Banksy, o grafiteiro antissistema, entra num palácio de Roma

‘Guerra, Capitalismo e Liberdade’ reúne 150 obras na maior exposição do artista de rua já realizada Exposição com obras do grafiteiro reacende o debate sobre a mercantilização de suas obras

Um visitante em frente a várias versões de ‘Love Is in The Air’ (Flower Thrower)’ no palácio Cipolla.ERNESTO RUSCIO (GETTY IMAGES) / QUALITY (reuters_live)

Estão lá os velhos aerossóis tremendo sob o pó. Cerca de 150 obras de Banksy, o enigmático desenhista de rua, aquele cujo rosto e verdadeira identidade continuam sendo um mistério, estão expostas num museu do centro de Roma (Itália), entre os palácios do poder e da moda, protegidas por um arco de segurança à prova de grafiteiros descontentes com o rumo mercantilista de uma arte nascida para protestar usando os muros de fábricas abandonadas. A exposição, batizada de Guerra, Capitalismo e Liberdade, é a maior já organizada sobre o artista que despontou em Bristol (Reino Unido) nos anos oitenta. Reúne algumas de suas peças mais conhecidas – por exemplo, a da menina com um balão em forma de coração e a do manifestante encapuzado lançando um ramo de flores – procedentes de coleções privadas, nenhuma arrancada dos muros.

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A exposição começou nesta terça-feira, dia 24, e fica aberta até 4 de setembro no palácio Cipolla (Vía del Corso, 320). Ok, mas será que Banksy , quem quer que seja ele, participou ou está ciente da mostra? “Não posso responder a essa pergunta”, diz um dos organizadores.

O mundo da arte está cheio de fantasmas, mas nenhum com o pedigree de Banksy. Além da qualidade de suas obras e do compromisso de seus argumentos, há um grande mistério sobre sua identidade, que a Universidade Queen Mary de Londres tentou desvendar meses atrás. Os pesquisadores realizaram um estudo com técnicas policiais nos mais de 140 lugares onde Banksy deixou alguma obra. A conclusão: trata-se de um inglês de 42 anos chamado Robin Gunningham. Mas não puderam encontrá-lo.

‘Applause’, 2006. Obra de Banksy exposta na mostra ‘Guerra, capitalismo e liberdade’.
‘Applause’, 2006. Obra de Banksy exposta na mostra ‘Guerra, capitalismo e liberdade’.VINCENZO PINTO (AFP)

“Você acha que ele está aqui? Pode ser qualquer um de nós”, diz Filippo, um romano de 28 anos que acaba de pagar os oito euros (cerca de 31 reais) do valor reduzido da entrada para contemplar a obra de quem durante anos foi um herói a imitar. Já não é esse herói? Filippo pensa na resposta. “Já não tanto”, conclui. “É um debate que surge com frequência entre os que também se dedicam ao grafite, sejam os ocasionais, como eu, ou os que o fazem de maneira quase profissional, como Blu [um dos grafiteiros italianos mais conhecidos]. Um grafite dentro de um museu é como um leão na jaula de um zoológico.”

“Um grafite dentro de um museu é como um leão na jaula de um zoológico”

Enquanto passeia com alguns colegas pelas imaculadas salas da exposição – cada uma com seu atento guarda de segurança –, Filippo diz que os desenhos de Banksy, como o leão cativo, continuam mantendo a beleza, mas perderam o afã transgressor, a denúncia e o perigo, a adrenalina da incursão noturna e clandestina. Até os grafiteiros espanhóis que Arturo Pérez-Reverte entrevistou para escrever O Franco-Atirador Paciente diziam que “os verdadeiros grafiteiros não tentam expor em galerias”. Depois de tê-lo admirado tanto, eles o criticam por ter se vendido a “marchands poderosos, a casas de leilões, a críticos de arte absolutamente venais que participam dos lucros do sistema”, segundo declarou o veterano correspondente de guerra.

Banksy é um vendido? Acoris Andipa, um galerista londrino especializado em sua obra, diz que “Banksy não gosta da dimensão comercial da circulação de suas peças”. Em entrevista ao jornal italiano Corriere della Sera, Andipa afirma que a exposição de Roma foi organizada com a condição de que no título não figurasse o nome de Banksy para, na medida do possível, tirar o “sabor comercial”. Mas o certo é que a mostra – dividida em três temas: guerra, capitalismo e liberdade – não se diferencia de qualquer outra exposição convencional, tendo inclusive uma loja onde as técnicas de mercado souberam domesticar aqueles primeiros grafites sobre os trens e muros de Bristol em camisetas e xícaras de café.

Stefano Antonelli, um dos organizadores da mostra, diz que o sucesso de Banksy está na simplicidade de suas mensagens: “A guerra é algo errôneo. O capitalismo sem árbitros provoca grandes danos. A liberdade não é como havíamos imaginado.

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