Flip 2016Análise
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Manual do bom ‘flipeiro’

Não estranhe alguém com máquina de escrever ou vestido de árvore durante a Flip. Literatura é arte e a arte é loucura, ou algo assim

Benjamin Moser, vestindo um elegante terno na Flip.
Benjamin Moser, vestindo um elegante terno na Flip.Tomaz Silva (Agência Brasil)

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Primeiro, é importante falar mal. Da vida, do evento em si, dos rumos da literatura, das pedras do centro histórico de Paraty, dos preços dos restaurantes e até mesmo daqueles escritores que você se esforçou para ver de perto e que muitas vezes se esforçaram para estar aqui. Mas, enquanto amaldiçoa tudo isso, siga amando a vida, frequentando o evento, amando a literatura, encarando o desafio e admirando a beleza das pedras sobre as quais tem de caminhar de qualquer jeito, comendo nos (caros) restaurantes disponíveis e prestigiando os escritores. Nada é mais literário do que reclamar – e isso ainda ajuda a manter vivo o papo.

Demonstre inteligência. A lógica é um pouco essa: se você gostasse de moda, escolheria seu melhor look para acompanhar um desfile; como gosta de livros, investe nos melhores discursos que puder para acompanhar o brilho de companheiros afins. É bom, no entanto, que se observe a medida, porque ninguém quer passar por arrogante mesmo que seja. Procure também ser engraçado, ainda que o máximo que lhe ocorra sejam piadas literárias infames, do estilo “Hamlet viu dois pontinhos voando. Um deles era uma abelha, já o outro, ele não tinha certeza… O que ele indagou?”.

Trate coisas estranhas com certa normalidade. Por exemplo, se alguém se instalar com uma máquina de escrever em algum banco de praça e começar a estalar as teclas como se fosse um escritor do século XIX sentido aquele vento de inspiração para escrever um romance que vai entrar direto para o cânone – e ignorando a existência dos charmosos blocos de notas à venda nas livrarias oficiais da festa e inclusive de laptops e tablets –, aja como se fosse isso mesmo. Se tem algum lugar no mundo para fazer isso, é esse. Também não questione muito se alguém quiser se vestir de árvore, aparecer coberto de folhas e virar um regador sobre a própria cabeça, performance que se viu na edição deste ano. Afinal, literatura é arte, arte é loucura, e louco também é gente. Ou algo assim.

Fale da beleza de uma poeta como a portuguesa Matilde Campilho, declarada “musa” no ano passado, ou então de um romancista como Karl Ove Knausgard, que escreve sobre a própria vida, e foi eleito o galã deste ano. Mas trate de não ultrapassar a linha do bom senso, antes de mais nada porque vão achar que você está sobrepondo a importância da aparência física à do amor e do tutano que a pessoa carrega por dentro – e isso é inaceitável.

Tente, a todo custo, ir à festa da Companhia das Letras, a mais badalada do evento, ainda que seja bem difícil conseguir convite na hora. Expresse essa vontade aos conhecidos que talvez possam conseguir um lugar lá para você, mas sempre ressaltando que “também não vai se humilhar para isso”. Pense na roupa que vai usar, mas não pense muito ou vai chamar a atenção pelo lado errado. O escritor norte-americano Benjamin Moser participou de um dos debates principais de terno e gravata desta vez e, mesmo estando elegantíssimo, despertou nos bastidores a fofoca de que seria “o único da história da Flip a usar gravata” (não o é).

Por fim, quando a maratona intelectual se aproximar do fim, tente imaginar como vai ser capaz de deixar para trás dias tão idílicos de imersão literária nessa bela paisagem do litoral brasileiro, em que alimentou fartamente o espírito e talvez o corpo também, e voltar para a vida real. É um momento duro da Flip, ainda que seja importante você negar isso, sem jamais assumir o que deveria ser óbvio: você é um grande privilegiado por estar aqui e deveria estar algo agradecido por isso.

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