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Muhammad Ali: o rei do mundo

O boxeador era uma espécie de magia, uma esquizofrenia consciente, uma energia tão ambígua como poderosa e ousadamente sedutora

Mohamed Ali
Cruzado de direita de Ali em Foreman na luta de 1974. AP

O boxe nunca me interessou antes de Mohammad Ali, nem me interessou depois, mas ele foi — é — o ídolo da minha vida. Lembro como se fosse ontem da primeira vez que soube da sua existência. Foi em 1964, quando eu tinha sete anos, ao ler um texto em um jornal argentino, o Buenos Aires Herald, publicado em duas colunas no lado direito da última página. Vejo-a agora. Vejo a fotografia, com ele olhando para a máquina, suado e em êxtase; vejo o título, anunciando que se tratava do mais novo campeão mundial de pesos pesados depois de vencer o aparentemente invencível Sonny Liston; e vejo o texto, citando as suas primeiras palavras ainda no ringue depois de Liston se recusar a continuar a luta no começo do sétimo round depois da surra que Ali lhe aplicara no sexto. “I shook up the world!”. Chacoalhei o mundo. “I’m the prettiest!”. Sou o mais bonito. “I’m the greatest!”. Sou o maior.

Acreditei nisso naquele instante, e continuo a acreditar até hoje.

Desde aquele dia, assisti a todas as suas lutas, torcendo para que ele ganhasse como nunca havia torcido antes para que alguém ganhasse alguma coisa, mas foi só quando completei 13 anos que entendi o que havia acontecido comigo em relação àquele homem, que não era do meu país, que pertencia a uma raça com a qual eu não havia tido ainda nenhum contato pessoal. Meu pai tentara me convencer de que as pessoas mais admiráveis eram as pessoas mais inteligentes e eruditas. Ele era grande um grande fã de Harold Wilson, o então primeiro-ministro britânico e dono de um cérebro poderoso que havia tirado notas brilhantes na Universidade de Oxford.

Tive o meu momento de revelação e rebeldia, naqueles 13 anos, quando assisti uma longa entrevista de Ali na BBC e compreendi que perto dele Wilson era apenas um anão. Era de noite, e fiquei hipnotizado do começo ao fim. Ele tinha um grande senso de humor e tanto eu quanto o público que a BBC reuniu para acompanhar a entrevista ao vivo morríamos de rir. Célere e engenhoso em suas respostas, de repente recitava um poema que ele mesmo havia escrito enaltecendo a sua própria glória. Mas, com seus olhos, com seu sorriso, com suas caretas, ele nos tornava cúmplices de sua fanfarronice. Como se nos dissesse: não me levem a sério, mas me levem a sério; estou interpretando o papel de Muhammad Ali, mas este é o verdadeiro Muhammad Ali; rio de mim mesmo, mas, quando digo que sou “the greatest”, também acredito nisso, e é melhor vocês acreditarem também. Era uma espécie de magia, uma esquizofrenia consciente, uma energia tão ambígua quanto poderosa e ousadamente sedutora.

Ali era a própria definição da palavra carisma; era o carisma encarnado — comparável a uma figura lendária, como o Aquiles de Homero, ou histórica, como Napoleão, Bolívar ou Garibaldi. Seu único rival contemporâneo, para mim, foi Nelson Mandela, mas este eu conheci quando eu já era adulto, e minha visão sobre ele passou pelo filtro da racionalidade. Ali chegou a mim pelas entranhas, direto, como um soco no estômago.

O que é o carisma? O carisma é uma luz transmitida a partir de uma confiança gigantesca em si mesmo, de saber, sem a menor dúvida e para muito além de mesquinharias como a altivez ou sua irmã gêmea, a insegurança, que se é grande e especial. Ali criou um personagem grandioso e, com uma enorme generosidade, deu-o de presente para o mundo.

Sou fanático por esporte e já presenciei belíssimos jogos e façanhas extraordinárias, mas nada que se compare à luta entre Ali e George Foreman em 30 de outubro de 1974 em Kinshasa, no Zaire. Eu tinha 18 anos. Em Londres, onde morava, só era possível assistir à luta ao vivo indo às duas horas da manhã em uma sala de cinema de Brixton, um bairro que naquela época era uma espécie de gueto ocupado majoritariamente por negros e que, talvez de forma injusta, tinha fama de ser perigoso. O ingresso custou todo o dinheiro que eu tinha guardado depois de trabalhar durante as férias de verão em uma fábrica. Foi o melhor investimento que já fiz.

Foreman, um monstro, entrou no ringue primeiro. Dava medo, só de ver. Tinha acabado em um único round com adversários que Ali levara 15 rounds para vencer. Seus bíceps eram maiores que as coxas de Ali. A luta começou, e durante os primeiros quatro rounds Ali se entrincheirou apoiando-se nas cordas, cobrindo a cabeça com as luvas, recebendo golpes brutais, uns após os outros, no abdome, sem devolver nenhum. Todos no cinema — parecia que eram todos negros, menos eu — estávamos desolados. Aquilo era um massacre. O quinto round começou do mesmo jeito, mas, de repente, quando tudo parecia perdido, fênix surgiu das cinzas. Ali começou a boxear como só ele sabia, dançando no ringue. Flutuando como uma borboleta, picando como uma abelha. Um golpe de esquerda fez Foreman entortar a cabeça e uma grande gota de suor saltou de seu rosto, molhando o piso. No cinema, todos nós nos levantamos. Quando Foreman caiu na lona, no oitavo round, e o árbitro contou até dez, com Foreman incapaz de se levantar, o barulho emitido em Brixton foi ouvido até no Congo. Eu não conhecia ninguém que estava ao meu redor, mas nos abraçamos, todos, como se fôssemos irmãos.

Vi jogarem Pelé e Maradona, Tiger Woods, Federer e Nadal, Cristiano Ronaldo e Leo Messi. Eles pertencem ao esporte. Ali pertence a todos. “Sou o rei do mundo!”, exclamava — e era verdade. Não só ninguém redefiniu o esporte como Ali, como também ninguém o transcendeu tanto quanto ele. Foi um gigante, uma força elementar da natureza, um furacão humano. Morreu depois de batalhar na sombra durante três décadas contra o seu inimigo mais implacável, o Mal de Parkinson. Mas, para mim, e para muitas e muitas pessoas de todas as raças e crenças de todos os cantos do planeta que tivemos a sorte de viver em seus anos de glória, ele é imortal.

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