urbanismo

Brasília abstrata

Fosse a sede do Governo ainda no Rio, estariam as ruas a expressar suas opiniões

Vista do Congresso Nacional, em Brasília.
Vista do Congresso Nacional, em Brasília.UESLEI MARCELINO (REUTERS)

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Fosse a sede do Governo federal ainda no Rio de Janeiro, estariam as ruas a expressar diretamente suas opiniões e humores para seus representantes eleitos.

Estivessem ministros e parlamentares a andar pela Cinelândia, Lapa, pelo Centro do Rio, como acontecia antes de Brasília, ou estivessem eles hoje a usar o metrô, os ônibus, as barcas, o trem, estivessem a sentar nos cafés, bares, sentiriam o que a população pensa sobre o modo deles de conduzir a nação. Em restaurantes caros, ou festas importantes, vez ou outra alguém fica indignado e reclama. E grava no celular.

As crises, continuariam a existir, e muitas vezes seria igualmente tenso, rude até, mas raramente ficaríamos sujeitos a ano e meio de impasse como hoje, com o país a naufragar economicamente, com conquistas coletivas sendo demolidas, empregos a sumir, minando a auto-estima nacional e afastando o sonho e o desejo de desenvolver uma sociedade mais justa e com oportunidades para todos.

Isso acontece porque o espaço público ainda não é o lugar do encontro entre os diferentes no Brasil. E porque não colocamos nossa diversidade em contato, não produzimos jurisprudência social sobre nós mesmos e nossas práticas. Não formulamos hipóteses, não testamos alternativas para uma unidade social e ficamos fadados a repetir um jogo cujas regras são utópicas, sem aplicação no tempo do cotidiano onde realizamos a vida.

Entretanto quanto mais espaços são conquistados, pelos que estavam nas bordas da cidadania, mais espaço exclusivo é institucionalmente gerado, mais lugares para poucos são inventados pela própria representação política, embalada pela utopia, e que fora eleita para democratizar acesso.

Ora chamamos esse jogo de “desenvolvimento”. Ora de “governabilidade”.

A quem coube "acelerar o crescimento", pois a infraestrutura é escassa e cria desigualdades, coube também criar uma casta de "campeões nacionais”, proporcionalmente agora mais opulenta do que eram as desigualdades anteriores.

Muitos incluídos e outros tantos viraram über-cidadãos.

É o metrô que cria helicópteros.

Acontece isso porque o espaço público é um conceito que raramente nossos representantes eleitos reconhecem ou fomentam. O espaço público reiteradamente é o grande vão da democracia brasileira.

Brasília não tem espaço público. Existe apenas um espaço territorial diáfano que contém palácios e monumentos onde uns movem-se velozmente e outros muito lentamente. No tempo e no espaço.

É assim porque foi pensada para ser símbolo. Brasília necessita ser real antes que absorva o Brasil como um buraco negro feito de mármore de Carrara.

Essa semana, confirmando seu pecado original, Brasília ganhou um muro, para o espetáculo do impeachment, no seu eixo monumental, separando brasileiros.

O deslocamento da capital, não foi do Rio para o planalto central, paraíso geográfico equidistante; foi a desterritorialização do centro do poder nacional, foi do denso e humanamente caloroso Catete para um não-lugar esteticamente neo-concreto, materialmente abstrato, eruditamente planejado, além da urbanidade, onde não há possibilidade de existência dentro da realidade rés-do-chão do Brasil.

Nossa criatura civilizatória maior, celebrada por arquitetos e urbanistas, zomba de nós, observando-nos de dentro de sua dimensão cercadinho VIP, quanticamente apartada de um suburbano lotação por um jatinho fretado.

A fratura da representação política brasileira é séria e profunda. O gradil de Brasília não separa brasileiros azuis dos vermelhos, mas é a primeira peça construída do apartheid entre cidadania e classe política.

O sonho de JK acabou.

Brasília necessita ser urgentemente invadida pelo chão das cidades, pelas capitais, pelas regiões metropolitanas, pelos centros urbanos históricos, onde os palácios possuem a pátina do sangue, das revoltas, dos ardis mas também têm a espessura da cultura, do sonho coletivo, do rubor das conquistas. É urgente que o voto distrital misto seja considerado e adotado. É urgente que candidaturas políticas independentes sejam aceitas, liberando criatividade de representação para além dos carcomidos partidos velhos e das nati-mortas siglas novas.

É necessário que surja uma nova capital nacional imaterial, para impregnar os monumentos com a vida real que procura existir nos vulneráveis espaços públicos das cidades, com brasileiros pagando com horas de vida os ônibus da ineficiência territorial sem correspondência com os trevos viários da capital.

Ou preenchemos esses mármores do planalto central com representação política que corresponda aos espaços públicos que cada centro histórico de capital brasileira - perfeitamente coeso nas suas imperfeições – ou serão eles lápides marcadas pelo risco de um muro metálico de show político de horrores.