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Muhammad Ali, lenda do boxe e ícone do século XX

Tricampeão mundial dos pesos-pesados estava internado desde quinta-feira por problemas respiratórios

Morre Muhammad Ali
Muhammad Ali, em luta contra Sonny Liston em maio de 1965. AP

Muhammad Ali, um dos maiores atletas do século XX, um homem que se reinventou várias vezes e foi o espelho dos traumas e conflitos dos Estados Unidos de sua época, morreu nesta sexta-feira em um hospital em Phoenix (Arizona), aos 74 anos, devido a complicações respiratórias após ter sido internado na quinta-feira. O pugilista lutava há 32 anos contra o mal de Parkinson, um distúrbio do sistema nervoso que afeta os movimentos.

Com a morte de Ali, não só desaparece um dos três ou quatro símbolos do panteão do esporte norte-americano, três vezes campeão mundial dos pesos-pesados e campeão olímpico aos 18 anos: também desaparece um ícone deste país, uma dessas figuras que explicam o que significa ser norte-americano, um homem polêmico cuja trajetória, desde os conflitos sociais dos anos sessenta até a chegada de um afro-americano à Casa Branca em 2009, define a história recente dos EUA.

Apesar da deterioração de sua saúde, até o final não deixou de participar do debate público. Em dezembro, depois que o candidato republicano à Casa Branca, Donald Trump, anunciou seu plano de barrar a entrada de muçulmanos nos Estados Unidos, Ali disse: “Nós, como muçulmanos, devemos enfrentar aqueles que querem usar o islã para impor a sua agenda pessoal”.

Ali, cujo nome de batismo é Cassius Clay, nasceu em Louisville (Kentucky) em 1942. Sofreu as humilhações da segregação racial, mas sempre proclamou sua identidade com orgulho. Um atleta loquaz que exibia seu ego sem modéstia: “Sou o melhor! Sou o melhor! Sou o rei do mundo”, disse quando ganhou o campeonato mundial contra Sonny Liston. Um ativista que tinha mais a ver com o estilo desafiador de Malcolm X do que com o ecumenismo de Martin Luther King na defesa dos direitos civis dos negros. Um herói esportivo que se converteu a uma religião estranha para a maioria dos norte-americanos. Descendente de escravos anônimos, escolheu ele mesmo seu nome e religião: influenciado pelos ensinamentos do grupo religioso Nação do Islã, adotou o nome de Muhammad Ali. “Não quero ser o que vocês querem que eu seja”, disse.

Sua oposição à Guerra do Vietnã não foi apenas retórica: devido à sua recusa ao recrutamento obrigatório, foi condenado a cinco anos de prisão e perdeu o direito de boxear. “O cong [Vietcong, os vietnamitas que lutavam contra os Estados Unidos na guerra] não me chamam ‘nigger’”, disse. Nigger é a palavra mais pejorativa usada para se referir aos afro-americanos nos EUA.

Metade dos EUA o detestava; meio mundo o adorava. “Nos próximos meses, não há dúvida de que os homens que governam em Washington tentarão prejudicá-lo de todas as maneiras, mas tenho certeza que você sabe que tem falado em nome de seu povo e dos oprimidos de todo o mundo, em um corajoso desafio ao poder americano”, escreveu o filósofo Bertrand Russell. O Supremo Tribunal lhe deu razão em 1971, como objetor de consciência ao serviço militar, e conseguiu voltar ao ringue, onde participou e venceu duas lutas extravagantes e lendárias: o Rugido da Selva no Zaire (atual República Democrática do Congo), em 1974, contra George Foreman; e, no ano seguinte, em Manila (o combate conhecido comoThrilla in Manila) contra Joe Frazier.

Aposentou-se no início dos anos oitenta e logo depois foi diagnosticado com Parkinson. Iniciou sua etapa dedicada a causas humanitárias. Ao longo dos anos, o polarizador se tornou uma figura de consenso, celebrada por brancos e negros, de direita e de esquerda. George W. Bush o condecorou.

“Quem poderia ter previsto, no final dos anos sessenta, quando Muhammad Ali era difamado pela imprensa esportiva e pela maioria da América branca como um racista negro, um agitador falastrão, que se tornaria a escolha óbvia para acender a tocha nos Jogos Olímpicos de Atlanta de 1996, como um símbolo da compreensão, da paz e do amor internacional?”, escreveu em 1998 o escritor Budd Schulberg, autor do romance sobre boxe The Harder They Fall, que inspirou o filme A Trágica Farsa, estrelado por Humphrey Bogart.

Quando iniciava sua carreira política, em seu escritório eleitoral em Chicago, Barack Obama tinha uma fotografia de Muhammad Ali em uma luta contra Sonny Liston. Não era por acaso. “Muhammad Ali representa algo mais do que o boxe. Tinha um sentido político, o sentido de um orgulho afro-americano que se reafirma”, disse David Remnick em uma entrevista há alguns anos ao EL PAÍS, autor de uma das melhores biografias de Ali e Obama.

Como Obama, que cresceu em uma família branca e assumiu sua identidade negra quando adulto, Ali também procurou e encontrou sua identidade. “Cassius Clay não queria ser Cassius Clay. Não queria ser um lutador obediente e tradicional da era da segregação”, disse Remnick. “Queria ser algo diferente. Escolheu a Nação do Islã, escolheu outro nome, escolheu ideias políticas que, para ser honesto, ele pouco entendia”.

Ali, como Obama, foi uma figura essencialmente americana: um ícone negro em um país ainda assolado pelo racismo, um homem que criou sua identidade, um homem livre.

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