Rede de mães na Espanha vira alternativa à creche tradicional

Profissionais cuidam em suas próprias casas de crianças em idade pré-escolar, valendo-se de métodos como Waldorf e Montessori

Por volta de oito e meia da manhã, começam a chegar em sua casa, no bairro de Ciudad Lineal, em Madri, crianças em idade pré-escolar, trazidas por seus pais. Durante cinco dias na semana, por cinco horas diárias, Maria Feros, educadora e pedagoga, com mais de 20 anos de experiência em escolas, cuida dos filhos de outras pessoas por meio de uma rede chamada "Mães de Dia", comunidade que reúne mais de 75 profissionais na educação de crianças de até seis anos de idade. 

Criança brinca na casa do chamado "pai de dia"
Criança brinca na casa do chamado "pai de dia"

A expansão da rede de mães se encaixa em um fenômeno mais amplo que envolve até 800 projetos de pedagogia alternativa voltados para diferentes níveis de formação. Almudena Garcia, fundadora do portal Ludus, que reúne todas essas iniciativas, explica que a maioria está voltada para crianças com menos de seis anos de idade e se inspira em diversas filosofias, acessíveis apenas a estudantes mais velhos, a partir do primeiro ano do ensino fundamental. As técnicas mais comuns encontradas na rede são a Waldorf e a Montessori, pedagogias construtivistas, pautadas no auto-aprendizado e na democracia.

Na casa de Maria, por exemplo, tudo fica ao alcance das crianças e são elas que escolhem as atividades que querem fazer no dia, sem direção de nenhum adulto. O que uma 'mãe de dia' faz, na verdade, é acompanhá-las, respeitando as suas curiosidades e os seus ritmos. "O vínculo que se forma com elas é sensacional", conta.

A rotina de uma criança na casa de uma 'mãe de dia' começa com o café da manhã. Em seguida, vem a brincadeira livre. "Alguns pegam um carrinho, outros me ajudam a tirar a mesa", diz Faros. Faça chuva ou faça sol, as crianças saem para a rua todos os dias. Bem agasalhadas, brincam pulando nas poças d'água. Depois, no parque, têm a liberdade de subir nas árvores, brincar de balança e correr. "Aproveitamos o percurso para conhecer o bairro: o jardineiro da prefeitura, o dono do bar", acrescenta a educadora.De volta à casa, as crianças almoçam "devagar e cada uma ao seu ritmo" e depois se deitam para descansar.

Belén Basilio, de 36 anos, autônoma, não hesitou na hora de escolher com quem deixar sua segunda filha. Luisa tem um ano e meio e, em julho passado, completou o seu primeiro ano na casa de uma 'mãe de dia'. "Minha primeira filha ficou comigo até os três anos", conta. Belén nunca pensou em matricular a pequena em uma creche, e essa alternativa lhe pareceu "a opção perfeita".

O preço cobrado por uma 'mãe de dia' varia de 400 a 500 euros (cerca de 1.600 a 2.000 reais) mensais, enquanto que uma escola Waldorf cobra 360 euros (cerca de 1.400 reais). Ainda que mais cara, a Rede Mães de Dia permite introduzir um tipo diferente de educação para a sua filha desde muito cedo, segundo destaca Belén.

As famílias que optam por esse caminho costumam segui-lo até a hora de matricular as crianças em um colégio, quando ficam mais velhas. Segundo Antonio Malagón, presidente da Associação das Escolas Waldorf, isso minimiza os problemas que podem aparecer quando se pede a uma criança, habituada com muita liberdade, que fique horas sentada e silenciosa numa sala de aula.

Marco legal

Essas experiências de formação alternativa foram se desenvolvendo na Espanha sem uma regulamentação específica. Madri só regulamentou a atividade por meio de um decreto, em outubro do ano passado. "É mais fácil começar projetos com crianças menores", afirma Antonio Ruiz, presidente da Associação do Livre Ensino, segundo o qual as normas para educação pré-escolar são mais flexíveis do que para as outras faixas etárias.

Ele se queixa, porém, de que o enquadramento legal dificulta um ensino diferente. Em muitos casos, o horário das mães de dia é mais limitado do que o de uma escola infantil, porque a ideia é que as crianças não fiquem o dia inteiro fora de casa. "É como se fazia nos velhos tempos, mas melhor, porque elas são profissionais e podem conduzir o desenvolvimento dos nossos filhos de forma melhor do que nós mesmas", diz Belén.

'Pais de dia'

Contam-se nos dedos de uma mão os homens que desempenham a função de pai de dia na Espanha, mas José Guzmán afirma que não sofreu nenhum tipo de discriminação. Para ele, a chegada de seu filho Guillermo mudou tudo. Aos 40 anos de idade e professor de maternal com 10 anos de experiência, ele decidiu, em junho do ano passado, abrir a sua casa em Las Palmas de Gran Canaria para outras crianças. "O Guillermo tinha dois anos" e teve de se adaptar para "compartilhar o seu pai com outras crianças". Seu primeiro ano como pai de dia se completa agora em agosto, e os resultados superaram as suas expectativas.

A partir de sua iniciativa, alguns pais se reuniram na associação Boskeko. "Todos nós compartilhamos uma ideia de educação que seja diferente para os nossos filhos", explica. "Procuro fazer com que as crianças toquem nas coisas, manipulem, desfrutem", diz ele, contando, também, que no próximo ano inaugurará um projeto inspirado na pedagogia verde: "Quero que a sala de aula seja do lado de fora e que mude de local a cada dia".

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