Crime organizado no México

O policial mais perigoso de Sinaloa

Jesús Aguilar Iñiguez é acusado de tortura e de ter vínculos com o narcotráfico, mas continua a ser diretor da polícia

Jesús Antonio Aguilar Iñiguez durante uma entrevista.
Jesús Antonio Aguilar Iñiguez durante uma entrevista.Governo de Sinaloa

O chefe da Polícia Ministerial de Sinaloa, Jesús Antonio Aguilar Iñiguez, tem um passado nebuloso. Há 15 anos se fala que tem vínculo com o narcotráfico, e em 2010 seu nome apareceu numa lista divulgada pela Procuradoria Geral da República (PGR, equivalente ao Ministério Público Federal brasileiro) como um dos homens mais procurados a serviço do crime organizado. Mesmo não tendo sido aprovado nos exames que o qualificariam para realizar tarefas de segurança, foi nomeado diretor da polícia, com o aval do governador Mario López Valdez. Agora é investigado por tortura

A nomeação do comandante conhecido como “Chuy Toño” para a Ministerial, força policial ligada ao Ministério Público estadual encarregada de investigar crimes, provocou surpresa. Depois de permanecer sete anos fora da cena pública, em 2011 foi nomeado para a corporação no Governo de López Valdez. Quando os repórteres perguntaram ao governador por que havia escolhido um homem com antecedentes criminais para esse cargo, ele respondeu: “Com pombas da paz não conseguimos enfrentar a criminalidade”.

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Aguilar Iñiguez não consegue se livrar dos indícios que o ligam ao crime organizado. Em junho de 2013 o semanário Río Doce, publicação especializada em segurança, publicou vídeo em que um membro da escolta do governador conta que os líderes do cartel de Sinaloa, Joaquín “El Chapo” Guzmán e Ismael “El Mayo” Zambada, pediram ao governador, em reunião secreta, que nomeasse “Chuy Toño” diretor da Polícia Ministerial.

“Chuy Toño” é homem da total confiança do governador e tem todo o respaldo do cartel de Sinaloa, afirma Javier Valdez, jornalista que trabalha no Río Doce. “Ele não poderia estar no cargo sem a aprovação do cartel, o narcotráfico determina quem estará lá para facilitar sua operação”, diz. Exemplo disso é que a Ministerial realiza as operações mais intensas nas regiões de maior presença dos Los Beltrán Leyva, inimigos do cartel de Sinaloa, explica Valdez. Além disso, quando prendem integrantes do grupo rival, apresentam-nos aos meios de comunicação e informam a que organização pertencem. Em compensação, quando as operações são realizadas em Culiacán –o núcleo operacional da organização sinaloense- poucos presos são mostrados publicamente. “Eles (policiais) fazem o trabalho sujo, limpam o caminho para o cartel de Sinaloa e eliminam seus inimigos”, afirma o especialista em narcotráfico.

O torturador

Aguilar Iñiguez atualmente é investigado por tortura. Agentes sob seu comando espancaram e sufocaram com uma sacola de plástico uma mulher para que ela se confessasse culpada de um homicídio. O caso de Yecenia Armenta, que ficou quase quatro anos presa, acusada do assassinato de seu marido, e foi libertada em 7 de junho, foi encampado pela Anistia Internacional, que fez campanha por sua libertação. Martín Robles Armenta, subprocurador de Justiça do Governo de Sinaloa, disse ao jornal Noroeste que o chefe de polícia e seus subordinados estão sob investigação desde setembro de 2015, mas nenhum deles foi afastado do cargo.

Um dos problemas mais graves sofridos por Sinaloa, diz Mercedes Murillo Monge, presidenta da Frente Cívica Sinaloense, organização que defende os direitos humanos, é a tortura. Durante os 40 anos em que atua como ativista, quase todos os casos de tortura que chegam a sua entidade são cometidos por policiais. “O que nós defendemos é que se investigue quem manda torturar, e que essas pessoas sejam afastadas; uma pessoa que tortura uma vez faz isso para sempre”, afirma. Além disso, a insegurança aumentou nesta gestão, destaca Murillo. “Desde que (“Chuy Toño”) voltou a ocupar o cargo, os policiais fazem o que bem entendem, e é algo impressionante a insegurança, estamos de novo com muitos mortos”, lamenta.

Aguilar Iñiguez é policial de carreira, ressalta Javier Valdez, mas não é servidor público com uma formação científica com apreço pela lei e muito menos respeitador dos direitos humanos. “Muita gente inocente é presa pela polícia, é extorquida, torturada, desaparece e é assassinada” acrescenta o jornalista.

Sua história com o narcotráfico

Em setembro de 2004 o operador do cartel de Juárez, Rodolfo Carrillo Fuentes, foi assassinado junto com sua mulher em Culiacán. O irmão mais novo do narcotraficante Amado Carrillo Fuentes, “El señor de los Cielos”, foi atacado por homens armados ao sair de um shopping. Pedro Pérez, chefe de sua escolta e então comandante da Polícia Ministerial, tentou defendê-lo, mas foi ferido. Depois disso se soube que a segurança do chefão estava a cargo de vários policiais sob o comando de Aguilar Íñiguez, que era também então diretor da corporação.

O então subprocurador da PGR José Luis Vasconcelos revelou que investigava Aguilar por suposta ligação com o cartel de Juárez. Também, acrescentou, havia acusações de que protegia Ismael “El Mayo” Zambada. Em meados de outubro de 2004 as autoridades federais vasculharam duas casas em Mazatlán e emitiram uma ordem de captura por crime organizado, lavagem de dinheiro e incentivo ao narcotráfico. Três meses antes a promotoria estadual tinha aberto contra ele uma investigação por enriquecimento ilícito ao descobrir que tinha duas casas incompatíveis com sua renda.

Em maio de 2010 a PGR divulgou um acordo no qual oferecia recompensa para quem desse informações sobre 33 lugares-tenentes, assassinos e lavadores de dinheiro do narcotráfico. Na lista aparecia Jesús Antonio. Um ano depois, quando “Chuy Toño” já dirigia a polícia, ele disse numa entrevista ao Noroeste que tinha sido absolvido de todas as acusações feitas pela PGR porque se tratara de um erro administrativo. “Eu me defendi, mostrei todas as provas... demonstrei assim que não tenho nada a ver com coisas ilícitas.”

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