FBI investiga vazamento de emails do Comitê Nacional Democrata

WikiLeaks divulgou mensagens da cúpula partidária com formas de prejudicar campanha de Sanders

Chão pintado com mensagem de apoio a Sanders, na Filadélfia.
Chão pintado com mensagem de apoio a Sanders, na Filadélfia. REUTERS

O extravio e divulgação pelo site WikiLeaks de emails do Comitê Nacional Democrata (DNC, na sigla em inglês) custou o cargo da principal dirigente desse partido, a deputada Debbie Wasserman Schultz. Ofuscou o início da convenção partidária em Filadélfia, que formalizará nesta semana a candidatura presidencial de Hillary Clinton. Desatou teorias de que a Rússia de Vladimir Putin estaria por trás dessa operação. E colocou os holofotes sobre as relações entre o Kremlin e o candidato republicano Donald Trump.

Nesta segunda-feira, o FBI abriu uma investigação sobre a possível interferência das agências de inteligência russas na campanha presidencial dos Estados Unidos.

“Levamos muito a sério uma ação desse tipo, e o FBI continuará investigando e pedindo explicações a quem representar uma ameaça no espaço cibernético”, disse o FBI (polícia federal) em nota.

Os emails entre chefes do Comitê Nacional Democrata, a órgão central do partido, revelam que alguns dirigentes agiram em favor de Clinton no processo de eleições primárias, quando ela enfrentou o senador socialista Bernie Sanders. Clinton conquistou a indicação, após cinco meses de primárias, com mais de três milhões de votos de vantagem. Mas Sanders e seus partidários sempre suspeitaram que o DNC não foi completamente neutro em seu papel de árbitro.

A campanha de Clinton apontou a Rússia como responsável pelo roubo e distribuição da informação. Vários especialistas independentes citam as agências de espionagem FSB (herdeira da KGB) e GRU (espionagem militar), enquanto os partidários de Trump rejeitam qualquer explicação e falam em absurdas teorias conspiratórias.

Em entrevista coletiva em Filadélfia, Brian Fallon, porta-voz de Clinton, mencionou as afinidades entre Trump e Putin.

Trump, admirador declarado do presidente russo, já sugeriu que, se a Rússia atacasse um aliado europeu da OTAN, os EUA não se veriam obrigados a defendê-lo. Paul Manafort, chefe da campanha do magnata republicano, foi consultor do antigo Governo pró-russo da Ucrânia. Na convenção republicana da semana passada, os partidários de Trump conseguiram eliminar uma proposta para o envio de armas aos ucranianos contra a Rússia.

“Está claro que, apesar de Hillary Clinton ter sido [como secretária de Estado] a administradora do desastroso relançamento das relações com a Rússia, Donald Trump tem um fraco por homens fortes, inclusive por homens fortes com apetite por conquistar seus vizinhos. Uma escolha fácil para Putin”, diz, por email, Danielle Pletka, vice-presidenta para estudos de política externa e de defesa no laboratório de ideias conservador American Enterprise Institute.

O mais chamativo nessa sintonia entre Trump e Putin é que Trump lidera o Partido Republicano, que tradicionalmente foi o mais duro com a URSS e depois com a Rússia. Durante a Guerra Fria, os republicanos semeavam suspeitas de que elementos do Partido Democrata simpatizavam com os russos. Os papéis agora se inverteram.

Pletka não se lembra de antecedentes de um envolvimento semelhante da Rússia na política dos EUA. “Não há precedentes graves de interferência direta”, diz. “Obviamente, a União Soviética tinha seus espiões e agentes nos EUA, tinha preferências por um partido em detrimento do outro, mas algo tão descarado… Não consigo pensar num caso, se a acusação proceder.”

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