OLIMPÍADA

As contradições nas arquibancadas da Olimpíada do Rio, da caridade à venda ilegal

Enquanto crianças humildes ocupam cadeiras vazias nos Jogos, polícia prende uma máfia de ingressos

Jogo de vôlei de praia do Brasil contra o Canadá
Jogo de vôlei de praia do Brasil contra o CanadáYASUYOSHI CHIBA / AFP
Rio de Janeiro - 10 ago 2016 - 19:22 UTC

Não há medo maior, entre as redes de televisão que detêm os direitos de transmissão dos Jogos Olímpicos, do que o de um estádio vazio. Aconteceu em Londres em 2012, em Pequim em 2008, em Atenas em 2004 e nestes dias no Rio: no país do futebol, as câmeras não conseguem dissimular as dezenas de cadeiras coloridas desocupadas na maioria dos esportes.

Durante os primeiros dias de competições, a tirania das cadeiras vazias foi a principal dor de cabeça dos organizadores de Londres, que acabaram vestindo militares encarregados da segurança nos estádios com agasalhos esportivos para torcerem pelas equipes estrangeiras. No Rio, o comitê organizador optou por outra alternativa. Distribuiu 285.000 ingressos para escolas e programas sociais. Em meio aos inúmeros rostos que aparecem nas cadeiras vazias está o de Christian Soares, um menino de 10 anos que vive no Complexo de favelas da Maré, bairro onde é comum que as crianças percam aulas por causa de tiroteios e onde os recentes eventos esportivos deixaram um legado de intervenções militares. “Gostei de aprender uma coisa nova”, conta o menino, reproduzindo as passadas da esgrima. O pai de Christian é angolano e faxineiro; a mãe, empregada doméstica: comprar um ingresso – o mais barato custa cerca de 60 reais —para ele e seus três irmãos seria algo totalmente fora de seu orçamento e de suas prioridades em termos de despesas.

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Mas, enquanto Christian e seus colegas de classe enchem as arquibancadas para evitar o vazio, centenas de ingressos eram comercializados ilegalmente em hotéis de luxo do Rio de Janeiro. A polícia prendeu na semana passada um irlandês e uma brasileira com cerca de 32 milhões de reais em ingressos. As entradas eram vendidas ilegalmente a preços exorbitantes; lugares que custavam 1.400 reais eram repassados a 25.000 reais. Os dois detidos são funcionários da THG Sports, uma das maiores empresas de venda de ingressos e pacotes de viagens para eventos esportivos, com sede em Londres. Seu diretor, James Sinton, chegou a ser detido durante a Copa do Mundo de 2014, também no Brasil, por integrar uma máfia de venda ilegal de ingressos. Segundo a polícia, que continua investigando os tentáculos do grupo, os passadores haviam concebido para os Jogos uma estrutura ainda maior do que a da Copa.

Alheia aos estádios vazios, aos meninos pobres que os ocupam, aos vendedores ilegais de ingressos e ao bom senso, surge a torcida brasileira. Protagonistas de títulos de jornais desde o início dos Jogos, os brasileiros expandiram a sua cultura futebolística de xingamentos, vaias e cantos para as modalidades que exigem uma concentração maior dos atletas. Enquanto times brasileiros como o do handebol feminino –que estreou com uma vitória sobre a Noruega—agradeciam ao público pelo seu calor, alguns atletas brasileiros e estrangeiros se queixavam de uma torcida que não respeita os segundos de silêncio necessários para calibrar bem um disparo ou para ouvir a bolinha tocando na raquete do adversário no tênis de mesa.

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