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Crise exclui três milhões de pessoas da classe média na Espanha

Domicílios com renda mais baixa sobem de 31,2% para 38,5% do total

Fonte: Fundação BBVA / Atlas

A classe média diminuiu com a crise. Em 2004, as pessoas que viviam com um nível de renda médio chegavam a 59% do total. Três anos depois, essa taxa aumentou. A partir daí, porém, vem caindo a cada ano. Em 2013, ela ficou em 52%, segundo estudo do Instituto Valenciano de Pesquisas Econômicas e a Fundação BBVA. No total, a classe média teria diminuído em 3,5 milhões de pessoas nesses nove anos.

A crise provocou uma queda da renda líquida das famílias. Até 2007, quando atingiu o teto, ela vinha aumentando, chegando perto de uma média de 28.000 euros (cerca de 112.000 reais). Desde então, vem decrescendo constantemente. Em 2013, ano mais recente contemplado pelo estudo, ela ficou pouco acima de 22.000 euros (88.000 reais), cerca de 20% abaixo da de seis anos antes.

A diminuição não se deu de forma homogênea. A distribuição de pessoas de acordo com o nível de renda dos domicílios em que vivem o mostra claramente. Em 2007, 60,6% da população espanhola faziam parte das famílias que podiam ser consideradas de classe média. Na classe baixa, eram 26,6%. O restante, 12,8%, compunha a classe alta.

Seis anos depois – o estudo do Instituto Valenciano de Pesquisas Econômicas (IVIE) e o BBVA analisa o período compreendido entre 2004 e 2013 –, a parte inferior da pirâmide havia crescido significativamente. As pessoas que podem ser consideradas de classe baixa haviam subido para 38,5% do total.

Os habitantes de domicílios com renda média caíram mais de oito pontos percentuais, passando para 52,3%, o equivalente a 24 milhões de pessoas. Em seis anos, essa camada social diminuiu em 3,5 milhões de pessoas.

A metodologia adotada pelo economista Francisco Goerlich e sua equipe para classificar os domicílios de acordo com o seu nível de renda começa pela definição da mediana, que corresponde ao nível a partir do qual se divide a população em duas metades exatas, com renda acima ou abaixo dessa mediana. Uma vez estabelecido esse item, faz-se uma divisão em três grupos: os que possuem renda inferior a 75% da mediana, os que estão entre 75% e 200% dessa mediana e os que estão acima disso.

Aumenta a desigualdade

A consequência foi o aumento da desigualdade. O índice Gini (termômetro que mede a igualdade na sociedade, em que o zero seria a igualdade absoluta e 100 a desigualdade máxima) subiu de 32,2 pontos para 35,4 pontos entre 2004 e 2013.

“A origem principal desses dados está no que aconteceu no mercado de trabalho”, explica Francisco Goerlich. “A sensação predominante é de que as políticas públicas perderam o impacto redistributivo, mas, na verdade, o que aconteceu é que elas não conseguiram compensar totalmente as mudanças provocadas pela crise e pela deterioração do emprego na distribuição de renda entre as famílias”.

“O fator mais importante é a mudança na intensidade do trabalho: aumento do desemprego, do trabalho temporário e do trabalho em tempo parcial”, avalia a apresentação do estudo. “Três quartos do aumento da desigualdade se devem a uma diminuição da intensidade do trabalho por parte das famílias”, prossegue o texto, intitulado Distribuição de renda, crise econômica e políticas redistributivas.

Os pesquisadores do Instituto explicam que a queda da renda foi mais forte nos domicílios com nível de renda inferior, “o que, além disso, levou a uma piora em sua posição relativa, devido, em especial, a fatores relacionados com a deterioração do mercado de trabalho”, afirma o estudo.

Uma das conclusões tiradas pela pesquisa a respeito dos salários é de que “a distribuição salarial tem sido cada vez mais homogênea nesses anos, se comparadas apenas as rendas dos assalariados em tempo integral, pois a crise expulsou do mercado uma proporção maior de empregados com baixos salários”. “A heterogeneidade aumenta quando se incluem na comparação os assalariados em tempo parcial e, sobretudo, os autônomos, setor que registra uma grande disparidade de renda entre os seus integrantes”, avalia.

O impacto das políticas redistributivas

As políticas públicas, em especial as de transferência de renda, ajudam a aliviar as consequências da crise sobre a desigualdade na Espanha. Segundo os dados do IVIE e da Fundação BBVA, essa desigualdade é 45,7% menor do que seria se não fossem essas políticas.

O maior impacto é causado pelas pensões, que incluem benefícios, seguro-desemprego e subsídio à educação. A isso se somam os gastos com saúde pública e as isenções sobre impostos diretos.

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