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Obama defende permanência do Reino Unido na União Europeia

“UE torna a Grã-Bretanha ainda maior”, escreveu o presidente dos EUA, em um artigo

O primeiro-ministro britânico, David Cameron, recebe o presidente de EUA, Barack Obama, nesta sexta-feira em Londres. REUTERS

Um artigo de Barack Obama publicado nesta sexta-feira pelo Daily Telegraph, horas depois do desembarque dele em Londres, marcou o início da campanha do presidente norte-americano contra a saída do Reino Unido da União Europeia. No texto, Obama – líder de um país historicamente aliado ao Reino Unido – argumenta que “a União Europeia torna a Grã-Bretanha ainda maior", observando que “os Estados Unidos, o Reino Unido e a União Europeia transformaram séculos de guerra europeia em décadas de paz, e trabalharam unidos para fazer deste mundo um lugar melhor e mais seguro”.

Horas depois, em entrevista coletiva ao lado do primeiro-ministro David Cameron, o presidente dos Estados Unidos reforçou sua posição e alertou que a eventual saída dos britânicos do bloco prejudicaria a relação comercial bilateral com os Estados Unidos. A declaração há era esperada. Meses atrás o representante norte-americano de Comércio Exterior, Michael Froman, advertiu que “os EUA não estão no mercado para acordos de livre comércio com países individuais”.

Obama se soma assim ao clamor internacional cada vez mais intenso contra o que os europeus estão chamando de Brexit (uma junção das palavras, em inglês, Britain e exit) a possível saída do Reino Unido da União Europeia, coroando uma semana em que a campanha pela permanência no bloco comemora o fato de ter recuperado a iniciativa no debate. Os britânicos votarão em 23 de junho sobre a decisão a ser tomada.

Obama esclareceu, porém, que a relação do Reino Unido com os EUA não está em perigo. "Mas se nosso amigo está em uma organização que fortalece seu poder, sua influência e sua economia, crio que, como amigo, é meu dever dizer a ele que permanecer dentro [da UE] é bom para eles", reiterou o líder norte-americano.

Os britânicos votarão em 23 de junho sobre a decisão a ser tomada

Apesar do difundido temor de que as intervenções de líderes estrangeiros acabem sendo contraproducentes, ao serem vistas como intromissões em um debate essencialmente nacional, o Governo britânico acredita que o apoio do presidente norte-americano será benéfico para a causa da permanência na União Europeia. Obama salienta em seu artigo que se dirige aos britânicos “como um amigo” e recorda que “as dezenas de milhares de americanos que jazem nos cemitérios da Europa são um testemunho silencioso sobre como sua liberdade e sua prosperidade estão inter-relacionadas”.

O presidente do EUA almoçou nesta sexta com a rainha Elizabeth II para “lhe felicitar pessoalmente pelo aniversário” de 90 anos. O primeiro-ministro David Cameron participou do almoço e, em seguida, se reuniu reservadamente com Obama, antes de ambos concederem entrevista coletiva.

A Rainha Elizabeth II recebeu Barack e Michele Obama no castelo de Windson, com seu marido, o príncipe Philip, Duque de Edinburgh.
A Rainha Elizabeth II recebeu Barack e Michele Obama no castelo de Windson, com seu marido, o príncipe Philip, Duque de Edinburgh. AFP

A ingerência de Obama num debate que praticamente monopoliza a política britânica atual foi imediatamente criticada pelos eurocéticos. Boris Johnson, prefeito de Londres e uma das principais figuras da campanha pelo Brexit, acusou o mandatário de praticar a hipocrisia, argumentando que os EUA jamais aceitariam compartilhar sua soberania com uma instituição como a UE.

A visita de Le Pen

O desequilíbrio nos apoios internacionais a cada um dos lados da campanha ficou ainda mais patente na quarta-feira, quando Marine Le Pen, líder da Frente Nacional francesa, anunciou sua intenção de unir forças aos partidários do Brexit. O partido francês anti-imigração prometeu organizar um referendo no seu próprio país se Le Pen ganhar as eleições, e a candidata pretende viajar a Londres antes da consulta britânica para defender a saída. Mas o Vote Leave (vote pela saída), nome da campanha oficial pelo Brexit, respondeu que a visita de Le Pen “não será bem-vinda”.

Obama salienta em seu artigo que se dirige aos britânicos "como um amigo"

O Governo britânico espera que a presença de Obama torne ainda mais positiva uma semana em que os argumentos pró-UE dominaram o debate. Na segunda-feira, o Departamento do Tesouro publicou um relatório de 200 páginas em que advertia que o Brexit levará a economia britânica a se afundar em até 6% até 2030, o que representaria um custo de 4.300 libras (21.800 reais) por família. Em um feroz artigo no The Times, George Osborne, chanceler do Exchequer (ministro de Finanças), referiu-se ao Brexit como “o mais extraordinário ferimento autoinfligido”.

A viagem de Obama representará uma oportunidade para fortalecer a “relação especial” entre os dois países, que não atravessa seus melhores momentos. Washington criticou o foco diplomático que o Governo Cameron dedica à China, supostamente baixando a guarda em outras frentes. O encontro servirá para aproximar as posições dos dois países na estratégia de pacificação da Síria e na luta contra o Estado Islâmico. Mas, sobretudo, para ostentar o apoio de um aliado fundamental, que defenderá que o projeto europeu contribuiu historicamente para a prosperidade e segurança no mundo, e que o Reino Unido deve continuar fazendo parte da UE para manter sua influência no mundo.

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