale e Neymar, seu principal astro, têm a chance de enterrar de uma vez por todas a obsessão pela medalha de ouro. Será um trauma a menos para lidar e uma forma de enxergamos, nos Jogos de Tóquio, o pódio no futebol como ele verdadeiramente deve ser visto: uma medalha como a de qualquer outra modalidade. O 7 x 1 de 2014 é outra história.

Marcos Sergio Silva é jornalista, cobriu animadamente a Olimpíada de 2012 e a Copa do Mundo de 2014. Foi editor da revista Placar entre 2008 e 2015.